Minha vida com você


Arte: Natália Damião // Texto: Paloma Engelke

No início, eu estava no escuro. Aconchegada com várias iguais a mim, em silêncio absoluto, descansando à espera de algo que ainda não sabíamos o que era. Então veio um chacoalhão, um barulho de algo sendo rasgado, e uma luz muito forte invadiu o meu pequeno santuário. Sem nenhuma explicação, o mundo virou de cabeça para baixo e eu caí. Caí e continuei caindo e parecia que uma eternidade se passava enquanto eu ansiava por imobilidade e segurança, como se parte de mim já soubesse que movimento demais não é da minha natureza.

Então, tão subitamente quanto começou, a queda parou, eu aterrissei em algo macio que me segurou e me devolveu a firmeza. Eu finalmente comecei a me acostumar com a luz e identificar formas à minha volta. Um rosto muito grande me olhou bem de perto. Você foi a primeira coisa que eu vi na vida. Fui delicadamente colocada em um pequeno buraco úmido no chão e coberta com terra. A luz foi embora e eu estava só, pela primeira vez, mas aconchegada. Com aquela única imagem do seu rosto na mente, eu adormeci. E sonhei com você, mesmo sem saber quem você era.

Enquanto eu dormia, coisas foram acontecendo. Um fiozinho estranho saiu do meu corpo, depois outro e mais outro. Eles abriram caminho pela terra e se firmavam como podiam, se preparando para um futuro que eu ainda não conhecia. A cada dia, as coisas pareciam evoluir um pouco, mas tão pouco que eu ficava eternamente dividida entre a frustração da espera e o medo do que estava por vir. Quase sem sentir, eu finalmente me livrei da capa que tinha me protegido durante toda a minha existência até ali, e continuei meu caminho até que, com alguma dificuldade, minha cabeça finalmente venceu a resistência da terra que me abraçava e surgiu para o mundo.

Era noite, mas meus olhos já estavam acostumados com o escuro e eu conseguia enxergar um pouco do que havia à minha volta. Tudo era novo e estranho, tão diferente do meu antigo mundinho úmido e protegido, que agora estava fora do meu alcance. Sem ter qualquer outra coisa para fazer, eu esperei. Esperei por muito tempo até que o mundo começou a clarear e um disco muito brilhante apareceu no céu, me cegando por algum tempo. Eu ouvia barulhos melodiosos que eu não sabia de onde vinham. Então uma porta se abriu em uma casa não muito longe e de lá saiu uma menina. Eu te reconheci imediatamente: o rosto com que eu sonhei durante todo aquele tempo de espera.

Você correu até mim e, quando finalmente me enxergou, ali pequenininha e feiosa, você soltou um grito de felicidade que quase me matou de susto. Correu de volta para casa e voltou lá com um copinho de água, que jogou em volta de mim enquanto conversava. Eu demorei a entender que você estava falando comigo, ninguém nunca tinha falado comigo antes.

— Eu estava tão ansiosa para te conhecer. Você demorou tanto a brotar que eu cheguei a achar que alguma coisa tinha dado errado. Mas agora você está aqui, e logo vai virar uma árvore bem grande e forte…

Você não parava de falar e tudo aquilo me atordoou um pouco, mas eu olhava para o seu rosto e me sentia segura. Eu sabia que você não ia deixar nada acontecer comigo, mas logo você foi embora e eu fiquei só de novo, observando ansiosamente a porta de onde você saía a espera de que você fosse surgir de novo e que ficasse ali comigo para sempre. Você só surgiu no dia seguinte, e de novo eu fiquei imensamente feliz em te ver. Todo dia você vinha, regava minhas raízes, conversava comigo, e ia embora. Às vezes você trazia um livro e lia para mim. Às vezes, em dias de chuva, você não precisava me regar e não podia ficar muito, mas mesmo assim você dava um jeito de vir checar se eu estava bem, e ver seu rosto era suficiente para mim.

