Manuela e a Abóbora Gigante


Texto: Gabriela Martins // Arte: Marília Pagotto

Carina considerava um ataque pessoal seus pais não terem jogado fora o Charlie Brown e a Grande Abóbora da Manuela. Ela tinha tentado por conta própria, mas sempre que escondia o DVD, Manuela encontrava. Sempre que tentava guardar a caixa sem o disco dentro, Manuela parecia notar e a acusava imediatamente.

Seus pais, traidores, ficavam do lado da mais nova.

Era a prova final de que a garota mimada de oito anos precisava ser impedida.

– Abaixa o volume, Manuela – gritou Carina da sala.

Os nove anos entre elas desapareceram. Manuela, do seu lugar no pufe cor-de-rosa – um troço horroroso que ela, teimosa, arrastava pela casa –, encontrou o olhar de Carina com a convicção de uma campeã em formação. Sorriu e voltou a prestar atenção na TV, onde, pela milésima vez, Linus esperava a Grande Abóbora chegar.

A mãe de Carina e Manuela ainda estava na porta, chaves do carro em uma mão, chaves de casa na outra. Seu cabelo estava preso em um coque alto que começava a se desmontar depois do dia de trabalho, e seu terno estava amarrotado. Ela fez uma careta, deixando as chaves na mesa.

– Eu mal entrei em casa, Carina – reclamou, mas se interrompeu.

Indignação tomou o rosto de Carina, mas sua mãe não estava prestando atenção.

– Oi e tudo bem seria um bom começo.

– Oi, mamãe! – gritou Manuela, da frente da TV.

A mãe sorriu, mas Carina revirou os olhos.

– Eu te liguei. Eu preciso de dinheiro pra fanta…

Carina não conseguia continuar. A trilha sonora era especialmente alta nessa parte. Ela olhou da mãe para Manuela. A mãe tirou a jaqueta do terno com um suspirou e fechou a porta.

– Manuela – chamou Carina de novo –, você pode diminuir o volume, por favor?! Eu mal consigo ouvir meus pensamentos.

Manuela fingiu não ouvir.

Carina queria matá-la.

A mãe, por outro lado, não estava muito interessada. Deixando essa infração passar, tirou também os sapatos, que deixou perto da porta, e desceu as escadas para o banheiro. Carina andou atrás dela.

– Mãe – começou, a voz firme, mesmo com a irmã do Charlie Brown no fundo do seu discurso perfeitamente ensaiado. – Eu te mandei o link da fantasia de Mulher Maravilha. O terceiro ano só acontece uma vez, sabe?

A mãe levantou os olhos para encontrar o olhar de Carina no espelho, de costas para a filha, lavando as mãos. Deu de ombros.

– A gente está pregando uma peça no Halloween, vamos pra escola fantasiados, mas os professores não sabem – sorriu Carina, cruzando os braços. – A Carol vai de Supergirl e a Catarina de Viúva Negra. Eu acho que a Cláudia vai de Harley Queen, mas ela está se levando a sério demais, é ridículo – revirou os olhos.

A mãe virou para ela, agora com uma expressão divertida.

– Se levando a sério demais?

– É ridículo – repetiu Carina, concordando com a cabeça. A mãe concordou com a cabeça também.

Seu plano de encurralar a mãe no banheiro não tinha funcionado. Para uma garota de dezessete anos, Carina era especialmente pequena, e a mãe não precisou se esforçar para passar por ela e deixá-la para trás. Ela continuou andando atrás da mãe, voltando para a sala e para o inferno dos DVDs remasterizados dos anos 60.

– Você compra pra mim?

A mãe suspirou antes de se jogar no sofá. Ficou sorrindo por um bom tempo, olhando para Manuela, e Manuela se virou para olhar para a mãe, retribuindo o sorriso antes de voltar a atenção para a história.

Carina apertou os lábios, irritada, mas sentou ao lado da mãe, seguindo seu exemplo.

