Memória Pólen: livros que marcaram a infância


A primeira coisa associada à memória é, claro, o passado. Para a maioria de nós, que crescemos já lendo mais do que tínhamos tempo para ler, os livros foram parte importante do passado. Por isso, resolvemos falar sobre aqueles que marcaram nossa infância. Dos clássicos da coleção Vaga-Lume a não-infantis, revelamos nossas lembranças favoritas passadas na companhia de um livro e de uma imaginação a todo vapor.


Longe é um lugar que não existe, Richard Bach (Record) – por Analu

LONGE_E_UM_LUGAR_QUE_NAO_EXISTE_1376434312BDevo ter lido um bocado de livros infantis quando era criança, mas curiosamente o que mais me marcou não é infantil, de fato. É de vida. E quando eu tinha 8 anos eu não o entendia – mas amava mesmo assim. Estou falando de Longe é um lugar que não existe, do Richard Bach. Pouquíssimas páginas, pouquíssimo texto, belíssimas imagens e muita metáfora. O livro fala, obviamente, de distância e proximidade – e tenta nos explicar que todo mundo que quer estar junto, na verdade, já está só de querer.

Porque eu entrei em contato com esse livro aos 8? Porque me mudei de cidade (pela primeira vez) e tinha certeza que meu mundo estava acabando. Quem me deu foi minha tia, da qual eu absolutamente não queria me separar. Choro só de pensar que perdi meu exemplar desse livro, porque a dedicatória era quase tão bonita quanto o próprio. O fato é que ela disse que sabia que eu não iria entender naquele momento, mas um dia iria, e aquilo era tudo o que ela queria me dizer: “não entendo o fato de estar indo até o seu amigo; se quer está com ele, já não está?

 

O Caso da Borboleta Atíria, Lúcia Machado de Almeida (Ática) – por Lorena Piñeiro

O_CASO_DA_BORBOLETA_ATIRIA_1341256327BDepois de levar muitas boladas na cara e perceber que não seria uma grande atleta do handebol, passei a fazer bom uso das minhas alergias respiratórias e seus atestados médicos para matar a aula de Educação Física. Não sigam meu exemplo, crianças, hoje não consigo subir um lance de escadas sem ficar ofegante. Mas continuemos. Aquele papel assinado pelo doutor era meu tíquete para a liberdade. Passava duas horas lendo nos meus cantinhos secretos ou visitando o laboratório de Ciências, onde o professor sempre trazia alguma coisa legal para me mostrar. Um dia, a magia do universo fez com que esses dois passatempos colidissem.

Meus livros favoritos no mundo – logo atrás de Harry Potter, claro – eram os clássicos da coleção Vaga-Lume. A Ilha Perdida, Éramos Seis, O Escaravelho do Diabo, O Mistério do Cinco Estrelas: li todos, amava todos. Foi daí que nasceu meu amor por romances policiais. Um deles, no entanto, tinha um lugar especial no meu coração: O Caso da Borboleta Atíria. A trama era simples, lúdica, quase bobinha. Tudo começa com a morte de uma princesa – no caso, a noiva do Príncipe Grilo. O atentado contra a realeza da floresta deixa todo mundo num clima meio Game of Thrones. E aquilo foi só o começo: mais borboletas aparecem assassinadas por um ser que todos imaginavam ser uma coruja do mal. O detetive do bosque, Papílio, e a borboleta órfã, Atíria, precisam solucionar o mistério. Tá permitido contar spoiler de livro que foi publicado em 1975? Vem aí o maior plot twist da minha infância: a verdadeira culpada por trás dos assassinatos não era a coruja que todos viam, mas sim Caligo, uma borboleta aparentemente inofensiva, acompanhante do Príncipe Grilo. O nome é derivado da nomenclatura científica de sua espécie: caligo eurilochus. Procure no Google e você vai perceber que, de cabeça para baixo, a borboleta é quase idêntica a uma coruja. A camuflagem fascinante permitia que ela permanecesse impune.

Aos 11 anos, eu estava determinada a ser bióloga. Durante uma daquelas aulas de Educação Física, corri para o laboratório de Ciências e contei minha nova descoberta ao professor. Lembro até hoje do sorriso que ele abriu antes de me dizer que logo estaria de volta. Foi até uma salinha e trouxe num daqueles quadros de vidro a minha caligo eurilochus. Dei um gritinho quando ele virou o suporte de cabeça para baixo e a Caligo se transformou na assustadora coruja que aterrorizava o bosque da Atíria. A vilã de um livro tão querido estava ali, na minha frente. Impossível não se recordar até hoje de um encontro inesperado com um personagem da ficção. Meu professor de Ciências perdeu uma bióloga, mas ajudou a formar uma escritora.

 

O Mágico de Oz, L.Frank Baum (Zahar) – por Jacqueline Viana

O_MAGICO_DE_OZ_1424276719322821SK1424276719BTive muitos livros representativos da minha infância, daqueles que realmente posso dizer terem me ajudado a me definir como leitora (alguns deles estão citados pelas meninas nesse mesmo post). Mas um dos mais importantes da minha vida é realmente O Mágico de Oz, de L. Frank Baum. Ao contrário da maioria das pessoas, meu contato inicial com Dorothy e sua turma não aconteceu através da clássica adaptação para o cinema de 1939, estrelada pela Judy Garland, e sim através do livro. Papai trabalhava em uma grande indústria que mantinha uma biblioteca para os funcionários e ele sempre trazia livros para ele e para mim. Um dia ele apareceu em casa com esse livrinho que tinha encontrado por aí na empresa, muito antigo, caindo aos pedaços, e bem mais grosso que o normal (para uma criança de 9 anos). E gente, foi amor à primeira vista!

