Maria, acima de qualquer ilusão


Texto: Tarine Guima // Arte: Marília Pagotto

Os raios de sol alaranjados refletiam nos paralelepípedos da ladeira. O relógio da padaria de Seu Miguel marcava quarenta minutos para as seis da tarde. A segunda rodada de pães do dia já estava pra sair. Era quarta-feira. Era Recife. Maria esperava, debruçada no balcão, os pães que sua mãe pedira para o café da tarde. Era começo de mês, era fevereiro. Até o final do carnaval a mesa estaria farta, o clima era de festa. A calmaria logo iria embora da pequena vila em que residia Maria, numa extremidade longínqua e periférica da capital pernambucana. Toda a gente já estava a postos para começar os preparativos carnavalescos. O povo era simples – mas nem por isso deixava de se desdobrar para participar, com muitíssimo gosto, dos desfiles de carnaval promovidos pelos representantes de bairro do distrito onde se localiza a pequena vila.

Maria, menina negra, de uma encantadora pele dourada, não se cansava de exibir seu sorriso meio aos volumosos cachos que caíam pela sua testa. Alegre como o sol do nordeste. A mais velha de quatro irmãos, ajudava sua mãe nas tarefas de casa, principalmente em época de carnaval, em que a mãe estaria ocupada costurando fantasias. O fazia numa tranquilidade sublime, espalhava harmonia em todo o trajeto até a padaria de Seu Miguel, invadindo a casa dos vizinhos com sua vivacidade. Porém, nessa quarta-feira pré-carnaval, Seu Miguel não viu a alegria da pequena ao receber os pãezinhos. Perguntou, “cadê tua alegria, pequena?”. – Eis que, aos recém completos oito anos de idade, a alegria de Maria se viu diminuída diante de uma questão que havia se dado conta naquela tarde. “Eu não sei ler”, respondeu, derrubando uma pequena lágrima. Maria era analfabeta funcional. Não diferente das muitas crianças e adultos que conhecia, só sabia escrever seu nome e juntar umas tantas poucas palavras. Há um ano abandonara a escola, no início da primeira série, para ajudar sua mãe com a costura e os irmãos. As tarefas de casa eram muitas, a escola ficava muito longe e nem sempre a mãe teria condições de mantê-la estudando, por menores que fossem os gastos. Por isso, Maria só voltaria a estudar quando a situação da família melhorasse. A decisão nunca preocupou tanto a menina, exceto após aquele dia.

Pela manhã, Maria e sua mãe foram ao centro de Recife comprar tecidos e materiais para as encomendas do carnaval. Maria adorava ir ao centro. Via gente, gente de todo tipo. Adorava avistar a multidão que circulava dentre as lojas como formiguinhas. Ficava imaginando quem era quem. O que fazia ali, se tinha filhos, um papagaio ou um cachorro. Esperava sua mãe do lado de fora de uma loja de tecidos, pois estava muito cheia. No meio da sua observância dos transeuntes, o susto: uma enorme correria começa por causa de um assalto ao sebo do outro lado da rua. Maria, paralisada, viu de perto os ladrões fugirem. Um deles, inclusive, passou correndo muito perto dela, carregando nas costas um saco enorme que continha as caixas registradoras do sebo. O saco parecia não aguentar o peso delas e, perto de Maria, rasgou um tanto – liberando, por acidente, um livro que estaria perdido dentre os lucros do furto. Maria não hesitou, queria sentir a adrenalina do perigo e logo enfiou o tal livro dentro da bolsa da mãe. O objeto a encantou. Havia visto poucos livros até aquele ponto de sua vida, e nunca vira um tão bonito quanto aquele. Cor de vinho, capa dura, letras douradas, como a sua pele. As letras, que brilhavam, expostas ao sol do Recife, foram o que mais a encantou.

