“meia-noite e vinte”, Daniel Galera


meia-noite-e-vinte

“Tem coisas que a gente quer viver e nunca vive. Porque não pode, porque não se permite. Essas coisas são monstrinhos criados no porão. Eles crescem. Murcham. Se deformam. Não se pode saber o que o porão vai fazer com eles. Mas ficam lá. A única coisa que não acontece com o monstrinho é sumir. Enquanto vivemos, ele vive”.

 

Texto: Dora Leroy (>) e Lidyanne Aquino (-) 

– Ler Meia-noite e vinte foi como entrar em um ambiente ao som de talk show host, do Radiohead. Uma sensação de nostalgia, de enxergar a narrativa como algo palpável e muito próximo da minha realidade. Vivi essa transição, talvez um pouco mais jovem que os protagonistas do livro de Daniel Galera. É um grupo de quatro jovens, um tão sem lugar no mundo quanto o outro, em busca de uma luz no fim do túnel. São confusos, complexos, e tomados de assalto pela modernidade líquida e pelo surto tecnológico dos últimos anos.

> Meia-noite e vinte lembra bastante outros livros do Galera, como o famoso Barba ensopada de sangue. Ele traz aquela narrativa fluída, sem muitos floreios, bastante focada em acompanhar os pensamentos de cada personagem e em trazer o interior para fora, colocando na mesa e expondo cada mente sem dó.

– Achei todos um tanto niilistas. Parece que o reencontro do grupo reforça isso. Embora Aurora seja a única a expressar sua insatisfação (ela é bem enfática ao dizer que o mundo não tem mais jeito), todos eles mostram o quanto a vida adulta os deixou descrentes. Me apeguei à Aurora porque sou amarga que nem ela, e num esforço de tentar dissociar das semelhanças sinto que ela é, de fato, muito bem construída. É aquela coisa: uma ideia óbvia que o autor soube destrinchar de uma forma eficaz – ela estuda biologia, é normal essa percepção de desgosto com o mundo quando você estuda a origem de tudo e percebe que não evoluímos tanto quanto imaginávamos.

> Dos quatro amigos, também me apeguei muitíssimo a Aurora, talvez pelo fato dela ser a única mulher e passar por experiências que nos diz respeito diretamente. Adorei o fato dela fazer biologia e de ter mudado completamente de área. Me parece uma tentativa de entender o mundo, sabe? Como se estudar jornalismo não tivesse sido o suficiente, ou então, ela teria percebido o quão difícil seria entender o mundo e, por isso, acaba indo atrás de um conteúdo mais palpável.

– Também é interessante a força das tecnologias. Não aparece de uma forma explícita na obra, mas está presente em vários momentos significativos. Tenho 25 anos e até hoje considero essa invasão da internet surreal. Foi muito nostálgico ler o livro e lembrar que peguei os tempos de internet discada, das zines produzidas no período, a precariedade dos layouts de sites e blogs. O Galera passou essas sensações muito bem no livro. Dá para se colocar na pele dos personagens, sufocados pela efemeridade característica do presente e ao mesmo tempo saudosistas ao retomar o passado.

>  É engraçado observar o que três anos de diferença fazem quando o assunto é tecnologia no século XXI. Acabei de fazer 22 anos e eu não peguei nada dessa fase, pensava que o boom das newsletters literárias eram de agora, com essa retomada desse tipo de plataforma. Pensando assim, o livro não provoca em mim exatamente um sentimento de nostalgia, apesar desse ser um tema central ao ser abordado. A nostalgia, para mim, leitora levemente mais nova, fica no plano ficcional e me faz pensar em como irei cultivar as relações que eu tenho hoje, no futuro.

– Gosto demais de ter perspectivas diferentes, e olha que só temos três anos de diferença. Por aí dá pra sentir o quão expressiva foi essa mudança.

> Sim, sim, Galera não deixa de fora sua percepção de mundo em nenhum aspecto, seja para falar de tecnologia, ou para focar em assuntos atuais.

