‘Maus’, Art Spiegelman


Escrever um livro de memórias implica supor que alguém estará interessado em ouvi-las. Vladek Spiegelman não escreveu um livro sobre as memórias que possui sobre o que viveu durante o Holocausto, nem escreveu sobre sua vida de sobrevivente. Quem fez isso por ele foi seu filho, o cartunista Art Spiegelman, em Maus – que é em parte um livro de memórias, em parte um quadrinho, em parte uma reflexão metalinguística.

A capa do livromaus-art-spiegelman não deixa dúvidas quanto à temática: é uma história sobre o nazismo. A capa do livro também apresenta a metáfora trabalhada por Spiegelman em sua obra. Ao invés de representar seres humanos de maneira “realista”, ele usa animais. Os judeus são ratos. Os alemães são gatos. E assim por diante. Mas a metáfora não torna a história narrada nas páginas menos humana. Aliás, eu menti quando disse que essa história era sobre o nazismo. Essa história é sobre Vladek, e essa história também é sobre Art.

São três narrativas acontecendo, uma dentro da outra, e todas estão representadas dentro do livro. Nas primeiras páginas, descobrimos que Art quer contar a história do pai, e pede que este narre suas memórias para ele. Vladek questiona o projeto do filho, já que acredita que ninguém quer ouvir esse tipo de história – e se hoje nós já ouvimos (e lemos, e assistimos) uma infinidade de narrativas sobre o Holocausto, tenho certeza de que Vladek em parte está certo: nós ainda não estamos abertos a ouvir muitas das atrocidades que os seres humanos praticam sobre outros seres humanos. Mas Art convence o pai com o argumento de que ele quer ouvir e, a partir daí, temos a segunda história.

Hoje, histórias sobre o Holocausto são muito comuns. Mas elas nem sempre são particulares, e elas nem sempre soam tão verdadeiras. A história de Vladek é as duas coisas porque, acima de tudo, não é ficção. É aquilo que a memória de um sobrevivente o permite lembrar, emoldurado pela perspectiva do filho, e a representação da relação entre pai e filho. Que não é maravilhosa, mas é real. Os detalhes humanizam a figura de Vladek, diferente do que acontece naquelas imagens de pilhas de corpos e filas de pessoas que, ainda que sejam chocantes, desumanizam cada uma daquelas pessoas, que ali são uma entre muitos.

Maus é um quadrinho, porque é narrado assim.  Eu não sou leitora de romances gráficos nem de gibis, por isso dei a maior parte da minha atenção aos textos. Os textos em si já são construídos de modo muito inteligente: Vladek é um imigrante nos Estados Unidos e, ainda que fale inglês, não o faz perfeitamente, e sua gramática um pouco estranha está sempre presente na sua narração “em off” e em seus diálogos nos EUA, mas não naqueles que ocorreram no passado, na Polônia (que certamente não eram em inglês). Mas ler os textos críticas sobre a obra me fez refletir também sobre o papel e a importância das imagens – por exemplo, os impedimentos visuais sobre as imagens quando a memória de Vladek falha, quando ele não tem completa certeza daquilo que descreve.

Maus também é uma biografia, porque se trata de uma obra de não ficção a respeito da vida de uma pessoa, Vladek. Mas ela também é narrada pelo próprio em diversos momentos, funcionando como um memoir. E o livro também é sobre Art e sua relação com o pai (e com uma história que, ainda que não seja sua, moldou sua vida), funcionando como uma espécie de autobiografia.

E Maus também é uma obra metalinguística quando reflete sobre o processo por trás do livro. Quando Spiegelman deixa transparecer que sua metáfora, com os animais, às vezes apresenta problemas. Quando ele questiona a representação que faz do pai. Quando ele se pergunta se não está seguindo a tradição de explorar os horrores do Holocausto como uma forma de ganhar dinheiro (ainda que seu objetivo seja contar a história do pai, o sucesso comercial é um fato que existe e precisa ser considerado).

Para mim, no entanto, acima de tudo é uma história humana. É impossível não se emocionar com a história de Vladek e Anja Spiegelman, não parar para se perguntar por que e como é possível que essas coisas aconteçam e que a gente permita isso. É impossível não temer por eles, mesmo que a gente saiba que eles vão sair dali vivos. Mas é impossível não se perguntar que tipo de marcas essa sobrevivência deixa numa pessoa. E é impossível não se identificar com as implicâncias de pai e filho e com o conflito de gerações que acontece entre eles. Essa identificação te lembra: esse é um ser humano como eu – e nenhum ser humano deveria precisar carregar as memórias que ele carrega e eu não, porque ninguém deveria passar por isso, nunca.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Alessandra Rocha

    Moça… você me deixou com vontade de ler, nunca dei muita bola por achar ele meio intimidador? Não sei haha, mas vou ver se num futuro próximo adiciono esse título a lista de “lidos”

    ótimo post! (: