Memórias fabricadas


Texto: Maynnara Jorge

Eu tinha uma ideia completamente diferente para o texto desse mês, mas lendo “Pílulas Azuis” me deparei com uma frase em que ele falava algo sobre como a maior parte da nossa infância é fabricada e fiquei refletindo sobre o quê dos momentos que mais amo realmente foram marcantes ou se apenas fui criando um enredo melhorado pra eles ao revivê-los ao longo dos anos?

Eu sempre gostei de ler e de escrever e acho que eu tenho uma imaginação mais fértil que a do Bob (do fantástico mundo de Bob) e quando comecei a pensar nisso tudo acabei ficando com medo de não lembrar o que passou realmente e sim uma versão romantizada que criei para fazer a minha vida mais interessante na minha cabeça.

Passei então a rever todos os roteiros memoráveis que posso ou não ter escrito apenas na minha cabeça e não, de fato, ter vivido. Lembrei da história que mais gosto de contar pras pessoas que é a de que eu aprendi a andar de cavalo antes mesmo de aprender a andar de bicicleta e não sei se isso é verdade. Eu lembro que quando montei Catarina (a égua do meu tio-avô) sozinha pela primeira ver eu era tão pequena que precisava de um banquinho só pra conseguir alcançar colocar o pé na sela e me imaginei de volta ao ar livre com vento no rosto enquanto corria com ela pelos sítios da minha família. E agora me pergunto se isso tudo foi verdade ou se eu só romantizei meu momento Cavalo de Fogo.

Um outro momento que eu lembrei foi de quando a minha irmã começou a namorar pela primeira vez (não sei se realmente foi o primeiro namorado dela, mas é  primeiro que eu me lembro) e como nós temos uma diferença de idade de 10 anos, sempre rolava aquelas brigas ridículas de irmãos. Eu, pensando no meu futuro como escritora de novela mexicana, em um dia de raiva da minha irmã peguei o meu melhor lápis hidrocor azul e escrevi uma “carta” assinada como o namorado dela na época dizendo que ela era muito “xata”. Hoje eu tenho vontade de me enterrar pensando nisso e nem sei o que aconteceu depois, mas lembro que na época eu achei que era genial.

Aí parei pra pensar, será que as lembranças do que contam pra gente também podem ser fabricadas? Há um tempo a minha mãe estava contando para alguém que eu acordava muito cedo quando era pequena e sempre queria ir pro quarto dela, mas que no domingo ela gostava de dormir até mais tarde, por isso passou a fechar a porta para eu não entrar e que depois eu comecei a pegar meu lençol e travesseiro e ficar deitada na porta do quarto dela até ela acordar. O mais bizarro é que depois disso eu comecei a lembrar vividamente dessa cena, eu deitada na cerâmica fria e marrom do corredor esperando por ela.

Escrevendo esse texto, acabei vivendo um momento daqueles de filme, onde você tem pequenos flashbacks de coisas do passado, as imagens parecem nítidas, você se vê observando uma versão menor de si mesmo fazendo coisas que você pode ou não ter feito e ainda assim é algo que você gosta de repetir, seja isso triste ou não. Parece estranho e ao mesmo tempo emocionante.

No fim, percebi que não importa se as minhas memórias foram fabricadas, romantizadas ou até mesmo inventadas, o que realmente me deixou feliz foi perceber que independente de serem assustadoras, sem sentido ou engraçadas, esse pequenos fragmento foram importantes e significativos e me fizeram ser quem eu sou e eu sei que isso parece fim de livro clichê sobre amadurecimento, mas foi o que eu realmente senti ao relembrar a minha história.

 

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Sobre Maynnara Jorge

Maynnara é paraibana, mas atualmente mora em São Paulo. Formada em Jornalismo e Produção de Moda. Ama ler, escrever e sente falta dos seus dois cachorros que ficaram na sua cidade. Ela também está no twitter como @maynnara_