O volume da TV estava em 70 ou 80 do máximo de 100. Os ouvidos de Carina doíam com o barulho e ela sentia um desejo quase incontrolável de puxar o cabelo da irmã. Corajosa – e também porque estava tentando convencer a mãe a comprar uma fantasia um pouco exagerada –, resistiu ao impulso.

– Mãe – tentou de novo.

Manuela olhou feio para ela.

– Shh.

Carina levantou uma sobrancelha, olhando para a irmã.

O desejo de puxar o cabelo estava mais forte.

A mãe riu baixinho, levantando os pés.

– É uma fantasia cara, querida.

Sem aviso, Manuela pegou o controle. Por um segundo maravilhoso, Carina achou que a irmã talvez fosse mesmo diminuir o volume ou, ainda melhor, desligar a televisão. Ela sabia que não aguentava mais o mesmo filme passando sem parar todo ano em outubro.

Mas não foi o que ela fez.

Manuela pausou o filme e virou seu pufe para ficar de frente para as outras.

– Por que você não vai fantasiada de abóbora?

Carina abriu e fechou a boca.

Ela não sabia se era uma piada ou um plano elaborado para destruir sua vida.

Encontrou o olhar de sua irmã, apertando os olhos no processo.

A mãe não disse nada.

– Eu posso ir de abóbora com você também – ofereceu Manuela, com um sorriso que parecia sincero. – Não vai custar dinheiro. Não muito, pelo menos. A gente pode se vestir de preto e laranja e carregar uma abóbora.

O sorriso de Manuela mostrava dentes agora. Tinha uma falha entre os dois da frente que todos seus amigos chamavam de adorável, mas Carina conhecia sua irmã demais para achá-la adorável.

Ela virou para a mãe, procurando ajuda, mas ela estava cobrindo a boca com a mão, como se fosse controlar um grito, o que Carina entenderia, mas seus olhos estavam apertados daquele jeito especial reservado para sorrisos enormes.

– Você não está falando sério – disse para Manuela.

Manuela deu de ombros.

– A gente ficaria fofa.

Ela revirou os olhos.

– Isso não é da sua conta. Você está na segunda série. Não é para você se fantasiar pro Halloween.

A coisinha tinha um brilho todo especial e único nos olhos. Carina só notou seu erro quando já era tarde demais, não tinha mais volta. Enquanto Manuela franzia a testa, sua boca tremia. Ela não ia chorar, claro, mas ia fingir até Carina ficar de castigo, só para estragar tudo.

– Por que eu não posso ir?

Carina realmente queria puxar o cabelo da irmã. Só um pouquinho. Bem rápido.

– Para de ser ridícula – disse Carina, rangendo os dentes.

Manuela apertou os olhos. Ela parecia pronta para gritar se fosse necessário.

Carina – disse sua mãe, em um tom de aviso –, seja legal com a sua irmã.

Manuela controlou um sorriso. Carina conseguia até ver o esforço que ela estava fazendo, era quase louvável. Quase. Se ela quisesse elogiar a garotinha mimada.

– Desculpa, eu acho – soltou Carina, com desprezo.

Não era muito sincero, mas era o suficiente para a mãe concordar com a cabeça e dizer:

– Foi uma ótima ideia, Manu. Vamos pensar nisso. E por enquanto: quem quer ver Charlie Brown e a Grande Abóbora?

Não Carina.

Manuela levantou o braço.

– Eu! Eu! Eu!

Carina mordeu o lábio inferior, esperando.

Então veio:

– Vamos ver! Do começo, Manu – disse a mãe.

 

+++

 

Apesar de nenhuma decisão oficial ter sido tomada quanto às fantasias, Carina tinha passado uma boa parte da noite trocando mensagens com as amigas sobre as poses para as fotos que tirariam juntas.

Deitada na cama, ficou difícil equilibrar conforto e comunicação. Seus cotovelos pareciam se encolher nos ombros se ela ficasse de barriga para baixo. Se ela deitasse de lado, o braço que sustentava seu peso ameaçava desmoronar. Quando ela deitava de costas, segurar o telefone só trazia dor para seu pescoço e seus braços. Finalmente, ela teve que deixar o telefone na mesa de cabeceira e mentir para as amigas que tinha ouvido a mãe no corredor.

