Modo de Sobrevivência


Texto: Diego Matioli

Eu não gosto de associar homossexualidade a tristeza, já que busco tentar transmitir uma imagem positiva da diversidade sexual tanto quanto possível. Sou assumido a todos os meus alunos com o explicito objetivo de mostrar para uma próxima geração que há pessoas queer, estudadas, resolvidas, bem-sucedidas e felizes, oferecendo o tipo de referencial que eu mesmo nunca tive quando jovem e em formação.  Eu faço isso porque sei que o imaginário sobre a homossexualidade está repleto de histórias tristes, gente sendo assassinada, expulsa de casa, se envolvendo com drogas e prostituição, e que ser gay está bem longe de se resumir a isso, ainda que seja importante lembrar de todos os que já sofreram na longa trajetória que é lutar e garantir nossos direitos.

Só que eu sou um gay que está triste, então eu vou falar sobre isso hoje. Mas por favor, não se esqueça que as palavras que você lê agora não são nada mais do que uma pequena fagulha de ideias registradas em um instante dos milhões que compõe minha vida. Houveram momentos maravilhosos antes desse e haverá infinitos outros depois. Minha sexualidade não é um momento triste, não é um fardo e não é um problema. Ela é só uma característica, cheia de partes boas e ruins como qualquer outra.

Eu acho que, a essa altura do campeonato é lugar comum falar sobre como a gente se sente sozinho quando se descobre gay em um mundo onde essa palavra é um insulto. Eu cresci nos anos noventa, onde as coisas eram bem piores e não havia esse tanto de figuras públicas assumidas na mídia – e sei que, para quem veio antes de mim as coisas foram ainda mais difíceis. Pouco a pouco, o medo que você tem da sua própria sexualidade vai corrompendo todos os outros aspectos da sua vida. Você fica exausto tentando projetar uma ideia diferente para os outros, você se sente alienado dos seus amigos, pois sabe que eles não te conhecem de verdade, você sente inveja daquele casal heterossexual que se beija na rua, pensando que é um tipo de graça que você nunca vai poder alcançar. Mas felizmente, tudo isso passa. Cedo ou tarde você descobre que não faz sentido viver se boicotando e as coisas começam a mudar. Ou pelo menos elas mudaram para mim e muitos dos meus amigos com o passar dos anos.

Só que o fato das coisas terem melhorado não quer dizer que tudo esteja resolvido dentro de mim. Ultimamente eu tenho refletido muito sobre o que aquela época de negação causou em mim. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que dentro dos nossos corações a ausência de algo é tão palpável quanto sua presença, e as vezes eu sinto o vácuo de uma adolescência que eu não vivi. Eu nunca vivi a experimentação, eu não flertei nem explorei o que eu sentia e como lidar com isso; eu nunca entendi o que é perceber quando alguém gosta de você numa realidade anterior a tinders da vida; eu não me dei permissão de cometer erros e aprender com eles. E então um dia eu acordo e estou com vinte e tantos anos, e é esperado de mim que eu saiba o que eu quero e esteja procurando firmar algo sério com alguém.

É claro que, como tantos outros gays, eu tive toda a experiência de uma adolescência normal nos anos de faculdade, em que o extremo da liberdade nos permite extrapolar todos os limites e se redescobrir. Mas as lições de toda uma década de experiências não podem ser substituídas em apenas três anos, e a vida universitária já não oferece a inocência dos primeiros contatos e descobertas. Então apesar de tudo, fica ainda a sensação de que falta algo que eu deveria ter aprendido sobre o mundo. De tantas formas, eu acho que sempre serei um pouco daquela solidão inconsolável de quem achava que jamais poderia beijar outro homem com medo do desgosto que isso causaria nos meus pais, por mais feliz e realizado que eu esteja na vida. Se aceitar e se assumir é algo lindo, é uma forma de empoderamento impossível de descrever, mas não muda o meu passado e o que eu perdi dentro dele.

Eu me pego as vezes sentindo como se ainda não estivesse pronto para ser adulto, mesmo não tendo escolha. Olho para trás e pergunto para onde foi todo o tempo que eu tinha, ainda que lá no fundo eu sabia que eu o gastei obcecado se estava falando em um tom grave o suficiente ou se o fato de eu adorar ouvir Shakira seria visto com maus olhos. É difícil não se frustrar hoje com quem eu era, não desejar que eu não tivesse desperdiçado tanto tempo e me assumido logo. Talvez se eu tivesse feito isso aos quatorze como vejo meus alunos fazendo hoje em dia, eu não traria comigo essa sensação de ter dado a largada bem depois de todo mundo na corrida da vida. Mas eu sei que eram outros tempos, e que o que me aconteceu foi mera consequência deles.

Vivenciar tudo isso me permitiu entender que representar algo significa mostrar para os outros que são como você que eles não estão sozinhos, e que eles podem ser o que quiserem – o que nos leva de volta ao primeiro parágrafo. Eu só não tinha percebido até então que militância, a preocupação com a próxima geração e a luta na verdade eram cicatrizes dos meus velhos ferimentos, que nunca desapareceram. E agora eu me encontro sem saber o que fazer com esses sentimentos, com uma mão indicando o futuro para o qual eu não me sinto pronto enquanto a outra continua agarrada ao passado que eu tento remendar.

E eu só espero que dê tudo certo no final.

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matioli.motta@gmail.com'

Sobre Diego Matioli

Diego é uma pessoa extremamente passional que fala sobre o que sente e sente muitas coisas ao mesmo tempo. Ele também é escritor, professor e o que estiver dando vontade de ser no momento.... Disponível no twitter @Egotista e na Augusta aos sábados a noite.