Parecia que era isso, muito mais do que a água que você jogava nas minhas raízes ou o sol que alimentava minha fotossíntese, que fazia com que eu crescesse um pouco mais a cada dia. Até o dia em que você conseguiu sentar sob a minha primeira sombra desajeitada. A essa altura, você não era mais uma menina. Eu fui o refúgio do seu primeiro namoro, do seu primeiro término, das suas confidências, e, durante todo esse tempo, era como se você fosse parte de mim.

Então, num belo dia de sol, você saiu de casa com uma mala. Seu pai colocou a mala dentro do carro e você tinha já começado a entrar no banco de trás, quando olhou na minha direção e parou. Desceu, pediu para que ele esperasse um pouco e correu até mim. Você me abraçou como se eu fosse algo muito querido, e não só uma árvore meio desengonçada na puberdade. Eu queria te abraçar de volta. Eu desejei ser pequena e leve e não ter raízes, para poder ir com você para onde quer que você estivesse indo. Você se abaixou, pegou uma das minhas folhas que tinham sido arrancadas pelo último vento que passou, e então foi embora.

Se eu tivesse um coração, ele teria se partido fisicamente naquele momento.

Depois disso, sua mãe vinha todos os dias no seu lugar me regar, mas não era a mesma coisa. A vida não tinha mais sentido quando eu sabia que você não sairia mais por aquela porta para sentar junto comigo e conversar. Ao contrário, aquela casa toda se tornou um grande lembrete de que você não estava mais ali. Os dias que antes eram preenchidos por espera e recompensa agora eram todos vazios e sem nenhum objetivo. Eu não queria mais estar ali, eu não queria mais aquela vida. Por que você me plantou se era para ir embora assim?

Depois de algumas semanas, sua mãe começou a parecer triste e preocupada sempre que saía para me ver. Todas as minhas folhas caíram e eu não sentia mais tanta firmeza nas raízes que eu mesma tanto amaldiçoei. Eu vi seu pai olhar com preocupação na minha direção, e esperei ansiosamente o momento em que eles viriam me colocar abaixo, decretando o fim da minha existência sem sentido. Os dias continuavam a passar e eu me sentia cada vez mais fraca, os ventos passavam por mim e eu balançava mais e mais ameaçadoramente. Até o dia em que eu acordei, olhei para cima, e o céu parecia um pouco mais azul, um pouco mais próximo.

Esse foi o dia em que eu finalmente me dei conta de que, apesar de eu continuar te amando profundamente, e de eu dever minha vida a você, ela era muito maior que isso. Eu sou importante porque eu existo, e vou continuar existindo e sendo importante para cada um que sentar à minha sombra para descansar, mesmo que eles não sejam você; para cada um que usar meu tronco para brincar de esconde-esconde, para pendurar um balanço, para trocar juras de a amor ou para escalar e enxergar muito mais alto do que qualquer humano poderia com os pés no chão.

Nesse mesmo dia, seu pai saiu de casa com um machado na mão, parou na porta, olhou na minha direção, e pareceu mudar de ideia. Eu tive certeza de que a minha revelação tinha vindo tarde demais e esperei com resignação o fim que eu mesma tinha buscado. Mas dia após dia sua mãe continuou a vir me regar, passava a mão em mim, ficava um pouco. Aos poucos ela também começou a falar comigo e eu voltei a me sentir mais do que apenas um pedaço da paisagem. Só então eu percebi que, ainda que nenhum outro ser humano passasse por ali nunca mais, minha vida tinha sentido porque eu era um lembrete de você para eles.

Aos poucos, minhas folhas voltaram a crescer, eu já não me sentia mais tão bamba, e o machado voltou para o armário de onde tinha saído. Eu acordava a cada dia e sentia o sol ou a chuva nos meus galhos, ouvia o vento e os pássaros, enxergava um pouco mais longe na distância.

Um dia, você finalmente voltou para visitar. O momento pelo qual esperei por tanto tempo. Foi bom te ver, você está mais velha, mais madura, mais crescida. Mas eu acho que a melhor parte de tudo foi te olhar lá de cima e perceber o quanto eu cresci desde que você se foi. Eu ainda te amo, mas agora eu sei, sem nenhuma sombra de dúvida, que a minha vida é muito maior e não depende de você. Ainda assim, sou muito grata por você ter sido uma parte tão importante da minha vida.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.