Mary Shelley: a ficção científica pelas mãos de uma garota adolescente


Arte: Danielle Arêa Leão Dantas

Quando você pensa em ficção científica, o que vem primeiro à sua mente? Naves espaciais, guerra nas estrelas, viagens interplanetárias e heróis lutando com sabres de luz? Tudo bem, a ficção científica pode ser tudo isso, mas antes ela foi a história de uma menina adolescente que, em um dia tedioso, resolveu escrever uma história sobre um médico e sua criatura.

Mary nasceu em 1797 e não conheceu sua mãe, Mary Wollstonecraft, embora seu legado tenha vivido na filha durante todo sua vida. Mary Wollstonecraft foi uma das pioneiras do movimento feminista e autora de A Vindication of the Rights of Women, livro que continha suas ideias a respeito da figura feminina e como esta deveria desafiar a sociedade em que estava inserida. Embora não tenha podido compartilhar a vida com sua mãe, os ensinamentos de Wollstonecraft permaneceram junto de Mary enquanto ela crescia sob os cuidados de seu padrasto, William Godwin. A criação que recebeu de Godwin, inclusive, foi importante para que Mary pudesse ser livre o suficiente para criar e escrever, algo que não era esperado das mulheres do século XVIII.

William Godwin decidiu criar Mary fora dos limites tradicionais da Inglaterra do final de 1700. Isso levou a menina a ter contato desde a mais tenra idade com livros de gêneros diversos, outrora proibido às mulheres, além de poder conhecer figuras proeminentes daquele século antes mesmo de ser tornar adulta. Mary teve a oportunidade de conversar com o vice-presidente norte-americano da época, conheceu poetas e romancistas, e sempre foi incentivada por William Godwin a ir além. Ainda que descrita como uma jovem precoce, é certo notar que a criação liberal de seu padrasto teve grande impacto na vida de Mary que, com acesso a uma vida privilegiada de estudos e conhecimento, pode moldar seu intelecto de uma maneira que não era permitida às mulheres daquele século. Foi durante esse período que Mary, com ávida curiosidade, passou a estudar o horror gótico e ciências naturais, dois pontos muito presentes em Frankenstein.

Ainda com dezesseis anos, Mary se apaixonou por Percy Bysshe Shelley, um poeta de Oxford, admirador do trabalho de Mary Wollstonecraft, que deixou uma forte impressão na jovem. Mesmo que William Godwin não fizesse objeções ao relacionamento entre Mary e Percy em um primeiro momento, ele não aceitou que o poeta tomasse sua filha em uma união simbólica e não em casamento. Contrariando a vontade do pai, no entanto, Mary decidiu fugir com Percy e viver sua paixão adolescente que renderia, mais tarde, um curto casamento e quatro filhos. O casal apaixonado fugiu para o continente e viveu entre a França e a Suíça até retornar à Inglaterra alguns anos mais tarde. Entre idas e vindas, no verão de 1818, e aos dezenove anos de Mary, no lago de Genebra, veio a primeira ideia para escrever seu mais famoso romance.

O conto de como Mary Shelley começou a escrever Frankenstein é tão interessante quanto sua obra em si: Lorde Byron, amigo que hospedava o casal em sua residência de veraneio nos Alpes Suíços, sugeriu que o grupo se distraísse com um concurso de histórias de fantasmas. Enquanto o próprio Lorde Byron produziu o conto Um Fragmento, que viria a inspirar a redação de O Vampiro: Um Conto, de John Polidori, Mary começou o primeiro esboço de Frankenstein ou O Prometeu Moderno. Conta-se que o clima tempestuoso do lugar, com raios e trovoadas, inspirou Mary a construir a origem de sua história, a qual ela terminaria e publicaria apenas em 1818 sob pseudônimo e com prefácio escrito por seu marido, que acabou sendo “confundido” como autor do livro – afinal, não se esperava que uma história como Frankenstein viesse das mãos de uma mulher. Somente na segunda edição da obra que Mary pode ver, finalmente, seu nome na capa, em 1822. Desde então, já se foram quase dois séculos e seu conto, escrito a partir de um jogo, permanece como uma das melhores obras de ficção científica de todos os tempos – além de ser a fundação de tudo.