Ela não tinha, porque a mãe dormia um sono pesado, tão pesado que não acordaria nem no meio de uma guerra nuclear, mas quando o quarto ficou silencioso, ela ouviu um som baixinho.

Parecia um sibilo.

Carina pegou o telefone de novo, apertando o botão lateral só para ver as horas. 3:04 piscou na tela.

Ela se enrolou mais no cobertor. Não diziam que 3 da manhã era a hora do Diabo? Tipo o oposto de quando Jesus morreu, ou quando Jesus nasceu, ou alguma coisa assim. O sibilo continuou, mais estável mas ainda distante, e o olhar de Carina viajou por todos os cantos escuros do quarto.

Carina fechou os olhos, bem apertados, e tentou se forçar a dormir.

Com os olhos fechados, o barulho parecia crescer. Era ruído branco, que nem um sinal de TV.

Ela respirou pelo nariz. No momento, ela mais do que odiava seus amigos e colegas de turma por sugerirem o filme O Chamado, de 2002. Ela não estava interessada em uma fantasma do poço saindo da TV, mas o barulho de estática parecia indicar que era esse o caminho que as coisas iam tomar.

De repente Carina entendeu por que pessoas morriam em filmes de terror. Tudo fez sentido para ela, quando ela se tornou profundamente consciente de sua morte iminente, afastando o cobertor e tocando o chão com os pés enfiados em meias. Pessoas morriam porque 1. elas não eram muito inteligentes, mas não era culpa delas. Elas não eram inteligentes porque 2. elas se preocupavam com outras pessoas.

Ela precisava garantir que, quando um fantasma viesse matar todo mundo – ela tinha quase certeza que tinha um período de 7 dias que funcionava que nem um test drive antes da fantasma matar todo mundo, mas infelizmente ela tinha pegado no sono no ombro da Cláudia no meio do filme, então não tinha tanto conhecimento sobre sua possível morte quanto deveria –, aquela mimada da Manuela estivesse trancada em um armário ou escondida debaixo da cama.

Pessoas morriam porque elas sempre precisavam conferir se alguém estava bem, mesmo quando deviam ter ficado no quarto.

A porta do seu quarto rangeu quando ela abriu.

Um calafrio percorreu seu corpo.

Ela pisou no corredor assustadoramente escuro e, sem dúvidas, o barulho vinha do andar debaixo. O sibilo da estática estava misturado com um som de movimento.

Ela prendeu a respiração e sentiu frio na barriga.

Mesmo assim, ela ainda tinha alguma coragem, porque andou até o quarto de Manuela, vendo a porta de sua irmãzinha entreaberta. Tocou a maçaneta, sentindo o material gelado na sua mão, mas quando empurro a porta… não tinha ninguém lá.

O estômago de Carina deu cambalhotas dessa vez. Ela apertou a maçaneta com mais força.

Sem saber da sua descoberta repentina, o monstro que provavelmente tinha saído da TV no andar de baixo deixou alguma coisa cair. Carina ouviu o som de algo quebrando e caindo, e quase pulou para fora do seu corpo.

Ela seguiu o som, descendo um degrau de cada vez, pisando no chão como se não fosse tudo acarpetado, com medo de ranger de novo, mas nada denunciou sua chegada.

Quando entrou na sala, viu que a TV estava mesmo branca, em uma frequência estática, assustadora. O barulho vinha das imagens no vazio, e ela se lembrou vagamente da Carol mencionando um filme chamado Poltergeist, no qual coisas esquisitas aconteciam com a TV também.

Pessoas morriam em filmes de terror porque compravam TVs. Elas deviam parar.

A TV, em sua glória aterrorizante, pareceu se tornar consciente. De repente a barra de volume apareceu na parte de baixo da tela, abaixando alguns pontos, e Carina não conseguiu conter um som de desespero. Eles já tinham levado sua irmãzinha e agora levariam ela também, porque ela era uma idiota e estava parada na frente do inimigo, em vez de voltar correndo para o quarto.

Ela ouviu um suspiro assustado.

