Mal do século


Já repararam que ninguém mais manda carta hoje em dia?

Quer dizer, é óbvio que ninguém manda carta hoje em dia, por motivos igualmente óbvios, mas mesmo assim a gente não cansa de romantizar esse meio de comunicação. Por a gente vocês entendam gente que nem eu, que tem tendência a romantizar as coisas além da conta, que ainda mantém guardadas três pastas cheias de papéis de carta e que acha emocionante a ideia de receber em casa um envelope escrito à mão, endereçado a mim.

Porque, nossa, tão legal carta, né? Toda uma coisa Jane Austen acontecendo: o papel timbrado, talvez perfumado, as histórias detalhadas, a letra caprichada, o envelope bonito, o selo atrás, a expectativa da resposta. Por que diabos ninguém mais manda carta hoje em dia?

Foi num delírio desses que, um tempo atrás, eu entrei num grupo de correspondência na internet. Foi uma coisa bem informal, era um monte de meninas mais ou menos conhecidas unidas por esse mesmo desejo de enviar e receber cartas. Trocamos endereços, compramos pacotes de selo e começamos a nos escrever. Que legal, né, eu ia escrever cartas pras pessoas e usar meus papéis de carta para algo além de ocupar espaço e acumular poeira, o quão super bacana era isso?

O que a Jane Austen não nos preparou foi para a dificuldade que é escrever uma carta pra alguém. O momento certo nunca aparece, e o que parecia tão fácil ia se arrastando como uma obrigação, pesando nas minhas costas. Acreditem, dá pra levar mais de uma semana escrevendo uma única carta, porque a gente só percebe como é difícil parar para única e exclusivamente escrever alguma coisa, com caneta e papel, quando é obrigado a fazer isso. E aí tem o envelope. E os selos, que a gente nunca sabe onde estão. E a visita aos Correios. Meu Deus, como é difícil ir colocar uma carta nos Correios! Mesmo que você passe todo dia na porta de um, sempre vai ter fila, você sempre vai esquecer a carta na mesa da cozinha, aquela caixa de correspondências no meio da cidade nunca vai cruzar o seu caminho e vai ser simplesmente difícil. Trabalhoso. Praticamente impossível.

Aí você pega o celular e manda uma mensagem no Whatsapp, com umas cinco fotos em anexo, contando como foi sua viagem de férias.

O problema não são as cartas, muito menos o fato de que hoje existam meios de comunicação muito mais práticos. As pessoas também reclamam que ninguém mais manda e-mails longos, que não existem mais papos eternos de telefone, e nossas conversas parecem sempre fragmentadas naqueles minutinhos que tiramos para fingir fazer qualquer outra coisa enquanto checamos o Whatsapp. Quanto tempo faz desde que você sentou pela última vez pra tomar um café com um amigo, falando bobagens e colocando o papo em dia?

O problema não são as cartas ou a falta delas, o problema é a gente. Ou, talvez, o problema seja do tempo cada vez mais curto e das nossas rotinas cada vez mais frenéticas – acho sempre justo culpar o sistema. O que eu aprendi no meu breve período de correspondente foi que o importante, o mágico, o sei lá o que de romântico que existe em trocar cartas não é (apenas) o charme do papel ou os selos engraçados, mas o tempo. Corresponder é perder tempo com alguém, se corresponder é dar seu tempo de presente pro outro e receber o dele de volta. É parar o que estiver fazendo e passar quarenta, cinquenta minutos contando das peripécias daquela viagem, dando um conselho do fundo do coração, ou inventando um casamento imaginário só para a pessoa do outro lado poder rir e ter um dia melhor. Esse tipo de coisa a gente não faz – direito – com oito abas abertas no navegador, e jamais vai ser substituída por conversas fragmentadas no Whatsapp.

Então, da próxima vez que você sentir uma nostalgia louca de algo que nunca viveu, antes de começar um grupo de cartas, adote como resolução de ano novo se corresponder de verdade com alguém do melhor jeito possível: gastando um tempo, esquecendo do relógio e fechando as abas abertas do computador. Talvez você nem precise encarar uma ida aos Correios.

(Mas, se você for igual eu e ainda tiver uma coleção de papéis de carta, coloque isso pra circular!)

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rocha.annavitoria@gmail.com'

Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.

  • Anna, como sempre seus textos fazem a gente pensar muito na maneira como levamos a vida!
    Até hoje, vezenquando envio cartas, mas é como disse, Correios e tudo o mais desanimam.

    Vou marcar um café com os amigos!

    Beijão.

  • “…inventando um casamento imaginário só para a pessoa do outro lado poder rir e ter um dia melhor”. Acho que não tenho nada a acrescentar :’) <3