Em Frankenstein, Mary levantou o debate de alguns temas importantes da época, utilizou-se do seu entorno como inspiração – o lago Genebra, com chuvas torrenciais e muita neblina em pleno verão – e escreveu uma história que colocasse em questão o desejo humano de progredir. “Ocupei-me em pensar em uma história para rivalizar com aquelas que nos tinham estimulado à tarefa. Uma que falasse dos grandes medos misteriosos de nossa natureza”, escreveu Mary em introdução à edição de 1831. Com Victor Frankenstein e sua Criatura, Mary constrói a história de um cientista que procura vencer a morte criando vida em um laboratório. O que ele não esperava, no entanto, era perder o controle de sua Criatura – “Fui o autor de males inalteráveis e vivi cada dia o medo de que o monstro que criei viesse a perpetrar novas maldades”.

Ainda que o gênero da ficção científica tenha sido “sequestrado” e colocado como “coisa de meninos”, e que muitos pensem ser Isaac Asimov o precursor disso tudo, o fato é que tudo nasceu pelas mãos de Mary Shelley, uma adolescente de dezenove anos, vivendo no século XVIII. Mesmo que conte uma história de um monstro com todos os tropos incluídos, Frankenstein é o primeiro exemplo de uma história especulativa ao olhar para o possível futuro da ciência moderna, considerando o que isso significaria para a humanidade como um todo. Mary não apenas contou a história de uma criatura trazida à vida pelas mãos de um cientista como também imaginou os desdobramentos desse ato para Victor e para a Criatura. Quem já leu Frankenstein sabe como a trama é intensa e inesquecível – tanto que, em pleno século XXI, ainda podemos nos deleitar com novas versões do conto de Mary nas roupagens mais diversas, seja em uma séries como Supernatural, Grimm, Once Upon a Time e Penny Dreadful, ou em um filmes como Van Helsing (2004) e Hotel Transylvania (2012).

E como se não bastasse ser a criadora da ficção científica, Mary Shelley também foi responsável por escrever o primeiro romance pós-apocalíptico com The Last Man (O Último Homem), em 1826. The Last Man é caracterizado como um dos trabalhos mais pessoais de Mary e conta a história de um sobrevivente solitário em um mundo dominado por uma doença terrível, um tipo de peste. O livro critica alguns aspectos do Romantismo e traz personagens inspirados em seu marido, Percy, e no amigo Lorde Byron. À época de sua publicação, no entanto, The Last Man não foi muito reconhecido por seu públicos e recebeu críticas – somente ao ser republicado, no século XX, é que veio a receber o merecido reconhecimento, afinal era uma história sobre o fim do mundo, uma distopia, por assim dizer, concebida por uma jovem mulher no período vitoriano.

Quando alguém disser que ficção científica é coisa de meninos, diga a eles que a criadora do gênero foi uma garota adolescente de dezenove anos. Uma adolescente sempre à frente de seu tempo, Mary Shelley.

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Sobre Thay

Arquiteta que gosta de escrever nas horas vagas, pode ser encontrada na Sala Comunal da Grifinória, caçando demônios ou explorando tumbas. Editora do Valkirias.

  • Ingrid Requi Jakubiak

    Olha, não quero ser chata, mas ajudar a autora do texto, porque tem uma série de erros nele. William Godwin era o pai biológico da Mary Shelley, não sei padrasto. Em um momento do texto diz que ela vivia no século XVIII, mas seu desenvolvimento se dá no XIX. E acho importante levar em conta que Mary e Percy fugiram juntos porque ele era casado. Além disso, dizer que Mary era uma mera adolescente não cola muito bem porque na sua época ela já era considerada uma mulher e ela era de fato uma mulher vivida e inclusive Frankenstein também foi uma referência ao bebê que ela tinha perdido e à negligência de seu marido sobre isso. Dizer que ela era “apenas uma adolescente” pode parecer bonito e inspirador, mas acho crucial levar em conta que sua obra é fruto de dores profundas que ela vinha passando na sua vida.

    Uma boa referência sobre isso é Anne Mellor, professora de literatura e estudiosa da obra da Mary.