Mary Sue, aquela menina


Você conhece aquela menina? Como poderia não conhecer? Ela é linda e não percebe. É desejada e amada sem fazer esforço. Você já viu os amigos ao redor dela? É uma pessoa muito especial e não sei o que faríamos sem ela! A sorte está ao seu lado mesmo nos momentos mais difíceis. Aquela menina é quase perfeita. Aquela menina é Mary Sue. Mas Mary Sue não é de carne e osso: é um tipo feminino recorrente na literatura, sempre gerando controvérsias.

A definição para este tipo surgiu nos anos 1970 no universo das fanfics, mais precisamente a partir de uma personagem da fanfic A Trekkie’s Tale, de Paula Smith, baseando-se na trama de Star Trek. Esta Mary Sue original é uma adolescente perfeita que consegue salvar o dia antes de sofrer uma trágica morte. Desde então, inúmeras Mary Sues tendem a ser identificadas na literatura, no cinema e na TV.

Para que fique claro, uma personagem do estilo Mary Sue é geralmente a mocinha bonita e boazinha, alvo de inúmeras paixões, cercadas de amigos e uma líder em potencial, já que sua habilidade específica ou grande poder quase sempre são decisivos para salvar o dia ou o mundo. Ela é a melhor cereja para um bolo, especialmente por ser uma cereja diferente das demais (uma cereja divergente?). Parece uma mocinha perfeita e mesmo quando suas falhas, seus defeitos e momentos de hesitação ficam em evidência, tudo pode ser convertido a seu favor (seria ela impulsiva ou corajosa?).

Este tipo pode aparecer como uma projeção exageradamente positiva da própria escritora (ou do escritor, dando origem à versão masculina chamada Gary Stu ou a Marty Stu). O melhor exemplo literário recente talvez seja o caso da Bella Swan de Crepúsculo: até a aparência da personagem lembra a autora Stephenie Meyer! Bella é o centro das atenções, a base que sustenta a frágil estrutura de relações entre humanos, vampiros e lobos. Soma-se a isso o relacionamento distante com os pais (o clichê do passado difícil), o tipo de interesse amoroso que desperta em Edward e Jacob (ela precisa ser protegida?), os inimigos que surgem em seu caminho sem grandes justificativas (ela realmente precisa ser protegida), a personalidade insossa, nebulosa, pouco desenvolvida. Quando finalmente se transforma em vampira, Bella experimenta o extraordinário: ela definitivamente não é uma vampira como as outras!

Não se pode esperar um consenso, mas é possível que a Tris da trilogia Divergente (de autoria de Veronica Roth) seja uma variante de Mary Sue. Se no início da trilogia nenhuma de suas fraquezas pode ser ignorada, repentinamente vemos a transformação da personagem numa líder iluminada, até ser quase totalmente eclipsada por seu par romântico, Quatro. Sem querer dar spoiler, mas devemos lembrar que o desfecho de Tris também é bem parecido com o de Mary Sue… Suspeito, não?

Qual seria o problema de personagens como Bella, Tris ou simplesmente Mary Sue? Essas personagens flertam perigosamente com uma perspectiva quase idealizada de mulher e protagonista. Como nos conectamos com personagens assim? Elas nos deixam entediadas, frustradas ou nos agradam? Gostaríamos de ver uma Mary Sue no espelho por pelo menos um segundo? Justo naquele segundo em que não nos sentimos bonitas o suficiente, amadas o suficiente, competentes o suficiente? Uma típica Mary Sue é criada para agradar na medida em que se enquadra no perfil de mulher que inevitavelmente atrairá o homem perfeito da ficção (como um Edward brilhante, sabe?).

Há quem diga que precisamos de mais Mary Sues  se partimos do pressuposto de que se trata aqui de uma definição de heroína em moldes muito próximos dos que tem sido reproduzidos nos grandes heróis masculinos, raramente alvo de queixas quando são quase perfeitos. Porém, aproveito para lembrar que cada vez mais temos celebrado heróis e heroínas que, a despeito de seus grandes poderes, não cogitamos instalar em pedestais. Identificar personagens femininas como Mary Sues seria então mais uma forma de rejeitar mulheres poderosas em papéis de destaque na literatura? A resposta é negativa se estamos cientes de que a diferença entre uma personagem forte e uma Mary Sue está no seu desenvolvimento em nível psicológico/emocional e na complexidade de sua trajetória e da trama como um todo. Precisamos de mulheres maravilhosas, poderosas e bem construídas na ficção, mas por que não maravilhosas também num espectro mais realista? Ou quem sabe minimamente contemplando diferentes tipos de mulheres em suas relações amorosas, ocupações, mentes e corpos?

Tradicionalmente, uma Mary Sue se situa no rol de representações femininas pouco complexas e fortemente baseadas nos vários clichês que enumerei até aqui. Acredito que personagens femininas de maior profundidade (em termos de um leque mais amplo de qualidades, defeitos, desafios, sentimentos e escolhas) deveriam nos inspirar mais do que qualquer Mary Sue. Fora da ficção, tenho certeza de que não preciso ser aquela menina perfeita para conseguir salvar o (meu) dia. E se eu não quiser, nem preciso salvar o dia!

por Vanessa Bittencourt

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