Mas hein?


Texto: Amanda Ariela

Comecei esse texto várias vezes, me sentindo bastante travada nessa coisa toda. É esquisito que, quanto mais se escreve, mais travada se fica, pelo menos é como eu me sinto. Muita gente diz que, quanto mais se escreve, mais fácil a coisa fica. Mentchira. De marca maior.
A questão é que, sempre que eu estou travada, eu paro para dar uma olhadinha no pai dos burros, o dicionário, para pegar a definição do tema que a Lore e a Mi escolheram e fazer um texto bem bonitinho. Mas, estando em um estágio novo, onde eu ainda não sei fazer café, nem onde tem uma cópia em papelão em tamanho natural do presidente (eu costumava trabalhar em um consulado, então, ter uma versão em papelão em tamanho natural do presidente era normal), é uma verdade universalmente verdadeira que eu não sei onde está o dicionário.
Vamos, então, ao pai dos burros da Era da Informação: a Wikipédia. Segundo o site que toda-hora-meu-Deus-do-céu-só-pede-doação-e-nem-tem-credibilidade, vínculo é redirecionado para uma coisa chamada “Morgado”, que eu sei o que é, mas não sabia que existia uma palavra específica pra isso. Enfim, segue a definição “O morgado ou morgadio é uma forma de organização familiar que cria uma linhagem, bem como um código para designar os seus sucessores, estatutos e comportamentos. No regime de morgadio os domínios senhoriais eram inalienáveis, indivisíveis e insusceptíveis de partilha por morte do seu titular, transmitindo-se nas mesmas condições ao descendente varão primogênito. Assim, o conjunto dos bens dum morgado constituía um vínculo, uma vez que esses bens estavam vinculados à perpetuação do poder econômico da família de que faziam parte, ao longo de sucessivas gerações.”
Aquela história básica de “o primeiro filho leva tudo e é uma linhagem e blá-blá-blá”. O que eu achei bizarro é que “o conjunto de bens dum morgado constituía um vínculo”. E eu aqui, pensando que vínculo é aquela coisa afetiva, do apego, do chamego, dos vínculos de sangue e tal.
Pensando um pouco mais a fundo e justificando meu pensamento dizendo que euzinha passei muito tempo debaixo do sol e estou sob o peso esmagador da minha existência, cheguei a seguinte conclusão: Achar que vínculo não é morgado ou ficar chateada porque eu achava que vínculo era uma coisa bonitinha e, no final, a Wikipédia deu uma versão toda capitalista para a palavra não é uma forma de demonstrar que eu tenho um apego, um vínculo com a palavra vínculo e que, na verdade, temos vínculos com os significados que atribuímos as coisas todas?
Quer dizer, as vezes a gente atribui a uma palavra um significado que ela não tem. Ou uma palavra passa a ter um significado especial por causa de algum acontecimento (tipo “Okay?’ pros fãs de A Culpa É das Estrelas) e isso não é muito diferente dos vínculos que a gente cria com um determinado lugar, uma determinada pessoa ou um determinado sabor de sorvete que te lembra a praia, não é?
Daqui alguns dias, quando todo esse sol na minha cabeça começar a diminuir (não durma 4 horas na areia da praia, mesmo que você tenha um vínculo com isso, não o faça), talvez eu volte a pensar nos meus vínculos com as palavras e descubra que, no final, palavras são aquilo que a gente quer que elas sejam e não interessa o vínculo de ninguém.

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