Muxarabi


Texto: Paloma Durante

escrevo de dentro do turbilhão. Por ser isso, não é? Eu acho. Sabe, às vezes fica muito difícil trazer para a linguagem, sabe, essa comum que a gente divide com as outras pessoas, sensações que estão arrebentando tão forte na parede do estômago. Na dobra da pele. Escrever é um exercício de inconsciência de si, muitas vezes. Um fazer estrangeiro. A palavra é sempre falácia e agora, agora… Bom, agora tento inventar uma narrativa para dizer de mim. Mas esses espaços, esses respiros esbranquiçados, eles… Eles denunciam essa fissura, que permite que o outro caiba, e então já não falo de mim, só de mim. Esses atravessamentos, nossa. É o que me faz pensar que no fim, sou mais leitora que qualquer outra coisa que poderia ser. Nesse estado de turbilhão, sabe, que a gente não define, que a palavra engasga entranhada naquele espacinho entre a boca e o útero (sabe-se lá a origem da palavra no corpo), a gente lê algo que parece arrancado de dentro da gente, o conforto do reconhecimento. E é tão verdadeiro, e tão nosso que, como criar um limite, sei lá, entre eu e Clarice? A devassidão da Hilda. Sou eu também. Tem um poema, um poema enorme, acho que um dos maiores, que dizia que o poeta nada mais faz que pegar aquilo que está no mundo e transforma em… poema. E por isso toda mulher e todo homem seriam poetas, se assim o quisessem. Outro disse que a metafísica das coisas está nas coisas. Quando este turbilhão de mim, sabe, passar, escreverei sendo outra pessoa. Agora, agora eu, só posso tomar tudo emprestado e deixar esses espaços ausentes preenchidos por, por você, desocupado leitor. Sabe, não sei nada de mim, agora. Quando souber é porque já pude me narrar. É que eu estou crescendo. E está tudo uma desordem. É necessário um compromisso com o mundo, um vínculo com… um vínculo (quem sou eu neste momento para delimitar as possibilidades dos algos vinculáveis). Se não faço sentido, sinto significativamente muito. Mas sabe quando a gente não encontra relação nenhuma nos sentires e o pensamento vocifera imagens difusas, e a gente esquece o essencial, como os verbos auxiliares. E os intransitivos, e os pronomes, faz conta errado. Reconhece? A sensação de despertar, mas que só aconteceu dentro do sonho, porque há sonhos que acontecem dentro de outros, sabe, a queda? Não se assombre, por eu querer falar com você, que está aí, bem aí, costurando letra por letra, organizada por um movimento condicionado do olho. Experimenta falar isso aqui, e descobre se eu estava chorando: entende? Saber disso é de uma inteireza de responsabilidade que é só sua. Tão leitor quanto eunós. É que, não posso falar de mim, estou no meio do turbilhão, estou: alargando, quase grande. É um processo que não acaba nunca mais, parece. Um eterno Adeus do que não descola. Queria poder falar disso, mas sabe, não inventaram comunicação para a carne, para a indizível cicatriz. Se pudesse dizer algo para você, diria: tenha uma gavetinha especial para os grampos de cabelo.

-Sabe, eu estou tentando construir algo aqui.

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