Mudança de casa


Eu, junto com milhares de pessoas no mundo que acompanharam a saga Harry Potter da infância à adolescência, cresci fazendo testes para saber qual era a minha casa em Hogwarts. Vinham de revistas pra meninas, álbuns de figurinha, comunidades no Orkut, sites aleatórios e até de outros fãs. Eu não deixava passar um. E, toda vez que fazia, me dava um friozinho na barriga na hora de ler os resultados. Será que vou cair na minha casa do coração? Porque, claro, conhecendo a história eu sabia com qual me identificava. Era da turma dos que sentavam na primeira fileira da sala, passava quase todo tempo livre com a cara enfiada num livro, adorava usar argumentos lógicos para fugir das tarefas que meus pais me mandavam fazer… Prata e azul eram definitivamente minhas cores.
Porém, eu estava numa fase da vida de poucas certezas sobre mim mesma, de gostos mutantes e muita necessidade de autoafirmação. Era uma questão de honra cair sempre na Corvinal. Como se aquele parágrafozinho explicando as características de um ravenclaw fosse um certificado da minha inteligência, uma prova que eu exibiria para meus amigos potterianos.
Fui acumulando resultados certeiros e ficando cada vez mais confortável ao me imaginar na sala comunal da Cho e da Luna. Quando descobri a Galeria do Rock em São Paulo fui decidida atrás de um colar de águia – afinal, era importante que não só eu soubesse da minha casa, mas que outros pudessem me identificar logo de cara. Dos amigos que liam comigo na escola, sentia uma ligação especial com a que também era da Corvinal. Lá pelo sexto livro eu estava tão segura da minha casa que deixei de fazer os testes, mais interessada em conteúdos do tipo “o que cada casa faria na situação X?”. Lia a resposta racional atribuída a um ravenclaw acenando com a cabeça, pensando: sim, é isso mesmo que nós faríamos.
Os livros acabaram, os filmes também, eu entrei na faculdade e me graduei em Hogwarts. Estava tudo muito bem concluído até que, em junho de 2011, aparece na rede um site misterioso: www.pottermore.com. Longos dias de ansiedade depois, o site é lançado e, com ele, um TESTE OFICIAL COM O CHAPÉU SELETOR. Eu estava extasiada. Tão extasiada que nem tive espaço para ficar nervosa. Fiz minhas escolhas na alegria do momento, hesitando apenas diante de uma pergunta: o que eu não gostaria que as pessoas pensassem de mim. As opções eram bem óbvias – covarde, ordinário, ignorante e egoísta. Eu sabia que a resposta da Corvinal era ignorante. Mas, sendo sincera comigo mesma, selecionei “egoísta”, confiante de que minhas outras respostas me colocariam no meu lar. Dei com a cara no chão. Mais especificamente, no chão do subsolo de Hogwarts, perto da cozinha. Como assim, Lufa-Lufa, Chapéu? Desde quando?
Não sei se já existe uma nova geração de fãs que não sabe o que é viver sem a referência oficial que Pottermore oferece, e não quero pensar nisso para não me sentir velha (vamos esquecer que a primeira edição no Brasil foi lançada há 15 anos). E apesar da oficialidade do Pottermore ser discutível, o site criado pela Rowling deve ter um chapéu-seletor mais certeiro do que o quiz da Capricho, né? Entrei em crise. Foi como se tivessem chegado pra mim e dito que, apesar de eu ter nascido no começo de junho, não era mais geminiana. Aquela minha amiga do colégio disse para eu descartar o resultado do site, foram anos de Corvinal versus um dia de Lufa-Lufa. Mas o que foi visto não pode ser desvisto. Minha identidade mágica havia mudado.
Uma vez superado o choque inicial eu comecei a refletir sobre os motivos da mudança. A Lufa-Lufa é a casa da gentileza, da tolerância, da amizade e da inclusão. As pessoas de lá são leais e altruístas. O mascote é meio tosco, confesso. Difícil trocar uma águia majestosa por um… texugo. Por outro lado, é a casa da Tonks, a metamorfomaga mais descolada do pedaço. E da própria J.K., que diz que todos nós deveríamos aspirar a sermos um pouco mais ‘lufanos’. Percebi que era o orgulho que me segurava na Corvinal. Não que eu saísse por aí me gabando por tirar notas boas, mas a inteligência era uma característica que me definia; eu me apegava a ela para saber quem eu era. Só que a gente não é a mesma pessoa pra sempre, né? Pelo menos não deveria. A vida vai passando e, idealmente, vamos aprendendo com ela, nos dando conta do que realmente importa.
Eu saí de casa e fui morar sozinha, nessa cidade cheia de pessoas diferentes que é São Paulo, pra cursar uma faculdade pública de comunicação… Seria um desperdício não deixar que essas coisas me mudassem. Deu medo, claro. Deu medo de, ao perder uma peça da minha personalidade, me desmontar inteira. Mas esse medo foi gradualmente sendo substituído por animação diante das novidades. Percebi que eu estava muito mais feliz na turma que prefere um dia ensolarado de piquenique no parque a uma discussão teórica envolvendo Sartre. Às vezes torcemos os nariz pra mudanças por bons motivo – segurança, sobrevivência, sanidade. Em outras, é preciso deixar pra trás as coisas que não fazem mais sentindo nos definirem, e abraçarmos nossas novas identidades, que carregam em si um mundo novo de possibilidades. E uma fonte infinita de comida caseira de elfos. #hufflepuffpride!

