Mapas na pele


Texto: Lidyanne Aquino // Arte: Gabriela Amorim

Foi depois de explicar cada uma das minhas tatuagens – cinco, na época – que fui impelida ao divã pela primeira vez. Tinha feito um mês de análise, ou nem isso, ainda não entendia muito bem o mecanismo da coisa, e o ato de me deslocar até o divã deu vertigem. É aquela coisa, dar voz e corpo para as palavras pode ter reações das mais inesperadas. Divã faz pensar em sofá, conforto, ficar deitada em paz, certo? Pois não. Deitar-me e encarar o teto branco me deu um pouco de náusea e ao mesmo tempo puxou memórias de volta com muita força. E veja bem, depois da segunda tatuagem eu já tinha um texto decorado para explicar a história dos singelos rabiscos. Era um discurso pronto, tão moldado e previsível que na minha cabeça nunca poderia ter um impacto desses. Até a forma como a analista perguntou das tatuagens foi leve, as reações depois das respostas também.

Com o passar do tempo e depois de muitas sessões, o divã retomou o propósito inicial de tranquilizar a paciente. E entendi o quanto as tatuagens funcionavam como um guia indireto de personalidade. As tatuagens são como um mapa ilustrado, desses bem bonitos que a gente compra no intuito de usar para se localizar na cidade, mas termina querendo emoldurar. Cada rabisco conta alguma história. Um enredo múltiplo, que vai desde a escolha do desenho até o ato de colocá-lo na pele. Mesmo um desenho escolhido a esmo, sem motivo aparente, pode contar um pouco sobre quem você é e o que sentia na época.

 

Considero muito vago dizer que a tatuagem é um mero traço de estilo.

 

Pense em todo o processo de tatuar. Escolher um desenho ou, em muitos casos, criar um desenho do zero. Você reúne as referências: fotos, outros desenhos. Ou chega com uma ideia – por vezes tão confusa quanto alguma situação vivida naquele momento. Se for uma frase, existe a saga de escolha da fonte. Tem o momento do decalque, quando tatuador coloca uma prévia na sua pele e você pondera se aquela região é boa mesmo, se não é o caso de voltar atrás com aquela ideia.

Se você já se tatuou, conhece a dor. Ela varia de pessoa para pessoa e de acordo com a região, mas dói, afinal, não deixa de ser uma agulha perfurando sua pele. A dor também acontece em camadas. Os primeiros traços são mais sutis, colorir dói mais porque a pele já está sensível e bem, sombreado pode te lembrar uma morte lenta. Se você é mulher e está menstruada, fica ainda mais suscetível à dor. A tatuagem finalizada dói ainda mais depois de pronta, pode inchar, e você precisa usar pomadas cicatrizantes nesta ferida como nunca ousou fazer com qualquer machucado.

Lembra o movimento dos pensamentos. Você observa, escolhe o molde mais conveniente, e deixa a situação perfurar sua pele. Sendo algo bom ou ruim, você sente. Pois atravessar camadas dói. Em algumas regiões do corpo é tranquilo, o impacto é menor, em outras é difícil suportar a dor. Nós vivenciamos um pouco de tudo. Há dores passageiras, outras marcantes de forma positiva e, bem, sempre tem aquela que insiste em não dissipar. Embora pareça impossível, uma hora ela para e há quem sinta vontade de ter uma lembrança do fato de ter sobrevivido a ela. A tatuagem não deixa de ser uma cicatriz, e nada mais justo do que escolher um desenho bonito para tapar uma cicatriz que você não gosta de encarar. Se o pensamento for bom, até compensa sentir dor por um tempo na hora de tatuar. É uma boa causa – aquele machucado vai evocar uma memória significativa na sua vida. O mesmo vale para traços da personalidade.

Uma pessoa pode tatuar uma baleia para representar uma conexão com o mar, para representar um personagem querido, ou até por se identificar com alguma característica do animal. Se não for evidente, melhor ainda. Eu tenho uma facilidade absurda de viajar longas distâncias sem sair do lugar – isso virou um balão de ar com um elefante no lugar da cesta (houve uma motivação extra depois de ler Levels of life, de Julian Barnes, confesso). Nas costas, porque é minha característica mais forte e não preciso me lembrar do apego ao escapismo o tempo inteiro. Tenho dificuldades em deixar meu coração exposto, por isso fiz uma gaiola na região esquerda da costela. Com a portinha aberta, sem cadeado, porque no fundo queria muito abrir mão da gaiola (já tentei algumas vezes, sem sucesso). De tanto ouvir Fox in the snow em busca de sossego, tatuei uma raposa gigante na coxa. Fiz minha primeira viagem sozinha na Europa e transformei o momento em uma âncora no ombro – e essa queria bem visível, para me lembrar da minha força e da conquista pessoal que foi perder o medo de me jogar no mundo sem companhia.

São como pontos de um mapa espalhado pelo corpo e quase um teste de Rorschach pessoal. Deixamos a tinta fazer abrigo na pele e enxergamos os resultados como marcas que as pessoas quebram a cabeça para interpretar, mas que na maior parte do tempo só fazem sentido para nós mesmos.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.