Ela fez o mesmo som.

Manuela emergiu do sofá gigante e Carina se assustou de novo, dando um passo para trás e batendo com o calcanhar na escada. Ela quase caiu e Manuela soltou um som de susto de novo.

Ela estendeu as mãos para se apoiar na parede. Não foi seu momento mais gracioso, mas elas estavam vivas.

– O que você está fazendo?! – perguntou com urgência, dando a volta no sofá para olhar para a irmã.

Manuela, olhos ainda arregalados do susto, abaixou a cabeça, parecendo genuinamente arrependida dessa vez. Ela mexeu no controle remoto enquanto falava:

– Eu não… Eu não consegui dormir. Eu estava preocupada com uma coisa. Então eu quis descer e ver Snoopy, mas eu não consigo fazer o DVD funcionar.

Carina forçou sua respiração a se acalmar e então, sacudindo a cabeça, pegou o controle da mão de Manuela. Se virou para a TV e decidiu desligá-la, mas então uma preocupação a perturbou até ela virar para Manuela.

– Por que você não conseguia dormir?

Manuela levantou um ombro, ainda olhando para baixo.

– Sério, o que foi?

Manuela apertou os lábios por mais um momento e finalmente suspirou.

– É que… Você está acabando a escola, aí a gente não vai mais estudar juntas e você vai para a faculdade, vai ficar ocupada demais para me dar atenção e a gente nunca mais vai se ver. Vai ser um saco.

A visão de Carina ficou embaçada. Provavelmente eram os monstros se aproximando. Ela devia continuar atenta.

Ela passou o peso para o outro pé.

– Não diz “um saco” na frente da mamãe, ela vai surtar.

O momento se estendeu, Carina de pé com o controle remoto na mão, Manuela parecendo que preferia estar em qualquer outro lugar que não fosse exposta na frente da sua irmã mais velha. Carina nunca tinha se sentido assim – ela sempre foi a mais velha, mesmo que tivesse suas inseguranças. Ela principalmente tinha medo de que, quando começasse a faculdade, tudo fosse mudar. Que seu grupo de amigos acabasse. Que ela não estivesse pronta para o peso dos estudos universitários. Que ela nunca conseguisse um estágio e nunca se formasse. E assim por diante.

Mas ela nunca tinha pensado nisso. Ela não tinha pensado em como a Manuela se sentia.

Ela revirou os olhos e xingou em voz baixa, mas quando virou de volta para a TV, clicou em modo até a opção DVD aparecer e o menu para o DVD do Snoopy começar. Manuela franziu a testa, olhando para a tela.

No escuro, a tela cobria sua irmã de luzes de Halloween, mas não era assustador.

– Me dá um espaço, abóbora – disse, fazendo um gesto com as mãos, a voz mais grave e mais irritada do que ela realmente sentia. – Vai, vai, vai.

Manuela hesitou e foi para o lado, dando espaço no sofá, mas ainda parecia um pouco incerta do que estava acontecendo. Se Carina fosse sincera, também não sabia bem.

– A gente vai ver o filme? – perguntou Manuela em voz baixa.

– Sim – concordou Carina.

E, mesmo sabendo que ia se arrepender, acrescentou:

– E no final de outubro vamos de abóbora para o Halloween do Terceirão, então pode começar a encher o saco da mamãe para ela comprar vestidos pretos e laranjas agora.

O rosto de Manuela brilhou como se fosse Natal. Ela abriu a boca para dizer algo, mas Carina resmungou e fez um gesto para ela ficar quieta, sentando ao seu lado.

– Nem começa – reclamou, e Manuela fechou a boca, o sorrisão irritante no lugar. – Vem cá, Linus – indicou Carina, e o sorriso de Manuela conseguiu aumentar, enquanto ela se aproximava até a cabeça estar apoiada no colo da irmã.

Carina suspirou e apertou “play”. Ela ia ver esse filme idiota pela milésima vez. Mas ela não queria nada além de estar ali com sua irmãzinha irritante, por quem ela preferia morrer a deixar que ela estivesse à mercê dos monstros da televisão.

 

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