Monstros no Armário


Texto: Lara Matos

Família é muito mais o sentimento de conforto do que qualificações enquadradas.

Muitas vezes, o berço em que nascemos tem problemas e defeitos tóxicos demais para que consigamos lidar sem grandes prejuízos para nossa saúde. E está tudo bem com romper esse tipo de laço desgastante, a despeito do que diz o senso comum.

Somos formatados para acreditar que nenhum problema familiar é grande demais, e que o suposto amor familiar tudo vence. Óbvio que algumas arestas graves aparam-se com discussões e compreensão de ambos os lados. Só que nem sempre.

Problemas como abusividade, sadismo e crueldade não são “arestas” de convivência. São rusgas que deterioram o psicológico das pessoas, causando danos quiçá irrecuperáveis na forma de transtornos mentais e dificuldades emocionais.

Minha experiência como estagiária em um Núcleo de Defesa da Mulher em Situação de Violência na Defensoria Pública do meu estado deixou claro que os laços familiares às vezes devem ser rompidos a despeito de convenções. Entretanto, fazer isso é muito difícil. Uma das grandes preocupações das mulheres (tanto companheiras, irmãs ou filhas) era com a ruptura de uma dinâmica familiar estabelecida, do medo que aquilo causaria ao redor (amigos e vizinhos comentando, agredindo); uma possível desestruturação familiar, incompreensão e revolta dos demais membros. O medo de represálias (por parte de toda a família, não só do companheiro, pai ou irmão violento) também era muito citado.

O peso de aglutinadora da família geralmente recai sobre a figura feminina, que deve ser convencionalmente diplomática e apaziguadora. Neste ponto, muitas obras de ficção demonstram essa presença e expectativa, traduzida, muitas vezes, como negligência e superficialidade. É o caso de Ruth, mãe de Ruth Anne de Bastard Out of Carolina (que a favor de Glen abandona a fila); de Baby Suggs, avó de Denver em Amada (aqui a agressora é a protagonista Sethe, que motivada pelo desespero, comete um ato terrível de violência contra os filhos); matriarcas tidas generosas que não tomam partido e tentam conduzir a família para o seu melhor.

Um dos exemplos desse peso é bem recente: na novela Totalmente Demais, exibida no horário das 19h pela Rede Globo, a mãe de Elisa, a protagonista, apesar de conduzir o negócio da família, mantinha um relacionamento abusivo ao extremo com o padrasto da garota, um sujeito beberrão e perdulário; a omissão ante o assédio e a violência sofridas pela filha, que até os irmãos mais novos viam, era ultrajante. Não à toa, Elisa engatou um relacionamento com Arthur, que também não era lá um modelo de comportamento, demonstrando que os ciclos de repetem com apenas algumas variações de cenário (ainda bem que não terminaram juntos, nunca tinha unshippado tanto um casal!). Talvez a intenção do autor tenha sido a de demonstrar que o abuso doméstico muitas vezes leva à reprodução de padrões doentios de relacionamentos.

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No livro Eleanor&Park, de Rainbow Rowell, a mãe da protagonista também é omissa ante um contexto gravíssimo de violência. A vulnerabilidade econômica e o medo ficam claros na família de Eleanor. Infelizmente, esse é o motivo de muitos contextos e situações de violência real, em que a omissão não é negligência de fato, é medo: não haver para onde ir ou perspectivas profissionais ou de renda para muitas mulheres e meninas, ou ainda, a morte. A fuga pode levar-lhes a indignidades ainda mais profundas, como prostituição e vício em drogas pesadas e até mesmo ao assassinato quando encontradas pelos parentes. Lembre-se de que no Brasil muitas meninas em situação vulnerável casam-se por motivos econômicos, e há o costume de “vender” meninas em troca de vantagens econômicas, o que muitas vezes as leva a maridos abusivos. Na história de Rainbow Rowell, a omissão baseada num temor visceral da mãe pelos demais integrantes da família, por fim isola Eleanor da família, dos irmãos que ela tanto amava.

Embora seja um assunto pouco abordado, a vivência num contexto violento por crianças do sexo masculino lhes causa muito prejuízo, apesar de haver a regra tácita de presumir que eles sejam menos afetados, porque nosso mundo machista ensina os meninos desde cedo a não lidar adequadamente com seus sentimentos, respondendo às pertubações com hostilidade e agressividade. Muitos meninos que crescem em situações de violência reproduzem comportamentos assim porque simplesmente é o que viram toda a vida. Ser homem muitas vezes concede o privilégio da força numa relação. Não raro, o uso de drogas pesadas e danos a si mesmos também está relacionado a experiências com violência no passado.

Só que quando você fica “neutro” em meio a uma situação de injustiça como essa, você está assumindo o lado do mau. E muitas vezes a resistência das mães, esposas e irmãs é mínima, apesar de significativa; Heleneith Saffioti explica que num contexto de violência doméstica existem atos de resistência que muitas vezes são ignorados: queimar uma roupa ou a comida do agressor em represália, esquecer-se de fazer algo que ele pedira, todas esses pequenos atos de resistência contam para a tomada final de coragem. Talvez seja essa a diferença cabal entre o que escolhi chamar de “omissão apaziguadora”, que encerra esses pequenos atos de rebeldia contra o agressor e a aceitação e apoio a esses atos.

Não ser irredutível quanto desrespeito de particularidades de cultura, gênero ou religião sob seu teto quando se tem poder para pará-lo é ser conivente com o agressor. Esse papel de conivência com agressores geralmente é masculino, que calam as mulheres quando tentam intervir e apaziguar, apoiando os “corretivos” dados. Reparem que não estou falando de ser diplomático como no caso da omissão apaziguadora (também maléfica a seu modo), mas de apoiar os atos do agressor dentro da casa, desprezar e humilhar a vítima tornando-se também um algoz.

Como a ficção tanto demonstra, quem perde nessa medição de forças é sempre o lado vulnerável: como a pessoa violenta não é repreendida e rechaçada por suas atitudes (tanto por impossibilidade ou concordância), muitas vezes elege novo alvo após o afastamento da vítima original e todo o ciclo vicioso reinicia. Um agressor no meio familiar pode até mudar de comportamento, mas apenas se for encorajado a isso com duras reprovações às suas atitudes. Agir como se desrespeito e prazer em causar sofrimento a outras pessoas fossem só “defeitinhos” ou falar que a vítima deveria “provocar menos”, só legitima e recrudesce o comportamento abusivo.

Por os esqueletos à vista e romper com pessoas que preconcebidamente são tudo o que você tem no mundo dói muito. Mas após essa ruptura e o aprendizado de não negar e amar o que se é, há um futuro brilhante. A gente acha amor nos lugares mais inesperados. =)

*Em um texto no meu perfil no Medium, explico que a violência de gênero, homo e transfóbica têm a mesma raiz: a misoginia que causa repulsa sobre o feminino.

*Se você conhece alguma família em contexto de violência, não hesite, disque 180. A denúncia é anônima e não só salva vidas naquele instante, pode salvar destinos inteiros.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.