p.s.: A autora desse texto não acha que a Lufa-Lufa seja uma casa superior às outras. Ela apenas fez as pazes com a indicação do chapéu-seletor.

 

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Sobre Marina Vieira

Uma atibaiense atibaiana que gosta de ouvir e contar histórias. 22 anos, se inspira em figuras respeitadíssimas como Avatar Korra e Finn, O Humano. Acredita fervorosamente que J.K. Rowling está escrevendo "Hogwarts, Uma História" em segredo. Enquanto não é lançado, ocupa seu tempo virando estrelinha na grama e fazendo carinho em todos os animais que encontra.

  • Erick TG

    Eu fiz duzias de testes e todos me resultavam na Grifinoria, enchia meu peito de orgulho .. Porem nunca havia feito um teste dentro do Pottermore, fiz hoje, dia 23/03/2017 e o resultado foi Lufa-Lufa.. confesso que tomei um susto, até procurei formas de refazer kkkkkkk mas como voce disse, é a casa da Tonks, Cedrico .. e da propria JK.. é um grande lar!!

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  • Me sentindo MUITO abraçada por esse texto! Como aconteceu o movimento contrário: jurava que era lufana, e aos poucos fui me aceitando Corvinal. Gosto de pensar que tenho um pouquinho de Lufa-Lufa em mim, mas foi muito importante abraçar a águia interior e fazer as pazes com esse meu lado. Amei o texto demais <3
    beijo!

  • Marina

    Amando de volta <3 Que ótima definição! Ainda me considero 30% Corvinal. É legal pq em todas as casas existem pessoas 'híbridas', que dão um temperinho a mais e tornam toda a experiência mais interessante 🙂

  • Gabriela Couth

    O meu tipo de gente é o que define mudanças drásticas da vida como descobrir que não é mais da casa que sempre achou que fosse. Não dá pra não amar! Hahah!

    Ao contrário de ti, eu nunca tive muita definição de casa. Eu não queria ser lufa-lufa, óbvio, ninguém queria, mas não me identificava muito com a Corvinal nem com a Grifinória (Sonserina, então, jamais). Aí na hora de fazer o teste do Pottermore fui colocada na Corvinal, e chorei tanto ao ler a carta, porque era exatamente isso: não é bem a casa da inteligência. É a casa do pensar diferente, fora da caixinha, de ter suas excentricidades e lógicas. E aí não deu pra não amar, né?

    Mas minhas pessoas favoritas do mundo inteiro são lufanas!
    Beijo!