Mais pizza de calabresa e sorvete de flocos, por favor.


Texto: Marília Cristina

Aos 13 anos, eu tinha uma melhor amiga. Um dia, quando ela foi dormir na minha casa, pedimos pizza e ela me disse que sua preferida era a de calabresa. Outro dia, na casa dela, ela me contou que seu sorvete favorito era o de flocos. Hoje já não somos tão próximas e nem temos muito contato, mas pizza de calabresa e sorvete de flocos me lembram ela. Toda vez.

Nessa época eu criei um fascínio por favoritos. Lembro de pensar que cada ser humano do universo é único e eu gostei da sensação de poder tornar alguém mais especial por isso, ainda que fosse só na minha mente. Essa coisa de lembrar e ser lembrado, entende? Gostei de ter algo para lembrar de alguém e de sentir que conhecia essa pessoa melhor só por saber sua música favorita.

Então eu comecei a minha jornada em busca de saber os favoritos de todo mundo: na primeira oportunidade que surgia, eu perguntava a alguém sobre seu filme favorito, livro favorito, comida favorita. Mas aí acontecia uma coisa engraçada: depois de responderem, me devolviam a pergunta e eu acabava dando uma resposta diferente para cada vez. Claro que eu era criança e todos os favoritos infantis são momentâneos, mas ainda assim era divertido pra mim.

Há alguns dias, perguntei sobre o doce favorito de uma pessoa que já tinha me respondido isso naquela época. Eu ainda lembrava da resposta, mas ele não lembrava de eu já ter perguntado isso. Sua resposta foi diferente, mas o sorriso que ele abriu ao responder foi exatamente igual ao da última vez. Isso me fez pensar que não importa o quanto cresçamos ou o quão adulto nos tornemos: sempre haverá uma parte no nosso coração que vai guardar essas paixões e elas vão continuar se renovando de tempos em tempos, exatamente como no coração de uma criança. Aquele sentimento sem compromisso nenhum, que te faz incrivelmente feliz naquela hora. A vida é feita desses pequenos e breves momentos. A felicidade se constrói aí.

Comecei a perceber os meus favoritos, aquelas coisinhas que várias pessoas também podem gostar, mas que fazem com que aqueles ao meu redor se lembrem de mim. Café, dinossauros, bacon, Supernatural e todas as coisas que levam os meus amigos a me mandarem mensagem dizendo “vi isso e lembrei de você” ou a me marcarem em alguma publicação no Facebook. Isso aquece o coração de um jeitinho gostoso.

Eu ainda tenho aquele fascínio gigante por favoritos. Talvez ele até seja maior do que o que eu tinha aos 13 anos. E talvez, só talvez, esse fascínio tenha sido o maior motivador para que eu escrevesse esse texto.

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