Para quem não sabe, O Mágico de Oz narra a história da pequena Dorothy, uma menina do interior do EUA que é levada para o mundo de Oz. Eleita a salvadora do local, ela e seus amigos Espantalho, Leão Covarde e o Homem de Lata precisam encontrar o governante local e mágico homônimo para terem seus desejos realizados – respectivamente: a inteligência, a coragem e um coração e, no caso de Dorothy, o caminho de volta para casa. Com uma narrativa inspiradíssima (e que deu origem a uma série de livros e outras obras inspiradas nele, como o musical “Wicked”), O Mágico de Oz representa o valor da amizade e o poder da perseverança diante das adversidades. Leitura mais que recomendada!

 

Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato (Globo – Biblioteca Azul) – por Anna Vitória

capa-do-livro-reinacoes-de-narizinho-de-monteiro-lobato-que-ganha-nova-edicao-1398116282053_300x4202Reinações de Narizinho foi um dos primeiros livros que eu li, e eu era pequena o suficiente pra me equilibrar no limiar entre fantasia e realidade: eu sabia que aquilo não era verdade, mas o mundo ainda não me oferecera evidências o suficiente pra que não acreditasse um pouquinho que aquilo fosse verdade. Tenho poucas lembranças das famosas intersecções que Monteiro Lobato fazia entre a turma do Sítio do Picapau Amarelo e os contos de fada famosos, mas perdi as contas das vezes que reli as histórias de Narizinho no Reino das Águas Claras. Ser casada com o Príncipe Escamado me parecia uma ideia quase tão boa quanto ser sereia – minha grande ambição na época – e eu vivi intensamente essa experiência através de Narizinho. As lembranças desse livro estão meio misturadas com todas as outras histórias do Sítio que li, de outros livros também e coisas que ouvi por aí, e pensar nele é mais ou menos como pensar na minha própria infância, esse baú de memórias que nunca sei direito se aconteceram mesmo, se eu inventei ou se alguém me contou.

 

Série Os Karas, Pedro Bandeira (Moderna) – por Milena

A_DROGA_DA_OBEDIENCIA_1338998780BNão existe maneira mais eficaz de formar um leitor do que deixá-lo querendo mais, o que faz suspense e mistério serem dois elementos infalíveis quando o assunto é literatura infantil e juvenil.

Foi essa a primeira função do Pedro Bandeira na minha vida, mas com certeza não foi a única. A droga da obediência foi o primeiro livro que eu lembro de não conseguir largar. Minha irmã me presenteou com a antiga coleção dela e eu devorei o primeiro livro em pouquíssimo tempo. Logo depois, corri para a biblioteca da escola procurando o segundo volume (a coleção da minha irmã estava desfalcada) e aí começou uma longa e ainda em curso história de amor e vício que envolve os livros e eu.

Me esconder no forro do vestiário do Colégio Elite ao lado de Magrí, Calu, Miguel, Crânio e Chumbinho foi o que me mostrou o que eu podia fazer com um livro por perto. Conheci fantasia, mais mistério, aventura e romance, tudo sem precisar ir muito além da biblioteca do colégio.

Ano passado, em um episódio do qual não me envergonho nem por um segundo, finalmente conheci Pedro Bandeira. E, pra minha surpresa, me deparei com o lançamento da derradeira aventura dos Karas. Antes de dizer adeus, reli cada um dos livros e fiz uma viagem no tempo. Todas as minhas memórias misturadas às das crianças mais corajosas que eu já conheci. No fim, indignada com um final que destruía o que imaginei por mais de uma década, suspirei e agradeci ao autor em silêncio por ter me ensinado tão cedo a nunca me conformar com uma situação injusta. Ignorei o final e até hoje acredito na alternativa que reside na minha cabeça.

 

Uma Professora Muito Maluquinha, Ziraldo (Melhoramentos) – por Tatiana Leite

UMA_PROFESSORA_MUITO_MALUQUINHA_1231027987BEu fui o tipo de criança que não queria ir para a escola. Eu chorava até não poder mais e até entrei um ano atrasada – e não me arrependo, pois tenho os melhores amigos de escola EVER. Mas quando eu li esse livro, as coisas mudaram bastante. Tudo bem que eu já estava na escola nessa época, por isso consegui ler o livro, mas o Ziraldo em si tem uma magia que é difícil de explicar. Com poucas palavras, ele colocou todas as minhas expectativas sobre a escola e o sistema de ensino em si num livro. Claro que nem sempre eu pude viver a experiência de ter Uma Professora Muito Maluquinha, mas aquela pequena chama de esperança de que o conhecimento estava esperando para ser descoberto nunca se apagou em mim – tanto é que, depois que me acostumei com a escola, eu aprendi a amar estudar (principalmente aquilo que eu gosto).

Com palavras tão simples e conselhos tão verdadeiros, a professora do Ziraldo despertou em mim a vontade de fazer os outros buscarem mais para suas vidas – e não, não quero ser professora (pelo menos eu acho). Nós podemos instigar os outros a darem o melhor de si mesmos sempre, basta saber como abordar essas pessoas. Depois dessa leitura, passei a acreditar piamente que nós podemos sim chegar onde nunca imaginamos estar, e que o conhecimento é uma dádiva que ganhamos com nosso esforço e determinação.

 

E você, qual livro marcou sua infância e sua vida de leitor?

 

OBS: As edições mostradas acima variam entre edições antigas e recentes, não representando fielmente as edições lidas.

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  • Maria Cristina

    Adorei todos os textos. Cada um mais encantador que o outro.

  • Maria Cristina

    Adorei todos os textos. Cada um mais encantador que o outro!!