Mentira!


Olha, esse texto foi difícil de escrever. Não sei se porque é meu primeiro texto na revista e o processo me lembrou muito um parto (mentira, não lembrou nada, porque felizmente eu nunca tive que passar por um, mas vocês entenderam) ou se porque quando me avisaram que o tema era “mentira”, meu cérebro deu tela azul só de pensar em como começar esse texto. Isso porque esse é um tema sobre o qual eu podia falar três dias e três noites sem parar porque é simplesmente gigante. Era muita ideia para pouco caractere.

Depois de escrever mil temas possíveis, riscar alguns, adicionar outros, pesquisar, dormir, começar a escrever, apagar tudo, recomeçar, parar para um lanche, assistir as três primeiras temporadas de Downton Abbey de uma vez, esquecer o que eu tinha que fazer, voltar a escrever, lanchar mais uma vez, enrolar a editora, pedir conselhos a Deus e o mundo e lanchar de novo, eu percebi: mentir é muito mainstream, o negócio é escrever esse texto falando só a verdade (rsrsrs, não, é sério) e tentando omitir o mínimo possível, rapaz! Porque, com licença, mas eu acho muito fácil mentir falando que eu sentei e escrevi isso em uma tarde, quero ver mentir falando a verdade.

*clap clap clap*

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Eu, no auge da euforia porque finalmente tinha saído do lugar e superado o bloqueio criativo (fuck yeah!), de cara pensei que se eu passasse um dia sem mentir e contasse a experiência aqui ia ser algo legal e digno, e estava decidida a fazer isso, até minha mãe fazer o favor de ligar e acabar com meu plano querendo saber se eu finalmente tinha ido me inscrever na academia. Tá, mas a ideia foi idiota mesmo, até parece que eu ia conseguir…

Mas o resto do dia eu fiquei observando o tanto de balela que tem na minha vida. Spoiler, gente: é muita. Muita mesmo. Balela, balela everywhere. A maioria é inofensiva, eu juro, tipo falar que eu tenho um compromisso importante no outro dia e não poderei sair com ninguém em vez de falar logo “desculpe, mas a essa hora eu já não estou mais usando calças, meu notebook está ligado na minha frente com 457 abas do Buzzfeed abertas e eu fiz pipoca… Então posso te garantir que não existe mais esperança. Mas valeu!”. O problema é que se você disser isso há uma possibilidade grande de ninguém te chamar mais para nada. Acredite, been there. É quase como se às vezes os outros quisessem a lorota mesmo, porque aí quando você abre o jogo e diz que não vai sair porque vai arrumar a casa para a faxineira que vem no outro dia, você, uma pessoa solidária que não quer abusar daquela profissional e nem passar a vergonha que seria se ela visse o seu habitat natural, é zoado por tempo indeterminado enquanto na verdade, todo mundo faz a mesma coisa (né gente? NÉEE?). Ou seja, mentiu? Tá marcado, é mentiroso safado e vai queimar no mármore do inferno. Falou a verdade? Lascou do mesmo jeito.

Sinceridade nem sempre recebe o devido valor e isso, além de me deixar P da vida, é também o principal motivo pelo qual o homem mente “desde o tempo que Adão era menino” (NELSON, Vovô) e não tem nenhuma intenção de parar. Ninguém é doido de ser 100% sincero o tempo todo. Deusmelivi, é capaz até de acabar em morte. Daí a razão pela qual hoje a gente tem a mentira como algo praticamente institucionalizado, quase como um mecanismo de sobrevivência. Certas mentiras são tão comuns que nós nem as percebemos mais como mentiras, tipo dizer que leu todos os termos e compromissos (jamais!), que tá chegando, já tá no túnel (e a ligação perfeita né, tem que ver issaí), que não viu a mensagem e seu Facebook/Whatsapp já tá com esse problema faz um tempo ou que você e aquela pessoa aleatória que você conhece não-sei-de-onde e encontrou em um lugar mais aleatório ainda vão marcar sim, com certeza, eu te ligo, hein?

mentirinhas

Não me diga mentirinhas… :'(

A verdade é que mais da metade de nossas mentiras são para agradar alguém, para parecermos mais legais, mais interessantes e cultos, para evitar um climão ou para encobrir defeitos que tratamos como se fossem exclusividades nossa. Analisando todas as balelas na minha vida eu pude perceber que minhas mentiras, grandes ou pequenas, eram em grande parte como aqueles vidros espelhados que te impedem de ver o que tem dentro de alguns prédios e só servem para manter uma visão agradável do exterior e para exercitarmos nosso narcisismo no meio da rua. E em tempos selvagens de redes sociais, essa coisa de mostrar que você vive uma vida emocionante, toda perfeita e coberta de Lo-Fi é quase uma obrigação. Não que a mentira para manter as aparências seja uma invenção da nossa geração, mas não dá para negar a burrada enorme que fizemos ao nos dar mais trabalho ainda, já que agora a administração dessas mentiras todas tem que ser feita tanto no mundo virtual quanto fora dele. É preciso muita habilidade e vontade para levar essa vida dupla só para agradar os outros e ainda assim, que merda que deve ser odiar ou ser contra algo que todo mundo curte e defende e ter que acompanhar só para não deixar a peteca cair. O mesmo serve para a situação oposta (força aí para todo mundo que gosta de ver BBB mas nega até a morte saber quem está no paredão).

Eu me recuso a terminar esse texto com uma conclusão iluminada e sábia do tipo “ninguém precisa mentir para agradar ninguém, seu compromisso é com você mesmo apenas”. Primeiro porque ia pegar mal já que lá no começo eu prometi ser o mais sincera possível (e me arrependi lá pela metade, mas se deu para chegar até aqui né…), e segundo porque isso é uma coluna de humor (será?) e coluna de humor tem que ter essas coisa não, ainda bem. Mas uma coisa eu posso garantir: o mundo não vai lhe condenar ao ostracismo eterno se você confessar que sabe quem tá no paredão do BBB ou que nunca leu Harry Potter. Mentira, vai sim.

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Sobre Laura

Laura é uma universitária cearense que adora o próprio sobrenome e nunca conseguiu perder o sotaque. Sobrevive no Rio graças à companhia de amigos também forasteiros, muita tapioca, rede e Luiz Gonzaga para matar a saudade quando a coisa tá braba e uma vontade de fazer algo incrível com a sua vida, apesar de ainda não ter a mínima ideia do que seria. Enquanto isso, perde noites demais pensando no sentido de tudo, sofrendo com a formatura que se aproxima e rindo sozinha das próprias piadas que acha serem engraçadas (fazendo isso agora mesmo).