– Ele foi bem feliz em colocar os protestos na história. Foi um marco muito significativo não só para o nosso país, mas em especial para a juventude que começou a se incomodar e foi pra rua. Só achei ruim colocar pela perspectiva do Antero. Inclusive precisamos falar sobre Antero, o maior pedante da história. Senti vontade de bater nesse cara o livro todo haha e creio que foi intencional da parte do Galera atribuir ao cara mais chato do grupo o título de publicitário. Nada é por acaso haha

> Eu adoro disso de ler ficção contemporânea brasileira, ter essa proximidade temporal e de compartilhar realidades com personagens de ficção, acho bem doido, na verdade haha Concordo muito com você que os protestos de julho foram um marco bastante significativo, eles mudaram muita coisa na forma como nós vemos política e o fazer político. Antero, com certeza, é um dos personagens mais insuportáveis, eu fico meio na defensiva dele porque, no fim, não o culpo.

– Dá até um negócio enquanto a gente lê haha porque você fala caramba, é ficção, mas isso de fato aconteceu. O mesmo acontece com os personagens, é uma criação e ainda assim nos identificamos com vários aspectos. Também não culpo o Antero, ele é o personagem mais movido pelas mazelas do próprio tempo. Por isso fica com esse estigma de chato.

> Total, dá pra ver que ele simplesmente desistiu, ele se viu em um lugar privilegiado, em que podia levantar a bandeira branca e se deixou levar por coisas que ele repudiava quando jovem.

– Fiquei com uma teoria bem aleatória na cabeça quando acabei o livro: o Galera colocou muito dele no Duque. Creio que ele tentou “fazer uma brincadeira” e imaginar como os amigos dos velhos tempos reagiriam à morte dele, como seria o reencontro, o que seria resgatado dessa experiência. O que você acha?

> Nossa, pode ser! Sabendo da existência do Cardoso Online, eu fiquei tentando fazer paralelos entre a história do livro e os membros e a história da Orangotango. Ambas eram zines colaborativas feitas por amigos, e por estranhos, que tinham muitos seguidores na época. O Galera era parte da turma, junto com alguns outros amigos. Talvez o livro também seja um evento grande o suficiente para retomar essa história, ele não precisaria de uma morte de alguém para que todos se reunissem, mas acho que só de trazer tudo a tona novamente já foi a morte do Duque que o Galera precisava na vida pra se aproximar do que foi a zine para ele e para todos.

– Nossa, com certeza. Foi uma deixa pra deixar o pessoal dos tempos de Cardoso Online com dor no coração, e na minha humilde opinião foi uma homenagem muito bacana. O livro é bem fiel à proposta inicial – mostrar as marcas dos nossos tempos e dar uma panorama geral de como está a geração que acompanhou todas essas mudanças tecnológicas.

> Sim! Um livro tão pequeno que consegue abarcar tanta coisa. Aliás, por falar em tamanho, fiquei um pouco revoltada quando a história acabou. Parece que tudo passou tão rápido, tantos problemas acabaram sem solução, tantas coisas ainda para acontecer. Acho que faz parte, claro, ele não escolheu terminar tão repentinamente à toa. Acaba dando aquela sensação voyeur que temos nas redes sociais: nós conseguimos acompanhar a vida de alguém até certo ponto e é isso. E, no fim, ainda temos o gato de schrodinger que é o final!

– Total. Por um momento até torci pra prova ter chegado incompleta (sinta o nível da pessoa). Gosto muito do final, ele é simbólico e tudo mais, o problema é a forma como nos deixa ainda mais curiosos e querendo entender como cada micro história acabou. E perderia o tom caso ele escrevesse uma continuação, por exemplo. Sua colocação foi ótima, a intenção pode ter sido essa mesma – oferecer ao leitor o impacto do imediatismo clássico das redes sociais.

 

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.