Manifesto pelo fim do guilty pleasure


Texto: Fernanda Menegotto // Arte: Dora Leroy

Dois anos atrás, tive o pior torcicolo da minha vida, do tipo que tornava impossível virar a cabeça para o lado sem querer dar uma choradinha tamanha era a dor. Era inverno, fazia frio e eu passei vários dias em casa alternando com o pescoço aninhado naquelas almofadinhas pensadas para longas viagens de avião ou então em uma bolsa de água quente. Nessa época eu andava meio viciada em ballet, salvando apresentações completas no YouTube pra ver depois e assistindo a uma porção de filmes de dança na Netflix. Que acabou me indicando Dance Academy, uma série adolescente australiana sobre uma garota de quinze ou dezesseis anos que sai do interior para estudar dança em uma escola importante em Sidney e, enfim, crescer. Fazia muito tempo que eu não assistia a um drama adolescente e, conforme a maratona se desenrolava cada vez mais rápido, me peguei pensando que aquela experiência era a definição de guilty pleasure.

Só que não era e explico por que: porque o guilty pleasure tem que morrer.

O Oxford explica o conceito: “Algo, como um filme, programa de televisão ou música, de que se gosta apesar do sentimento de que aquilo não é tido em alta conta”. Enquanto isso, o Merriam-Webster diz que o primeiro uso do termo de que se tem nota data de muito antes dos nossos tempos: 1907  o mundo ainda nem tinha passado por suas duas grandes guerras ainda e as pessoas já sentiam culpa por gostar das coisas erradas.

Traduzido literalmente, um guilty pleasure é um prazer culpado, e aí ele pode se referir a uma infinidade de coisas, mas é muito comum vê-lo sendo usado para falar de algum tipo de entretenimento que não é assim tão bem visto… por quem mesmo? Eu poderia ter sentido um prazer culpado quando fui assistir a Meia-noite em Paris, por exemplo, e amei a ponto de favoritá-lo, tendo sido mais tarde confrontada pela carta aberta da Dylan Farrow para mim e para você e a Academia e a Diane Keaton. Mas não é para essas situações que usamos o conceito guilty pleasure. O termo vem para nos salvar quando estamos assistindo a uma série adolescente sobre bailarinos. Ou ainda quando lemos um best-seller que, sabemos, foi escrito primeiramente para colocar dinheiro nos cofres da editora e dar um upgrade na casa do escritor. Ou quando, não sei, assistimos a (e gostamos de) um filme da Katherine Heigl, porque aparentemente a crítica detesta todos eles (menos Ligeiramente Grávidos).

A culpa vem de sabermos que nosso objeto de apreciação, seja ele Vestida para Casar ou O Código da Vinci, Barrados no Baile ou Laguna Beach, não é exatamente muito apreciado entre aqueles que decidem o que é digno de nota ou não, que ele não vai ganhar nenhum Emmy, nenhum Oscar e nenhum prêmio literário bacana e pomposo. Às vezes, a verdade é que ninguém poderia ligar menos – eu literalmente nunca vi ninguém falando de Dance Academy –, e a culpa vem da nossa própria percepção daquele objeto como algo intrinsecamente inferior por algum motivo – no meu caso, porque era um programa adolescente bem jovial cheio de triângulos amorosos infindáveis e intrigas chatas e eu, a Adulta, já tinha passado daquela fase. Eu deveria estar assistindo a Game of Thrones, aparentemente – apesar de todas as questões que posso ter com a série –, ou um filme do Iñarritu, ou ainda lendo, não sei, mais um livro premiado e/ou clássico escrito por um homem e considerado como literatura universal porque só existe literatura feminina como gênero próprio.

Em parte, a culpa vem de sentirmos que deveríamos estar usando melhor nosso tempo. O que nesse caso quer dizer consumindo seja aquilo que grupos pouco diversos como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nos garante que é o melhor que o cinema tem a oferecer, ou então – o que eu nunca vou deixar de afirmar que é realmente importante – aquilo que, na nossa percepção, nos desafia, provoca, expande nossa mente. Pode ser que uma obra considerada por muitos como guilty pleasure faça exatamente isso com outras pessoas; não era o caso dos meus adolescentes bailarinos, no entanto, e por isso ele é um exemplo tão bom. Não sei o quanto dessa visão vem da percepção do tempo que diz que a gente precisa estar sempre produzindo, aproveitando, usando todas as nossas capacidades lá no máximo e assim por diante, mas acho que tem relação, porque nossos guilty pleasures costumam ser aquilo que consideramos obras de consumo fácil e de entendimento simples.

Nosso tempo é contado a milissegundos, passamos pelo menos um terço do nosso dia fazendo a máquina capitalista funcionar – com muita sorte por meio de um trabalho que também seja pessoalmente interessante e estimulante – ou então buscando estar sempre produzindo algum tipo de conhecimento intelectual, precisamos cuidar da nossa saúde e das nossas relações, dedicando tempo e dinheiro a nossas aparências e assim por diante. Nossas vidas são cheias de regrinhas e convenções bobas e outras regras mais importantes para que o mundo tenha um pouquinho de organização em meio ao caos diário da vida, e por isso acho particularmente cruel que também precisemos encher de normas ridículas nossos poucos momentos de lazer, nossos poucos momentos dedicados a nós mesmos. Não precisamos nos desafiar a todo momento. Não precisamos dizer que assistimos a um reality show por algum interesse acadêmico profundo, grande e relevante para o mundo, embora essa também seja uma possibilidade, claro. Se não estamos machucando ninguém, não precisamos pedir desculpas pelas coisas que escolhemos para ocupar nosso tempo.

Hoje só consigo pensar que, em meio ao pior torcicolo da minha vida, enquanto eu alternava entre os artigos acadêmicos e Dance Academy, eram os artigos que alimentavam minha sede de conhecimento na área de estudo que amo e escolhi. Mas foi a série adolescente, com sua alta dose de ballet clássico e contemporâneo e eventualmente uma das reflexões mais bonitas e sinceras que já vi sobre a efemeridade da vida, a morte e sobre como o universo fundamentalmente não dá a mínima para nós ou nossas ambições (assim como a importância de aceitar isso como um fato), alimentou meu espírito. Eu jamais pediria desculpas por isso.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.