Macondo da Minha Vida


Texto: Lara Matos

A Macondo da minha vida fica a 736m do chão, quase céu pra esse estado tão fundo. Tanto que dá vontade de voar tendo como guia a conversa dos ventos nas torres altas. Ela é irmã de muitas outras cidades concebidas em sonho e nascidas embaixo de árvores. Seca porque quando se sonha uma cidade com rios deve haver lágrimas e aqui não houve, só o riso os iluminou.

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A conversa dos ventos vira também energia

Nascida do pensamento e ocupada pela coragem, quando meu avô quis criar uma cidade que fosse ponto infalível e obrigatório na luta contra a evasão de divisas. Mas estar bem no meio de uma tripartição de caminhos adiciona misticismo e mágica das encruzilhadas e chama tipos humanos incomuns, como uma prima que causa dores de barriga em algumas pessoas apenas por cumprimentá-las e a viúva alegre que depositava velas a balde no cemitério povoado não só de tumbas, mas também de pessoas, pois era onde havia o melhor sinal para celulares. O melhor exemplo de que “caminho também é lugar” e passagem pode ser casa.

O laço da construção de um povoado também atou minha família, deixando-a com ares de Buendía, no lugar das borboletas, os escorpiões amarelos e cascavéis sentidos de longe e reconhecidos pelos rastros, e todas nós mulheres, tias, irmãs, primas, reunidas na cozinha quente com café e memórias, na casa branca de paredes caiadas e tendo por nosso não só o lugar mas sua ideia de junção. Muitas fotos pelos corredores das quais cada uma de nós lembra de modo diferente. Um dos quartos que é assombrado, outro em que alguns de nós nascemos, fomos concebidos ou nos escondemos em brincadeiras. O sótão com sua escada comprida e sem corrimão para desencorajar curiosos. A casa, a cidade, os ventos daqui também somos nós.

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Ainda tem reposteiro que dá direto para o umbuzeiro carregado

A cidade também começou embaixo de uma árvore como a da ficção, mas sem o final do primeiro de nós amarrado a ela. Aqui, foram plantadas fileiras oitis, juazeiros, cedros e macambiras, cada um dos homens e algumas das mulheres quiseram fecundar a terra com algo de seu. Somos terra, então. Ainda se ouve “aquele oiti, seu tio que plantou”, “esse juazeiro era pequeno quando eu vinha brincar aqui na casa de madrinha Chica”, da minha mãe lembrando da cidade que é um pouco sua irmã. Dizem que Madrinha Chica assombra os quartos da casa branca de paredes caiadas se maquiando em frente aos espelhos. Mamãe prefere não olhar para eles quando está lá.

As pessoas foram chegando e construindo casas desordenadas de adobe, plantando mandioca, criando seus filhos e estando ao redor do posto como comerciantes. A cidade nunca se alinhou e cresceu muito rápido tomando o lugar das árvores que quase inexistem. Mas ainda conhecemos os “Zés de Maria” e os “Chicos dos Menandro”. Na persistência de viver sem rios, a cidade se fez da imaginação e da resistência. Em um trecho de rua, cada um dos pés fica num estado diferente, inúmeras estrelas cadentes viram o giz abundante do chão e as revoadas de pombos que tingem o céu de cor-de-rosa pontuando tudo de entardecer.

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Cedro plantado na frente da casa caiada num entardecer cor-de-rosa

A merceeira, o músico de rua, o vendedor de água tão escassa, as farinhadas que deixavam um cheiro ao mesmo tempo bom e desagradável, os inúmeros convites para que se entre nas casas e se tome um café, coma uma rosca, doces e infindades de guloseimas, tanto que se sai de alma leve mas corpo nem tanto. A grande romaria de São Cristóvão e a feira todos os domingos.

Meu avô teve um vislumbre de que seria uma cidade e esta segue sendo mais do que memória, é algo vivo e pulsante, crescendo assustadora com seus limites pouco definidos. A nossa Macondo, com céu limpo de luas de cinema, com a garoa persistente parecendo açúcar peneirado caindo sobre as casas. O nosso lugar sonhado, mas que existe.

 

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.

  • Iara Mendes

    Me emocionei com seu texto.Também tenho uma Macondo em minha vida, sua descrição é muito bela; parabéns!