“Minhas duas meninas”, Teté Ribeiro


Texto: Paloma Engelke

 

O título Minhas duas meninas engana. Quando nos deparamos com ele, somos levadas a acreditar que o livro é sobre as filhas gêmeas que Teté Ribeiro, a autora, tem no final de 2013 por barriga de aluguel na Índia. Não é.

A obra conta, em parte, a história da vida da autora, com ênfase no processo de barriga de aluguel. Mas as meninas mesmo não aparecem tanto assim. Na verdade, o que realmente vemos é uma mistura entre os sentimentos da Teté e um trabalho jornalístico sobre aspectos políticos, jurídicos, econômicos, culturais e sociais da Índia.

Toda a história é contada de um ponto de vista muito específico e declarado: uma mulher brasileira de classe média alta que morou em um país desenvolvido por muitos anos e tem dinheiro o suficiente para literalmente alugar o corpo de um ser humano que não teve a mesma sorte para satisfazer sua ideia fixa de ser mãe.

No meio disso tudo, conhecemos ainda alguns personagens que são retratados de forma pitoresca (beirando a estereotipagem) e/ou romantizada. É o caso do Sr. Uday, o motorista cheio de tiradas engraçadas com origem nas diferenças culturais, e Vanita, a barriga de aluguel contratada pela autora e o marido, uma mulher pobre que vê na barriga de aluguel a única saída para pagar as dívidas e juntar algum dinheiro para a educação do filho.

Me pareceu que a Teté, apesar de todo o aparente esforço para tentar mostrar um pouco do outro lado da história (inclusive entrevistando algumas mulheres da Casa das Grávidas – um lugar altamente perturbador onde as mulheres “contratadas” como barrigas de aluguel passam a gestação e uma parte do pós-parto), não conseguiu sair da sua bolha. Ela não conseguiu enxergar realmente a problemática da situação e as variáveis sociais e econômicas tão profundas que fazem com que mulheres encarem como uma opção viável e proveitosa alienar o próprio corpo em troca de dinheiro.

Toda a questão retratada no livro tem uma relação muito forte com as controvérsias recentes do mundo feminista sobre a questão da prostituição. Eu considero um ponto de vista muito inocente (na melhor das hipóteses) acreditar que esse tipo de “trabalho” – em que o corpo feminino é tratado como mercadoria e a mulher perde completamente a sua autonomia – possa ser considerado um “trabalho como qualquer outro”.

A dicotomia entre o universo pessoal e o relacionamento com o outro perpassa o livro inteiro, começando pela relação com a mãe desde a infância até a idade adulta, até a parte mais óbvia – a interação com os costumes indianos e as pessoas que passam a fazer parte da sua vida durante os meses passados no país, após o nascimento das meninas.

A primeira figura colocada como “o outro” no livro é a mãe da autora, falecida anos antes do nascimento das duas meninas. Para a Teté jovem, a mãe é uma figura misteriosa, da qual ela se esforça profundamente para se afastar.

Depois, quando chega ao ponto de viajar meio mundo para conseguir o que quer, o outro passa a ser um país inteiro, com costumes estranhos e personificado em um punhado de personagens peculiares.

A Dra. Nayana, proprietária da clínica de barrigas de aluguel e responsável por coordenar todo o processo, é colocada como uma pessoa bondosa e cheia de intenções nobres, e nunca claramente como o que é: a dona de um negócio que lucra com o comércio (ou, tecnicamente, o aluguel) de corpos femininos. Ela pode até, superficialmente, tratar essas mulheres com dignidade, mas o fundo do negócio em si é desumanizante.

O livro conta a história de uma mulher que queria muito algo (e podia pagar pequenas fortunas por isso), recorreu a todas as opções disponíveis até conseguir o que queria, e aproveitou para escrever sobre essa experiência de vida peculiar. Mas também é um livro sobre o diferente; e (não intencionalmente) sobre como somos cegas a tudo o que foge à nossa realidade.

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Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.