Margem de erro


Texto: Odhara Caroline // Arte: Gabriela Schrimer

Eu fui uma criança prodígio.

Não que eu montasse cubos mágicos em trinta segundos, resolvesse equações de quarto grau com cinco anos ou conseguisse invadir sites do governo americano com oito (até porque, na minha época, internet era só de sábado-depois-das-duas-e-domingo-o-dia-todo).

Mas eu era a primeira da classe, sacava tudo na primeira explicação, tinha montes de livros, terminava os exercícios antes dos coleguinhas, só tinha A no boletim (menos em Educação Física, mas, convenhamos, quem se importa com Educação Física), sempre fui incentivada pela minha família, os professores me adoravam (quando não estavam me mandando calar a boca), todas essas coisas.

Até acreditei quando, no terceiro colegial, minha professora de química deu de ombros ao me ouvir confessar que eu estava com medo da carreira que havia escolhido. O mercado já estava mais do que saturado, eu sabia. Ela fez pouco caso: “O mercado sempre tem lugar para os melhores”. Qual é, o mercado ia encontrar um lugar pra mim. Todos a minha volta tinham essa expectativa. Eu tinha essa expectativa. Eu estava destinada a Coisas Importantes.

Aí eu passei na faculdade e descobri que, além do mercado jornalístico estar saturado, o mercado de crianças prodígio também estava.

Nunca vou esquecer dos meus primeiros dias na graduação, com meus colegas comentando sobre os documentários iranianos a que tinham assistido, aos livros em francês que estavam em suas mesinhas de cabeceira, ou sei lá eu mais o quê. De repente eu não era mais tão especial assim. Nem de longe me sentia tão inteligente quanto antes. E não conseguia me livrar da sensação de que-que-é-que-eu-tô-fazendo-aqui.

Aos poucos, descobri que todos os meus novos amigos também estavam nessa. A gente foi descobrindo que não importa muito se você leu (e entendeu) Crime e Castigo com 12 anos, ou se passou na Fuvest ainda com 17. No fim, todos nós estávamos no mesmo barco furado do início da vida adulta, onde todas as expectativas, suas e dos outros, são frustradas, e o universo joga na sua cara que todas as suas certezas não são tão certas assim. Além de, é claro, você ser apresentado ao incrível mundo de contas a serem pagas.

Isso pode ser frustrante se você se depara com a pasta em que a sua mãe ainda guarda todos os seus boletins, desde o maternal. Ou então se você encontra aquela medalha de honra ao mérito no fundo da gaveta de tralhas, logo embaixo do compasso.

Mas as coisas ficam mais fáceis se eu te lembrar que nenhuma das equações que você aprendeu na aula de matemática (quem dirá na de física) vão te ajudar a resolver os problemas que você tem agora¿ A escola não te prepara pra merda toda que vem por aí. E mesmo que você continue sendo o nerd da sala da faculdade do mesmo jeito que era o nerd da sala do primário, isso não vai te ajudar a lidar com chefes escrotos, problemas de relacionamento, professores egocêntricos, entrevistas de emprego, como se portar em festas ou o que quer que seja.

No fim, todas as crianças prodígios se tornam adultos normais, com margem de erro de 1,37% para mais ou para menos.

E não há problema nenhum nisso. Lembra do barco furado¿ O que importa é que todos nós estamos juntos nele, fazendo companhia uns pros outros e rindo da sua inocência ao ter chorado porque tirou B na prova de música na terceira série. Bons problemas, os daquela época.

P.S.: A não ser que você seja o Mozart, o Einstein, ou algo assim. Mas aí são outros 500.

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rodrigues.odhara@gmail.com'

Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).