Metas de leitura e desgraçamento mental: como lidar


2016 foi um ano meio cagado na vida de todo mundo, mas pra mim ele foi particularmente ruim no quesito livrístico. Nas duas vezes que fiz o desafio de leitura do Goodreads (2012 e 2015), consegui cumprir minha meta. Achei que conseguiria o mesmo em 2016, mas eu não contava com… bom… 2016 acontecendo.

Comparado com os anos anteriores – mesmo nos anos que não coloquei meta, contabilizei quais livros tinha lido, isso desde 2011 -, foram 35 lidos ao todo, o que achei pouco considerando que antes esse número anual era superior a 50. O ano de 2016 foi um eterno “x books behind schedule“, o que me fez chegar ao fim do ano genuinamente chateada e com aquela sensação de fracassinho. Eu tinha colocado 50 livros como meta. Mais ou menos um por semana, como é que eu não tinha conseguido ler um mísero livrinho por semana? E não foi por falta de livro bom disponível nas estantes, no kindle e no kobo. Eu estava cercada de coisas legais pra ler, mas lá estava o Goodreads pra me lembrar do meu desastre. Eu era uma péssima leitora. Eu era uma fraude.

Até que eu resolvi dar uma olhada nos 35 lidos ao longo do ano. Pra 24 deles, dei 4 ou 5 estrelas. Até o um ou outro que eu não gostei não foram casos de livros ruins, mas de leituras com as quais não rolou química. Eu gostei dos livros que li. Muito. E se gostei muito do que li, se eu olhava esses 35 livros e me sentia satisfeita com as leituras feitas, por que diabos eu tinha essa sensação de fracassinho literário?

Porque eu não tinha conseguido cumprir um número determinado de leituras. Porque a partir do momento em que decidi que leria 50, 60 ou 70 livros, e tinha um contador que me lembrava em quantos deles eu estava atrasada, a quantidade de livros passou a ser mais importante que a vontade de ler. Porque 2016, tendo sido tão cagado, foi um ano em que minha vontade de ler seguiu esse caminho.

Acho que desde a época do colégio todo mundo sabe que leitura feita de forma obrigatória é praticamente certeza de desastre. Claro, surpresas acontecem, mas quantas vezes você pegou um livro de má vontade e realmente aproveitou a história? E pra cumprir minha meta de 2016, eu teria que ter feito isso. Eu precisaria ter lido coisas sem a menor vontade, correndo o risco de não aproveitar um livro que talvez, se lido na época e no clima certos, pudesse ser um novo favorito.

Não quero dizer que metas de leitura numéricas são coisas terríveis. A questão é como você as encara. Se de um lado podem se tornar um peso e fonte de angústia, como foi meu caso em 2016, de outro também podem servir de incentivo. Talvez saber que você se comprometeu a chegar ao fim do ano com x livros lidos seja o que te falta pra encontrar no seu dia um tempinho pra leitura. Pode ser que te obrigue a deixar um pouco a internet de lado e abrir um livro, e fazer essa detox de internet às vezes é algo benéfico pra sanidade. Também depende de como você encara uma meta numérica não cumprida. No final das contas, o quanto você se divertiu lendo precisa valer mais do que quantos livros foram lidos. Senão você corre o risco de chegar no fim do ano com 8573973 livros lidos sem ter gostado de nenhum deles de verdade. Eu me senti bem melhor com meus “35 de 50” depois de ter revisado as leituras pensando no quanto elas me agradaram. Não que a sensação de fracassinho tenha sumido por completo, mas quando ela surge, fica mais fácil de lidar.

Eu falei de internet lá em cima, e talvez ela contribua pra essa angústia que surge quando a gente acha que não tá lendo o suficiente. Divulgação de livros, promoções e resenhas tem aos montes no Facebook e no Twitter, e se você gosta de ler, provavelmente segue outras pessoas que gostam de ler. Aí começa a se comparar com aquele booktuber ou blogueiro que consegue ler mil livros por mês, e vê todos os muitos lançamentos legais que saem todos os meses, e mais aqueles que você comprou naquela promoção e não leu ainda, e tem aquela sua amiga que sempre tá em dia com os best-sellers, e aí você se sente O Pior Leitor do Mundo por não dar conta de livros que, se pensar bem, nem quer ler tanto assim. Essa parte eu ainda não sei como resolver, mas levar em consideração que pessoas têm hábitos de leitura diferentes, que leem em ritmos diferente, que têm mais ou menos tempo pra dedicar a isso, ajuda bastante.

Lembrando que, na bolha da internet em que acabamos cercados de pessoas que leem muito e falam sobre isso o tempo todo, é fácil esquecer que no resto do país não é assim. Não são TODAS as pessoas com as quais você convive que leem  em quantidade. Talvez parte delas não chegue a 7 livros por ano, por exemplo. Talvez parte delas sequer leia um livro inteiro no ano. E tá tudo bem. Ninguém tá mais ou menos certo nesse rolê.

Mas e como faz pra pessoas como eu, que NÃO CONSEGUEM não colocar meta de leitura? Tanto que tá lá a minha de 2017. Uma alternativa é analisar melhor sua rotina e ver se, ao invés de colocar que vai ler 70 livros num ano, talvez não seja melhor colocar 30. Outro tipo de meta legal é a que não depende de números, mas das próprias leituras feitas. Decidir ler mais livros nacionais, ou mais livros escritos por mulheres, ou mais clássicos, mas sem decidir quantos. Ou até deixar como meta de leitura analisar quantos livros você lê por mês quando não tem obrigação de atingir uma cota e ver como a coisa fica no fim do ano.

No final das contas, a pergunta mais importante não é o quanto você leu ou o quê, mas o quanto você aproveitou disso tudo.

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  • Samara Maia Mattos

    Cadê botão de curtir para a vida?!
    Estou aqui, na frente do meu computador, aplaudindo de pé. Sou como você, Mareska, meio que não consigo deixar de colocar metas de “quantidade” de leitura para o ano. Mas, assim “tamu junto!”. Acredito que, mesmo quando o sentimento de fracassinho vem bater, o que vale mesmo é o quanto você se divertiu nos livros que escolheu ler ao longo do ano. Porque eu não presto, já coloquei minha meta de 2017 lá no Goodreads.
    Sabe outra coisa que me deixa ansiosa e desgraçada da cabeça?! A velocidade de leitura que o Skoob coloca lá no perfil. Aquele PPD me alucina de vez em quando… ainda mais quando você começa a ver ele diminuir com o passar do tempo… É quase tão ruim quanto o fracassinho da meta. Quase.
    Beijos! <3