Mulheres escrevem o que querem


Como começar uma matéria sobre mulheres na literatura? De uma forma bem direta e tocando em um ponto bem delicado para todo mundo entender de uma vez  por todas que não, não é mimimi. As mulheres sofrem preconceitos e são minimizadas sim, em várias esferas do cotidiano e que a literatura é mais uma delas. Preparados para o choque de realidade? Então vamos lá.

Você sabe porque Joanne Kathleen Rowling se transformou em JK? Não é porque o nome dela é comprido. Fosse por isso, e ela assinaria Joanne Rowling, primeiro nome e sobrenome, como muitos outros. Joanne, nossa gênia, autora de Harry Potter, teve que assinar JK para que os possíveis e desavisados leitores não deixassem os livros de lado só por se tratar de uma autora mulher. Quer mole ou quer mais?

“Mulher escreve livro de mulherzinha”. Isso é o que a sociedade e o mercado cismam em nos apresentar como verdade absoluta. Vamos corrigir todos os pedaços dessa frase? Vamos. Mulher escreve LIVRO. Mulher escreve livro e ponto. Qualquer um que ela quiser, incluindo, vejam só, os livros de mulherzinha. A propósito: qual o problema com os livros de mulherzinha? O que são os livros de mulherzinha? São aqueles de história de amor com final feliz? Aqueles em que a protagonista é uma mulher em busca da felicidade? Eles são menos importantes que outros livros, por acaso? Ser de mulherzinha é algo considerado ruim por que mesmo, aliás? Porque em pleno 2015 a sociedade ainda tem a pachorra de pensar que obras produzidas por e para mulheres são outro nicho de mercado. Um nicho marginalizado.

Quem costuma perguntar o que os outros andam lendo deve estar cansado de ver mulheres ficarem com as bochechas vermelhas e dizer sussurrando o nome do livro, acompanhado sempre de um: “ai, é de mulherzinha mesmo, morro de vergonha mais adoro”. Por outro lado, muito difícil que sintam a mesma vergonha ao mostrarem estar lendo um suspense ou um grande clássico… geralmente escrito por homens. A famosa literatura feita por e para homens é tida como culta, como superior. Ninguém tem vergonha de ler. Aposto que todo mundo concorda que tem algo muito errado em tudo isso.

Ano passado estourou pela internet a campanha Leia Mulheres 2014, idealizada pela escritora Joanna Walsh, que propôs fazer de 2014 um ano para se discutir a desigualdade de gênero com foco na literatura e, quem sabe analisando, promover um equilíbrio nesse sentido. 2014 já acabou – mas ainda temos muito, muito tempo para ler cada vez mais mulheres e valorizar suas obras.

Tem gente que vai pensar que isso é besteira: “Ah, não vamos colocar sexismo até na literatura, vai. É exagero. O gênero pouco importa na literatura”. E eu digo isso assumindo a causa, porque quando ouvi falar da campanha, foi o primeiro pensamento que tive. O problema é que poderíamos sim não colocar sexismo na literatura, se já não fizessem isso. A literatura feita por homens e para homens acaba sempre com mais destaque; mais evidenciada; na lista dos best sellers, de forma que, sem pensar, acabamos estando sempre firmando contato com obras de autores masculinos. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Brasil Post, 72,7% dos escritores no Brasil são homens. Passando para o campo da representação masculina/feminina dentro das obras, nos 258 livros estudados durante a pesquisa de Regina Dalcastagnè sobre literatura, apenas três protagonistas eram mulheres. 3 de 258. As mulheres estão sendo pouco reconhecidas pela sua escrita e pouco representadas como personagens dentro da literatura em geral.

Mulheres escrevem de tudo. Escrevem o que querem. São plenamente capazes de fazer isso e precisam ser mais valorizadas. E é só alertando as pessoas sobre esse cuidado que a nova JK Rowling, aquela que aparecer em 2025, quem sabe, possa assinar seu nome inteiro com plena tranquilidade e confiança: não é porque ela não é um homem que sua obra receberá menos atenção. Essa matéria pode até estar soando um tanto panfletária, mas tem como uma revista literária deixar passar a oportunidade de lembrar o pessoal de procurar direito na estante – e escolher uma mulher para ler?

Vamos aproveitar essa edição da Pólen para divulgar obras escritas por mulheres! Comente aí embaixo um livro ou autora que você gostaria de indicar e convide os amigos para virem indicar também!

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.