Manifesto Irradiativo: por uma explosão de diversidade


Irradiação, irradiar, irradiativo. Apenas o nome desse novo movimento literário já traz um monte de interpretações e possibilidades, mas ele vai muito além. Resultado da insatisfação com a falta de representatividade e diversidade na literatura, o documento de protesto é um ponto de partida pra uma mudança de perspectiva. Nada melhor para descontruir paradigmas que debates e discussões sobre o tema. Pensando nisso, este fim de semana (7 e 8 de novembro) acontece o primeiro Encontro Irradiativo, em São Paulo, na Biblioteca Viriato Corrêa, Vila Mariana.

 

O manifesto

Escrito por Jim Anotsu e Alliah em janeiro de 2015, o Manifesto Irradiativo é voltado “para todo mundo que já desejou ser aceito, para que saibam que sua representatividade importa”. Ele defende a diversidade de vozes, a propagação de novas criações e a fuga dos estereótipos. Além de reivindicar uma maior representatividade das mulheres, dos LGBTs e de pessoas neurodivergentes no mercado editorial, seja como personagens, escritores, ilustradores etc.

Alliah, ou Vic, conta que o documento de protesto foi escrito em conjunto e inspirado no formato do manifesto das RIOT GRRRL: “Quando o Jim me chamou para elaborarmos um documento de protesto por mais diversidade na literatura especulativa nacional, eu topei na hora. Conversamos animados e eufóricos e elaboramos nossos pontos numa rapidez que só confirma como todas essas questões já estavam em ebulição na nossa cabeça.”

Para ler o documento na íntegra, acesse a página do Manifesto Irradiativo.

Minha primeira dúvida quando terminei de ler foi: mas o que, afinal, é literatura especulativa? Assim como todas as decisões do grupo, a resposta foi resultado de uma conversa entre os organizadores:

“É um termo abrangente que agrupa ficção científica, fantasia e terror – inclusive as “zonas cinzentas” entre esses três grandes gêneros fantásticos, que são bastante permeáveis e intercambiáveis. De qualquer forma, o termo se refere a toda obra que, de uma forma ou outra, explora alternativas à nossa realidade e se pergunta: ‘e se’ tudo fosse diferente?

O termo foi cunhado por um fã de Looking Backward, de Edward Bellamy, e apropriado por Robert Heinlein por volta dos anos 40, na busca por uma expressão que desse conta dessa troca entre os gêneros. Hoje, a expressão nos ajuda a fugir da carga simbólica já estabelecida pelas livrarias e editoras em cima dos conceitos de fantasia e ficção científica.”

 

O encontro

O Encontro Irradiativo acontece nos dias 7 e 8 de novembro, a partir das 11h, na Biblioteca Viriato Corrêa (Rua Sena Madureira, 298 – Vila Mariana). O acesso às mesas de discussão, exposições, desfiles e outras atividades do evento são todas gratuitas. Consulte a programação no site do evento para não perder nada!

O evento começa às 14h do sábado (07/11) com abertura dos fundadores do manifesto, Alliah, Jim Anotsu e Ana Cristina Rodrigues, Irradiar diversidade: os motivos do Manifesto Irradiativo. Essa apresentação vai ser o ponto de partida para esclarecer os objetivos do movimento e iniciar a discussão. “É crucial que haja uma representação bem-feita, cuidadosa, respeitosa, que celebre nossa existência e nossas experiências diversas. Espero que o manifesto e o evento façam as pessoas que sempre tiveram voz aprenderem a ouvir aquelas que sempre tiveram suas vozes silenciadas e apagadas.” diz Alliah ou Vic.

Em seguida, às 15h, começa a mesa com Jim Anotsu, Fábio Kabral, Estevão Ribeiro e Nanda Café, A formação da diversidade: representação para crianças e jovens. Já acompanhamos a polêmica da publicidade voltada para crianças, por exemplo. Mas será que a literatura para esse público também não precisa ser questionada? Nanda Café, por exemplo, conta um pouco sobre sua experiência de mãe tentando educar o filho longe de estereótipos: “Como autores, educadores, mães, pais e a sociedade em geral podem contribuir para a desconstrução dos padrões que existem na mídia hoje e na consequente construção de seres humanos melhores para o futuro?”, questiona.

Às 17h, começa a última mesa do dia, com Germana Viana, Rober Pinheiro, Alliah e Cecihoney/Cecilia Souza Santos, Os malefícios dos estereótipos: a ‘personagem feminina forte’, o ‘melhor amigo gay’, o ‘negro que é o engraçado da turma’. É nítido como os estereótipos raciais e de gênero estão consolidados na literatura, nos programas de TV e no cinema. Para Cecilia Favo de Mel ou Cecihoney, a literatura especulativa pode ser um espaço aberto para a criação de conceitos e universos totalmente novos que fujam dessas fórmulas: “Com essas possibilidades podemos inclusive nos livrar de padrões e estereótipos ou mesmo colocá-los em cheque de maneiras novas, levando a desconstrução ou questionamento.”

No domingo (08/11) o evento volta às 14h com Eva Morrissey, Gi Pausa Dramática, Ale Santos e Jana P. Bianchi, na mesa Fandons e diversidade: Por que nerds são preconceituosos?. Estamos passando por um momento de popularização da cultura nerd, que se distancia cada vez mais daquela imagem tímida e de nicho. Mas esse crescimento está sendo inclusivo? Gi Pausa Dramática conta sua experiência de mulher frequentadora desse meio: “vejo uma atmosfera territorialista e hostil por parte de alguns rapazes brancos, cis e heterossexuais, que estão acostumados a encarar o ambiente nerd como um lugar de validação e autoafirmação.  Já passou da hora de esses caras perceberem que os espaços e a cultura não devem ser exclusivos nem excludentes.”

Para fechar, Ana Cristina Rodrigues, Cláudia Fusco e Eric Novello encerram o evento com a mesa A diversidade na cultura pop brasileira: Um balanço, que começa às 15h30. Cláudia Oliveira é mestre em estudos de ficção científica pela Universidade de Liverpool, Inglaterra, e defende a liberdade da imaginação e a necessidade do pensamento ilimitado, de questionar e desbravar: “A própria expressão ‘ficção especulativa’ nasceu da necessidade de ser mais abrangente do que os moldes limitados pela ficção científica ou fantasia. Queremos desbravar, sim: entender porque nossa literatura especulativa é tão conservadora e como podemos torná-la mais abrangente e inclusiva.”

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Sobre Sabrina Coutinho

Sabrina Coutinho tem 23 anos, é de São Paulo e estuda Editoração na ECA USP. Trabalha com educação no Quero na Escola e no tempo ~livre~ se mete em projetos culturais. É feminista, virginiana e sommelier de hambúrguer e cappuccino.