Milagres comuns


Texto: Lara Matos // Arte: Gabriela Amorim

O vislumbre

Uma mulher de pele escura caminhando apressada pelo corredor, que avistei pela primeira vez pelo turbante muito colorido em meio ao aglomerado na estação, sou como um girassol para pessoas que irradiam beleza assim. Tinha a pele marrom avermelhada pelo sol, parecendo mogno lustroso e era alta. Ela estava esperando o próximo trem daqui a uma hora, pois o seu havia sido cancelado.

No banheiro estávamos lado a lado nos espelhos, e quando movi meus braços estando com uma camiseta regata, ela se virou e disse, apontando para a minha axila:

-Você é como eu, tem esse sinal que parece um sol espiralando. Significa que você pode tirar as coisas de si, de sua pele. Também traz uma maldição. Basta fechar os olhos e decorar a forma da marca, e então pedir. Mas só faça isso quando for necessário, pois ao fazê-lo você perde energia e quilos, e fica fraca pois todas as coisas retiradas são feitas de seu sangue, essa é a parte maldita. O sangue das suas artérias, ele é mágico. O das veias é como o de qualquer outra pessoa, mas seu sangue oxigenado, nunca o derrame. E por favor, esconda a marca.

E também disse: os objetos que você for pedindo imprimem-se em sua pele, veja minhas costas, ela apontou. Havia uma série de tatuagens muito bonitas e coloridas, pequenas e espaçadas ao longo da linha da espinha. Uma gota de água, frutas, um navio. Cidades e constelações inteiras.

Assenti.

 

O primeiro pedido

 

Minhas orações não pedem dinheiro, fama ou conquistas que dependam de certo modo apenas de meu esforço mundano. Rezo pedindo proteção, iluminação e amor para me sustentar a vida. Meu primeiro pedido para a minha marca foi esquecimento de uma dor.

O preço, porém, foi muito alto. Passei cinco dias de cama, com algo que de modo oportuno passou-se por uma dengue mas que não era e eu o sabia. Aquele esgotamento de todos os músculos e o mal conseguir respirar vinha da perda do meu sangue, e a palidez e olheiras deixaram isso claro.

Esquecer foi ver as memórias da dor voando materializadas e depois se dissolvendo diante de mim: eram feias, escuras, com garras, e cheiravam mal, embora o horror que vivi e que fora suplantado fosse ainda mais insuportável que elas, o que me fez encará-las e admirá-las de bom grado até que se extinguissem.

Após todo o período de fraqueza e dores, a gravação na minha pele de um sol branco diminuto no alto da minha nuca causou um pouco de incômodo e coceira até assentar-se. Era tão pequeno e escondido pelos cabelos fartos que mal foi notado. Melhor assim, pois não precisei dar explicações sobre de onde isso viera.

Algum tempo depois, notei que o sol feito tatuagem não aparece em fotos porque é mágica e inclusive nem todos os olhos as veem. Houve algo para indagar a mulher, afirmou me conhecer de outrora e que embalou, invisível, a rede em que eu dormia quando eu era apenas um bebê. Falou que me acompanhava citando fatos secretos da minha vida e eu soube que poderia invocá-la por respostas. Mas não foi assim tão simples.

A dor não se extingue até que se compreenda seu propósito.

O esquecimento que moldei foi temporário, fragmentado e inútil. A memória da dor não é a dor, e as coisas permaneceram no meu interior, tensas e pesadas, e novamente estive à beira do abismo escuro do meu espírito.

 

A Herança

 

Há um apego com casas na minha família. Se pudermos evitar, não nos mudamos. Permanecemos, e assim as coisas velhas se acumulam pelas paredes, pelos móveis, eles mesmos relíquias de muito tempo. A casa velha de minha avó, em que minha mãe foi criada com suas muitas irmãs teve de ser reformada. Em um móvel estavam papéis destinados mim, por algum milagre não violados por alguma de minhas tias fofoqueiras; o descobri quando ajudava minha madrinha a limpar um dos quartos para a pintura. Então li que a marca não era minha exclusividade, e que minha avó falecida a tinha e havia identificado também no meu corpo de criança de outrora.

