Moço, deixa a mulher passar


Texto: Marília Moreno // Arte: Raquel Thomé

Em teatro é bem comum começar os ensaios ou aulas com um exercício que a princípio parece muito simples, mas que pode se revelar um grande desafio. “Andem pelo espaço.” A partir desse exercício se entende o movimento do próprio corpo, o tempo do grupo e como estar com muitas pessoas em diversas velocidades sem trombar nelas. Não seria muito interessante se essa fosse uma prática no transporte público?

Imagine o metrô de São Paulo sem pessoas se atropelando ou esbarrando umas nas outras o tempo todo? É claro que, no horário de pico, é inevitável não encostar no corpo d@s outr@s. Mas se todas as pessoas tivessem essa consciência de fluxo e espaço individual, muitos incômodos seriam evitados.

Para a mulher, ter seu espaço pessoal invadido é uma constante não importa se no transporte público ou na vida íntima. Estando ou não no horário de pico, mulheres se encontram diariamente nesse desafio de andar pelo espaço sem que se corpo encoste em outro. Ou melhor, sem que encostem no seu corpo propositadamente ou não.

Imagine agora poder passar pela porta do elevador sem ter que se concentrar para não sentir o desagrado de um corpo roçando em você. Não sei como isso funciona em todas as cidades, mas em São Paulo, o simples ato de passar por uma porta onde mais pessoas se encontram pode ser bem desagradável. Descer do ônibus, por exemplo, é sempre um problema quando existe um cidadão colado na porta. E digo aqui cidadão pois, na maioria das vezes, é um homem que está lá parado sem nunca descer no mesmo ponto que você.

Homens sempre trombam em você. Eles nunca desviam de seu caminho. Também, por que fariam isso se o mundo gira em torno deles, não é mesmo? Dá vontade de empurrar essas pessoas o tempo todo. Isso quando não temos que fazer isso pra poder continuar nosso caminho.

Sim, nós sabemos que nem todo homem faz isso e que nem todos fazem isso de propósito, mas qual é? Você, cara parado na porta, nunca percebeu que existem mais pessoas tentando passar por você? Nunca parou pra pensar que talvez a gente não queira e nem precise encostar em você ou te empurrar pra conseguir descer do ônibus? Vai, nem é tão difícil assim não ser o centro do universo. É só dar uma licencinha. Deixa a mulher passar.

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  • Um dia eu estava subindo as escadas do metrô numa estação aqui do Rio. Estava carregando bolsas pesadas e ia me escorando no corrimão para não perder o equilíbrio com todo aquele peso. Um homem de talvez a mesma idade que eu vinha descendo, as mãozinhas livres, não carregava sacola alguma. Pois ele estancou na minha frente, me forçando a desviar dele, quando o mais simples e educado seria que ele, por motivos óbvios, desviasse de mim. Aquilo me incomodou, pois eu senti todo o machismo contido naquela falta de empatia. Desde então comecei a reparar em como os homens simplesmente parecem não desviar de mim na rua, no ônibus, no metrô… Achei que fosse coisa da minha cabeça. Que bom ter lido esse texto! Não me sinto mais sozinha.