Maria não conseguia identificar no que resultava a junção daquelas letras douradas. Principalmente as grandes, localizadas ao topo da capa, que formavam uma palavra bem estranha e engraçada, nada familiar a ela. Dizia: FRIEDRICH NIETZSCHE. Aquilo era inconcebível aos seus olhos, não conseguia nem imaginar como se falaria isso. A única palavra que reconhecera na capa era “humano” – mas de nada achou graça, nem na outra palavra que também não conhecia. Queria é saber daquelas duas palavras estranhas. Chegando em casa, Maria mostrou o achado para a mãe e perguntou se ela sabia do que se tratava aquilo. “Eu não sei, menina, devolva isso ao sebo e venha me ajudar”, foi tudo o que ouviu. Mas guardou-o embaixo de sua cama e, quando sua mãe não estava por perto, ficava a investigar os trilhões de letras que formavam os milhões de palavras contidas em todas aquelas páginas. Aquilo era magnífico. Mas lhe despertou uma grande angústia: “o que tudo isso quer dizer? por que não consigo decifrar tudo isso?”. Queria, como nunca antes, saber ler. Desejava saber o que aquele livro bonito contava em suas linhas com aquelas palavras estranhas. Sentiu-se limitada. Com enorme tristeza, chorou. Mas teve de engolir o choro e esconder o livro quando a mãe chegou com um cliente. Era um dos representantes do bairro, que era responsável pelas fantasias do desfile. Todos no bairro sempre o viram como um homem muito inteligente, mesmo que humilde. Maria não perderia a chance de perguntar sobre o livro. Enquanto a mãe buscava as fantasias, Maria veio e perguntou ao homem, sutilmente, se ele conhecia aquele livro, e se podia ajudá-la a lê-lo. “Mas, hein, olhe só! É livro de um filósofo, acho que alemão, bem antigo. Isso aí é um achado por aqui, hein, menina.”, disse ele, surpreso. Mas logo alegou que não poderia ajudá-la a ler, estava muito ocupado com os preparativos do carnaval, e esse era um livro muito difícil de se ler. Não se contentou e, alvoroçada, encheu o homem de perguntas. Quis saber o que era um filósofo. O homem disse que era “alguém que pensa muito, observa o mundo, tira suas conclusões sobre ele em seus pensamentos” e ela, estupefata de excitação, concluiu que era também uma filósofa, pois pensava muito o tempo inteiro. Rindo, o homem disse que ela poderia ser, sim, uma filósofa, e escrever um livro também, como o Nietzsche. Aquilo encheu os olhos dela e, eufórica, foi contar toda a história para a mãe. “Escrever livro? Pare com isso, Maria. Isso aí é ilusão! Tu nem ler sabe direito”.

Agora estava lá, no balcão da padaria, pensando naquela palavra. Ilusão. Por que é que aquilo que ela queria era ilusão, e não a verdade? O que a gente faz para que uma coisa deixe de ser ilusão?, se indagava. Perguntou tudo isso a Seu Miguel e, desacreditado, o padeiro disse que não podia responder a nada daquilo. Apenas disse que “o iludido não vai a lugar nenhum, tem é que pensar na realidade, que é dura”. Ela não gostou do conselho de Seu Miguel. Saiu da padaria com uma, senão duas, pulgas atrás da orelha. Não iria admitir que seus desejos fossem ilusões. E o que seria, de fato, a realidade? Ela é verdadeira mesmo? A pequena menina não poderia mudar a dela com sua ilusão? Tudo isso a deixou com ainda mais vontade de ler aquele livro, do início ao fim, sem deixar nenhuma palavra para trás. Mesmo sem saber escrever a palavra “filósofa”, o sonido daquela combinação de letras misteriosas a encantava. Já se considerava uma filósofa e, ao anoitecer, sentada na calçada em frente à sua casa, não parou de pensar, de filosofar. A luz da lua a encantava. Passou a filosofar sobre tudo, e agora filosofava sobre a lua. Como era bonita sua luz, como era redonda e como seu formato mudava de um dia para o outro. Se a lua mudava, por que não ela?, pensou. E estava decidida: iria, no dia seguinte, à sua antiga escola, procurar por algum professor que a ajudasse a ler seu livro.

