“Middlesex” e o camuflável Jeffrey Eugenides


É uma responsabilidade muito grande falar sobre a experiência de leitura de um livro que, felizmente, pude nomear como meu “Cem Anos de Solidão” de 2014. Aliás, posso dizer logo de cara que este é primeiro aspecto que encaixa “Middlesex” no tema desta edição da Revista Pólen; afinal, a obra de Jeffrey Eugenides não apenas correspondeu às minhas expectativas, como também as superou.

O plot do segundo livro publicado pelo autor de “As Virgens Suicidas” não é exatamente desconhecido. Logo pela sinopse já sabemos que vamos acompanhar, em quase 600 páginas, a história de um homem intersexual que fora criado como menina nos anos 1950. Enquanto romance de formação, o ponto principal de “Middlesex” é a perspectiva que Eugenides resolve entregar para Calliope Stephanides, nosso personagem principal. Para contar sua história, Cal não retoma os fatos apenas desde quando ainda se conhecia como Callie — uma garotinha do subúrbio de Detroit, que brinca de boneca e aguarda ansiosamente por sua primeira menstrução –, mas prefere voltar à Bursa, vilarejo-natal de seus avós.

Assim, em poucas páginas já descobrimos o maior dos segredos da família Stephanides, e a sensação é de que Eugenides está nos entregando uma bomba, que, por mais que nós saibamos (desde o início) o que acontece quando tudo explode, somos incapazes de largar em algum canto e retomar a própria vida. “Middlesex” é, portanto, um daqueles livros que não conseguimos não devorar, mas, ao mesmo tempo, não queremos chegar à sua última página.

Não sou uma leitora de calhamaços, o que fez com que as quase 600 páginas escritas por Eugenides, de início, fossem bastante desafiadoras. Com o detalhe mais importante da trama revelado em tão pouco tempo, confesso que fiquei muito receosa de que a história de Calliope não fosse ser consistente o suficiente para render tanto. Felizmente, estava redondamente enganada, uma vez que o autor consegue fazer da história da família Stephanides uma verdadeira tragédia grega, em que nenhum dos personagens se torna irrelevante ou mero degrau para o desenvolvimento da trama.

Foto: Gabriela Petrucci

O ponto mais interessante de ter lido “Middlesex” depois de ter começado a ler Eugenides por “A Trama do Casamento” e “As Virgens Suicidas” é poder identificar como o autor consegue se camuflar por trás de suas histórias. O único traço comum aos três livros são as referências à Grécia e a Detroit, porque as narrativas são extremamente diferentes, de forma que se torna quase impossível definir um estilo único ou dizer o que esperar de uma próxima publicação do estadunidense.

Outro ponto comum a “Middlesex” e a “A Trama” é a grande carga de pesquisa sobre biologia. No primeiro, percebemos que o autor se empenhou para ser coerente com a condição de Calliope, além de não deixar passar batidas as pesquisas em torno da construção de gênero e, no momento em que o personagem é levado para conhecer o psiquiatra Dr. Luce, as críticas que o determinismo biológico sofria. Já no segundo, o entendimento do autor sobre o tema acaba dando origem a extensos capítulos sobre os interesses de Leonard e seu estágio em um laboratório que estuda leveduras.

Não fossem esses pontos comuns aos dois livros, os mais desavisados certamente não perceberiam que ambos foram escritos pelo mesmo autor. Se colocarmos “As Virgens Sucidas” nesse pé de comparação, a surpresa é a ainda maior, já que as únicas características que se repetem não chegam a ser estilísticas: tanto Calliope quanto as irmãs Lisbon levam uma vida tipicamente suburbana e todas precisam lidar com as angústias da adolescência. Embora “As Virgens Suicidas” seja realmente um ótimo livro, não acredito que seja equivocado afirmar que todo seu hype se deva principalmente ao filme dirigido pela Sofia Coppola. Isso porque, na minha escala pessoal, “Middlesex” é infinitamente superior ao romance de estreia do autor, que ainda fica alguns (vários) pontos atrás de “A Trama do Casamento”.

Nota: a edição que li foi a da Rocco, publicada no Brasil em 2003. No finalzinho do ano passado, a Companhia das Letras lançou sua edição, mas, pelo que pude ver em uma folheada rápida, a tradução não é muito melhor que a anterior e conta com alguns pecados no ~aportuguesamento dos nomes de alguns personagens, como Lefty, que virou Esquerdinha; ou Capítulo Onze (Chapter Eleven), que agora é Um-Sete-Um.

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