Mc Independência


Era mês de julho e o debate acerca da redução da maioridade penal estava quente.

Notícias sobre menores infratores brotavam do além, justiceiros colocavam suas asinhas para fora, textões e mais textões enchiam as timelines, além de gráficos e exemplos frustrados da redução em outros países.

Não sei se isso acontece com vocês, mas há dias em que fico tão saturada da mídia, em especial das redes sociais, que sinto vontade de instalar um botão de “desativar” na minha mente, até porque mesmo que eu desative meu facebook e desligue a televisão e o wi-fi, minha cabeça continua a mil.

Para essas e outras coisas que pratico yoga e meditação. Recomendo e assino embaixo.

Mas num dia em especial nesse mesmo mês de julho, ao invés de ficar zen, fui ao shopping visitar a nova loja da Tok&Stok com minha avó e minha irmã.

Na sessão “quartos de criança”, por um momento pensei que havia perdido Milah, minha irmã de 7 anos. Ela começou a rir de mim escondida atrás de algum móvel, e eu como uma louca, preocupada e gritando o nome dela.

Sempre me divertia quando eu era pequena e minha mãe se perdia de mim, mas eu não me perdia da minha mãe. Era aquele berro “MARINA CAVALCANTE RODRIGUES COSTA”, e então eu aparecia e ela brigava comigo e ao mesmo tempo me abraçava. Era aquele abraço de “que bom te encontrar/não desaparece”.

Depois da Tok&Stok, eu, vovó e Milah fomos lanchar. Para decepção geral da nação-saúde e de Bela Gil, McDonald’s foi a escolha da vez.

Já com nossos lanches em mãos, percebi dois meninos sozinhos de não mais que 9 anos de idade, sondando as mesas em frente ao McDonald’s. Procurei os pais, não achei. Procurei expressão de “tô perdido” na cara deles e também não encontrei. Eles estavam querendo lanchar também. Em vez de dar “uma moedinha pra comprar uma batatinha”, dei metade da minha batata média (nunca como toda mesmo).

Depois da batatinha, dei o cheeseburguer.

Veio o ketchup e depois as coca-colas.

Guardanapo também tava no pacote.

“Brigado, tia!” foi o que disseram, felizes e satisfeitos. Eles não pareciam famintos ou desamparados ou coisa do tipo. Eles queriam também o seu McLanche Feliz, mesmo que viesse sem o brinquedinho.

Depois de muito olhar, a moça que trabalhava no shopping se aproximou e perguntou:

– Eles tão incomodando?

– A gente que tá incomodando eles, porque a gente tá comendo, e eles não estavam – responde minha avó, antes mesmo que eu abrisse a boca para dizer qualquer coisa.

A resposta de vovó ficou martelando na minha cabeça.

Será que é essa a resposta para a tal questão? Comer um lanche do McDonald’s é ostentação para quem não pode pagar para comer um lanche do McDonald’s? E quem não pode, se sente inferior? Quais seriam os meus lanches do McDonald’s? Eu ajo ou já agi da mesma forma, pedindo umas mordidas de um cheeseburguer que nem vale a pena?

Se os meninos fossem brancos ou estivessem vestindo roupas dignas de um passeio no shopping – sim, porque no Brasil um passeio no shopping = look do dia – talvez o tratamento fosse diferente e a moça não teria perguntado se eles estavam “incomodando”. Talvez essa moça já teria chegado perto deles e perguntado se eles estavam perdidos dos pais e se queriam ajuda para achá-los.

Os meninos estavam soltos, saltitantes, rindo muito entre eles atrás de um restinho de guaraná, umas batatas fritas. Os meninos do McDonalds já são independentes. Rico tem que fazer intercâmbio ou um mochilão gourmet para “se tornar independente” e se sentir livre.

Com Milah supostamente perdida na Tok&Stok, eu gritei enlouquecida. Com os meninos eu dei minha batatinha, minha coca, ketchup e guardanapo. E eles foram se sentar em outra mesa, independentes de responsáveis e de responsabilidades.

Será que eles se sentiram mal por terem sido apontados como “incômodos” para os “clientes” do shopping?

Onde fica a linha tênue entre querer frequentar o McDonald’s e ser tratado como alguém que não deveria estar frequentando o McDonald’s?

Será que eles sabem que abriu uma Tok&Stok no shooping?

Será que eles já ouviram falar em redução da maioridade penal?

Será que eles já ouviram falar no nome de Eduardo Cunha?

Me perdi nas perguntas e fiquei sem respostas.

Me coloquei no lugar deles: com essa idade eu não saía sozinha, e muito menos pedia comida a estranhos. O brinquedinho do McLanche Feliz era mais importante do que o lanche em si. Por medo meu e da minha mãe, só comecei a andar sozinha a partir dos 13 anos e dentro do meu bairro. Fiquei mais independente quando ganhei um cartão de crédito e decorei o número da central de táxis. Me senti plenamente independente, vejam só, quando fui morar fora do Brasil, me sustentava e podia escolher entre comer todo dia no McDonald’s (olha ele aí de novo) ou economizar para sair à noite, ou viajar. E quando saía de casa, shoppings não entravam na lista de “passeios”, porque a rua era mais convidativa.

Quanto custa ser independente no Brasil? Quem é independente no Brasil: quem pode pagar um lanche no McDonald’s e tem medo de sair na rua ou quem é suspeito demais para frequentar o local e faz da rua seu lazer, sua viagem, sua vida?

Sempre peço a oferta média do Quarteirão, a batatinha acaba sobrando e o refri vai perdendo o gosto com aquela quantidade de gelo. Nem sei porque ainda frequento o McDonald’s. Fui lá semana passada.

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Sobre Marina Cavalcante

Também conhecida como Marina Brazil, a escritora de 25 anos é nascida e criada em Recife, Pernambuco. Formada em Jornalismo pela UFPB, Marina realiza a Feira Cria (@feiracria), uma feira de arte impressa e publicação independente originada em João Pessoa – Paraíba, seu atual endereço. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne (VIC), na Austrália. Planeja chamar de lar uma nova cidade no mundo em que lhe faça sentido aprender, rir, chorar e amar. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades mas não necessariamente destinos. Escrever é verbo presente. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.

  • Marina Cavalcante

    A resposta de vovó foi tão certeira (e simples), que fiquei sem palavras na hora. Daí tive que escrever este texto para registrar.
    Obrigada por vir aqui e comentar, Eduardo!

  • Eduardo Vieira

    “Quanto custa ser independente no Brasil? Quem é independente no Brasil: quem pode pagar um lanche no McDonald’s e tem medo de sair na rua ou quem é suspeito demais para frequentar o local e faz da rua seu lazer, sua viagem, sua vida?” A pergunta que não quer calar.

    Sua avó foi muito sábia na resposta a vendedora do Mc.

    Parabéns pelo registro desse momento aqui.