Mulherzinhas


Texto: Anna Vitória Rocha // Arte: Dora Leroy

Quando eu era criança e me perguntavam qual era a minha princesa favorita, eu queria dizer Branca de Neve. É óbvio que era a Branca de Neve. No entanto, respondia com o segundo e o terceiro lugar: Anastasia e Mulan. Porque elas eram fortes, subversivas, e eu tive o privilégio de crescer num meio que valorizava essas qualidades. Já a Branca de Neve, quem gosta da Branca de Neve? Ela é tão… mulherzinha.

“Ela é mulher e as mulheres são falsas, cheias de sortilégio!” - frases que marcam uma infância

“Ela é mulher e as mulheres são falsas, cheias de sortilégio!” – frases que marcam uma infância

 

Ser mulher é habitar um mundo onde você nunca está certa. A partir do momento em que nascemos, ou até mesmo antes disso, logo quando o primeiro médico chancela “É menina!”, uma série de regras, expectativas e comportamentos nos são impostos e passam a ser esperados de nós. Não corre, senta direito, fecha as pernas, não suja o vestido, não bagunça o cabelo, tem que se cuidar, isso é coisa de menino, tem que aprender a cuidar da casa, vai passar um batom, que roupa é essa, cadê o salto, não levanta a voz, chora assim porque é mulher, quarto de princesa, festa de princesa, tem que esperar o príncipe, não leva a mal, não responde, fala firme mas não tanto, diminui o tom, aceita essa flor, mulher gosta de flor, isso é coisa de homem, homem não gosta de mulher assim.

Pouco a pouco vamos nos tornando mulheres, ou melhor, nos encaixando naquilo que a sociedade espera de uma mulher. E aí, surpresa!, nos dizem que isso é ruim. Sensibilidade é sinônimo de fraqueza, delicadeza é ingenuidade, quase burrice. Roupas, maquiagens, sapatos bonitos: fútil, ridículo, inútil, vulgar. Se você quiser ser respeitada, precisa agir feito homem, falar que nem homem e colocar o pau na mesa. Para um homem, ser associado a qualquer coisa feminina é ofensa e mariquinha é um xingamento que se aprende no maternal. Mulheres se distanciam da própria feminilidade e das outras mulheres para serem respeitadas. Não sou uma dessas, não quero ser esse tipo de garota.

Arte: Dora Leroy

Arte: Dora Leroy

 

Na ficção, é comum que essas representações se repitam. Quando você busca por personagens femininas fortes, a maioria dos resultados vai apontar para mulheres que, de um jeito ou de outro, assumem características frequentemente associadas aos homens. Elas são bravas, são guerreiras, lutam e não querem ser salvas. Elas são como a Mulan, que se disfarça de homem para lutar pelo seu país, ou como Arya Stark, que trocou as aulas de balé por lições de espada. Elas são Katniss Everdeen, que com seu arco e flecha sustentam uma casa, fazem sacrifícios, lideram uma revolução e não têm tempo para vestidos. Elas são como a Docinho e usufruem do direito de demonstrar raiva, de não abaixar a cabeça, de falar firme e nunca chorar. Elas são uma dos caras.

Veja bem, representações assim são importantes. Personagens como essas importam porque mostram às mulheres que elas podem, sim, lutar uma guerra, usar uma espada, ser líder da casa, fazer uma revolução, lutar, falar alto, e subverter tudo aquilo que se espera de uma moça bem-comportada. Esse tipo de representatividade é reforçada porque precisamos colocar as mulheres naqueles espaços que por muito tempo lhes foram negados – alguns ainda são. A gente precisa dizer para as meninas que tudo bem não gostar de boneca, tudo bem querer ocupar papéis e espaços masculinos porque, no fundo, não existe (ou pelo menos não deveria existir) isso de coisa de homem e coisa de mulher. Nós queremos liberdade e oportunidade de escolha e dominar o mundo enquanto isso.

Porém, é importante que durante essa caminhada a gente não se esqueça de algo muito importante: tudo bem ser feminina.

Uma personagem feminina forte não é sinônimo de uma personagem forte fisicamente. Uma personagem forte deve ser complexa e bem construída, com vida própria, sonhos, medos, qualidades e defeitos, como qualquer pessoa. Enquanto isso for sinônimo de uma personagem feminina com características tradicionalmente masculinas, estamos reforçando, ainda que sem querer, a ideia de que a feminilidade é inferior, uma falha de caráter. Uma personagem feminina cuja personalidade de resume, por exemplo, à força física, em que sua vulnerabilidade é considerada uma fraqueza, é tão bidimensional como uma Mary Sue ou uma manic pixie dream girl.

A falta de cuidado na hora de escrever sobre mulheres acaba nos dividindo em dois estereótipos aparentemente antagônicos: a guerreira forte versus a mocinha fraca; a garota fútil que só se importa com roupas versus a garota inteligente que adora livros; a princesa que vai à guerra versus a princesa que sobrevive graças à gentileza; a super-heroína versus a donzela indefesa. De um lado, a força que vem das características masculinas, do outro a fraqueza que vem das características femininas. Precisamos de personagens femininas fortes que sejam também femininas para acabar com essa ideia preguiçosa e bastante misógina de que uma mulher feminina é chata, bobinha ou pouco interessante. Amigas, nós somos e merecemos muito mais que isso. Mulheres femininas são mais do que donzelas esperando para serem salvas, e força, coragem e bravura não são conceitos que se resumem a um bom gancho de esquerda.

A gente merece uma Mulan que não precise brigar com a identidade feminina para ser levada a sério ou uma Cinderela que não seja traída pela própria gentileza. A gente pode gostar da Arya Stark e enxergar o mesmo valor na sua irmã Sansa, uma heroína cuja força vem da resiliência conquistada em situações horríveis, sem que o fato de ela ser uma garota adolescente tipicamente feminina seja tratado como algo ruim. Precisamos de mulheres como Rose Hathaway, de Vampire Academy, que é boa de briga, boa amiga e adora comprar vestidos. Precisamos de garotas como Lissa Dragomir, da mesma série, que é uma princesa, provavelmente não consegue dar um soco, mas salva o dia através de diálogos e estratégias políticas.

A ideia por trás de qualquer personagem forte é que ele não seja definido a partir do seu gênero, pois uma personalidade complexa não é um privilégio associado a ser homem ou ser mulher. Isso tem a ver com ser uma pessoa de verdade e é isso que eu espero das mulheres da ficção, independente de sua capacidade de manejar armas.

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.