Então havia páginas manuscritas:

 

“Meu bem-querer,

 

Desde muito jovem sei desta marca pois minha avó a considerava bruxaria e tentou apagá-la usando esponjas e pedaços de telhas, até que me ferisse, mas o sinal persistia. Na época, eu não entendia porque uma mancha na pele podia causar tantos problemas. Então um cigano passando pela minha cidade de interior explicou o porquê de tanto problema, eis que minha marca era muito visível, no antebraço esquerdo, próxima ao pulso. O amontoado de problemas de pele que desde o início da vida temos também vem disso. Como também é uma maldição, o corpo tenta livrar-se do sinal. Comigo foram as urticárias, e com você o vitiligo que tentou branquear sua pele tão corada, chegando até perto da marca, mas não conseguindo atingi-la. A mancha branca em seu flanco esquerdo, ela nunca sumiu por uma razão: deseja aniquilar seu signo de predição e pedidos. Espero que a altura que você esteja lendo isso, não tenha conseguido porque a marca permanece mesmo não estando exposta. Como minha bisavó tanto tentou esfolando minha pele e nada conseguiu. E com ela sumida, persiste a conjura e você sequer pode desejar. Mau negócio.

Após os desejos de adolescência, quando mais desejei usar esse meu poder, não pude. Você deve saber sobre sua tia que morreu menina. Pois digo que ela não morreu, deixou-se afogar em um açude como uma Ofélia, o nome deste nosso signo que já teve tantos nomes. Por razões que nunca ficaram claras. Minha filha não quis a vida e tentei trazê-la de volta apenas com meu sangue muito vermelho das minhas artérias e não consegui porque não se trazem pessoas da morte, a mais irremediável das coisas.

Perdi outras crianças, mas esta, aos 13 anos e nessas circunstâncias, nos devastou, a mim e seu avô. Este que também tentou matar-se com uma corda na viga da casa no interior em que passamos férias, você a conhece bem. A viga que atravessa a cozinha até a lavanderia. Aquela porta de madeira grossa que isola o barulho que as lavadeiras eventualmente faziam quando vivíamos lá. Mas pelo luto, aquela casa estava silenciosa e inundada de dor. Não se lavou roupa por algumas semanas. Minhas filhas estavam com minhas irmãs.

Tirei forças nem sei de onde para mover a porta e, entre fúria e desespero, cortar com um cutelo a corda de navio que seu avô tentara usar. Choramos, e ele entendeu que não podia me deixar sozinha com aquela dor no momento em que me viu exaurida por tentar reviver nossa filha com a marca. Eu estava muito magra, e sangrava a olhos vistos pelos poros e meus cabelos longos e retintos já começavam a cair. Após este último arroubo de coragem e força, foram sete dias de cama.

Nenhuma das minhas meninas tem o sinal. Das minhas netas, só você, tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente de mim com esses olhos escuros imensos, esta boca de rosa. A menina que não parece com ninguém. Você é você, como eu também fui minha vida toda, a única de pele azeitonada e longos cabelos negros e cacheados numa casa toda de loiros de olhos claros. A mais não filha das filhas, esta. Você e eu. Seus pais de olhos tão claros e de traços suaves, e você que nunca teve leveza, nem mesmo na infância. Sua alegria infantil de riso frouxo confabulava muitos mundos, sei porque conversava muito com você quando era criança, não sei se você se lembra disso.

E desde de que você era bebê eu vislumbrei essa marca. Mantive o silêncio, sua mãe mistificaria mais que o necessário, e cometeria o maior dos erros de todos os pais, este também que cometi tantas vezes: tentar proteger os filhos das fatalidades. Você, menina de olhos vivos, tem este sinal porque o sofrimento sua transformação e aprendizado, companheiro de seu corpo. Muitas coisas vão lhe acontecer, dores além de todas as dores. Perdas intransponíveis. Mas você resistirá lutando.

 

Ler mais uma vez que tanto poder nada podia com lástimas, lutos e partidas, ao contrário de me deixar abatida e inconsolável como da primeira vez, me encheu de força. Ser duas vezes impotente, já que tirar coisas do meu corpo nada podia fazer pelas minhas dores e as dos outros, é ser duas vezes mais inventiva, ter o dobro de força.

Então para o meu corpo eu pedi um sorriso com a força do sol e uma cabeça sempre erguida; então surgiram na minha pele uma estrela e uma coroa. Até agora, nunca mais recorri a minha pele para obter nada da vida.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.