Meu Pai


Texto: Diego Matioli

Minha vó veio ao Brasil com apenas sete anos, foragida da Lituânia por conta da iminência da guerra. Ela foi criada em condições de extrema simplicidade, em uma época muito mais precária que a nossa. Por várias vezes uma certa história se repetiu em sua vida. Ela se aproveitou de alguma oportunidade para tentar ir à escola, pois queria aprender a ler e escrever. Seu pai, ao perceber sua ausência, ia até a instituição e lhe espancava diante dos outros alunos, então lhe arrastava pelos cabelos até em casa. Até que ela não tentou mais aprender, e o trauma se enraizou tão fundo em sua mente que mesmo depois de adulta, nunca conseguiu ser alfabetizada.

Ela teve muitos filhos, dos quais apenas cinco encontraram a maturidade. O último foi meu pai, com mais de vinte anos de distância da mais velha. Quando ele tinha oito anos, seu irmão mais velho morreu afogado. Era um homem muito popular e muito querido, um taxista que era recebido de braços abertos por minha avó toda a tarde. Depois de sua morte, por mais de um ano essa senhora se encostou no batente da porta onde costumava esperar o filho e chorar até alguém lhe por de volta na cama. Por mais de um ano ela parou de funcionar. Por mais de um ano ela teve rompantes de fúria incontroláveis em que espancava meu pai no banheiro até minha tia derrubar a porta e tira-lo de lá. Por toda a infância meu pai apanhou sem saber bem porquê, sendo sua irmã uma figura materna muito mais sólida que a própria mãe.

Violência gera violência. Há veios que correm por gerações manchadas de sangue, uma herança maldita e involuntária, florescida de algum trauma ancestral que nenhum de nós já é capaz de relembrar. É essa máquina monstruosa de cravar cicatrizes que me faz completamente aterrorizado pela ideia de procriar. A possibilidade de cometer um erro que dura décadas. Não que eu faça parte dos ciclos de violência que engrenaram a história de minha família. Não da mesma forma, pelo menos.

Meu pai procurou redenção. Visitou os templos de todas as religiões que você puder imaginar, conheceu minha mãe em um grupo de jovens da igreja e se casou. Tinha o sonho de ser biólogo, mas abandou o curso para fazer administração por ser mais lucrativo. Por anos eu me senti culpado por achar que meu pai havia desistido de sua ambição por minha causa, mas na verdade percebi que era o contrário. Ter uma família era o maior sonho do meu pai. Uma família que ele pudesse criar sem violência e abuso, sem mais traumas inenarráveis. Isso valia mais do que a biologia. Ele descobriu como perdoar minha avó por seus excessos, percebendo que sua história era apenas parte de uma roda muito maior e mais assustadora, cuidou dela na velhice, deixou ela conviver com os netos, deu Adeus sem um pingo de arrependimento quando a hora chegou.

Não que eu não tenha minha dose de lembranças ruins. Meu pai nunca teve afeto, então nunca soube demonstra-lo. Isso já acarretou em uma série de situações desagradáveis e sentimentos negativos, mas que não são um décimo do que ele havia passado, ou sua mãe antes dele. Hoje vejo meu irmão educando meu sobrinho com um carinho que ele não conseguia ter e percebo que o trabalho de sua vida valeu a pena. Ele mudou a história da família através de educação e fé. Eu o admiro muito por isso, mas sei que ele é um em um milhão de pessoas que sofreram e fazem sofrer sem perceber. Pessoas que fazem a roda dos ciclos de violência continuar a girar.

Eu nunca vou sentir na minha pele a dor desse tipo de violência, então não me sinto no direito de dizer o que qualquer um deva fazer, mas eu desejo de todo o coração que se você tiver passado por algo assim, que consiga ressignificar sua dor, seja pela fé ou por um terapeuta. Porque a maior lição que meu pai me ensinou é que a única saída verdadeira para o trauma é o amor. E eu só posso desejar poder amar algo um dia com a mesma intensidade com que ele me amou.

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Sobre Diego Matioli

Diego é uma pessoa extremamente passional que fala sobre o que sente e sente muitas coisas ao mesmo tempo. Ele também é escritor, professor e o que estiver dando vontade de ser no momento….
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