Juntando umas tantas moedas que achou pela casa, conseguiu inteirar o dinheiro da condução. Só teria que andar um pouco mais a pé, mas não era problema para quem queria conquistar seus sonhos. Disse para a mãe que ia ao sebo devolver o livro. E, sob o ardente sol recifense, foi. Inquieta, o que a acalmava no ônibus era olhar a vida e as pessoas pela janela. Tudo em movimento, era bonito. Com as roupas surradas e o exuberante livro no colo, chamava a atenção dos outros passageiros. A cada olhar, ela sorria de volta e, então, voltava a mirar a janela. Fazia tempo que não ia à escola, então tinha que estar atenta ao caminho para saber quando descer do ônibus. Reconheceu a praça em que brincava com as amigas às sextas-feiras, quando saía mais cedo da aula. Desceu. Firmou seus chinelos um tanto barrentos no chão e começou a andar em direção à escola. Pensava agora sobre Nietzsche. Tentava imaginar como ele era, se foi uma criança como ela, se havia morrido há muito tempo e de quê, se tinha mulher e filhos, se fazia muito frio onde ele morou. Após minutos de caminhada, chegou à escola. Insistiu na secretaria que precisava falar com algum professor que a ajudasse a ler um livro, o livro de um filósofo. O diretor da escola passava pelo corredor e lembrou-se da menina. Perguntou o que fazia ali, por que saiu da escola e por que queria ler aquele livro. Ela explicou toda a trajetória até ali e, suplicando, pediu que a ajudasse. Surpreendido por tudo aquilo, o diretor a acompanhou até a sala dos professores. Ali, estava uma professora de filosofia. A menina, maravilhada, não sabia que se ensinava a ser filósofo na escola. “Você é uma filósofa? Eu também sou uma. Só me falta saber o que esse livro diz. Eu não sei ler.” – a história fora repetida para a professora e, emocionada, abraçou Maria. Contou, com muita satisfação, que já lera aquele livro e o conhecia bem. E, dando um breve resumo à menina, contou do que se tratava: “Bom, do que eu me lembro, com minhas palavras, o que ele diz em geral é que ninguém possui a verdade absoluta – a verdade inteira, ela ‘toda’. Aos olhos de cada pessoa, existe só uma pequena parte dessa verdade absoluta. Ou seja, eu tenho uma parte da verdade, você tem a sua. E a existência certa dessa verdade é incerta – cada um de nós, então, cria uma verdade inventada, que é a nossa verdade, acima de qualquer ilusão. Só assim, nós, humanos, vivemos”. Aquilo era tudo muito complicado para uma menina de oito anos que mal ler sabia. Mas ela entendeu. Maria captou cada palavra. Principalmente aquela que latejava em sua mente: a ilusão. E era isso. Ela criaria sua própria verdade, acima de qualquer ilusão.

Num lugar não muito longe dali, em quilômetros – porém, um tanto longe, em tempo, uma banca examinadora se preparava para a apresentação de uma monografia. Na Universidade Federal de Pernambuco, departamento de graduação em Filosofia, discutiriam a pesquisa “Do conceito de verdade em Nietzsche: a metafísica acima da ilusão”. Por fim, nomearam a mais nova bacharela em Filosofia: Maria Leopoldina da Silva.

 

 

por Tarine Guima: Tenho 19 anos e estudo Ciências Sociais na Unifesp. Brinco de escrever desde os 13, e desde então a escrita tem sido minha maior paixão. Me expresso melhor escrevendo do que falando e nunca sei me descrever direito.

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  • Nina

    Gente, que conto mais maravilhoso! <3
    Fiquei bastante encantada!
    A delicadeza de retratar um tema tão pouco realmente abordado na literatura e de retratar uma época da vida também bastante incerta como a infância – porque não dá pra dizer que a infância de todo mundo é feliz, né? – é muito cativante. Parabéns, de verdade! 🙂