“Luzes de emergência se acenderão automaticamente”, Luisa Geisler


Eu comprei “Luzes de emergência se acenderão automaticamente”, da gaúcha Luisa Geisler, em um desses momentos, mais frequentes do que o ideal, em que você anda pela livraria repetindo mentalmente que vai só dar uma olhada e sai com uma sacola que ao mesmo tempo te envergonha e desperta um sentimento conhecido como “Que se dane, pelo menos tô gastando em livros”. Tentei não me sentir muito culpada – apesar das pilhas me aguardando em casa porque A) era uma autora brasileira, coisa que quero ler mais e B) era uma autora brasileira que eu queria muito conhecer desde meu 1º Surto de Autores Nacionais Contemporâneos, em 2013. Mas pra ser sincera, eu não sabia o que esperar do livro. E pra ser mais sincera ainda, eu só descobri depois que estava envolvida demais com a história.

A maior parte do livro é narrada por Henrique, através de cartas que ele escreve ao melhor amigo, Gabriel. Ike e Gabi são jovens de Canoas, cidade da zona metropolitana de Porto Alegre, e levam vidas tão normais quanto a minha, a sua ou a daquele seu colega de faculdade. Estudam, trabalham, namoram, jogam conversa fora e tentam se divertir às vezes. Só que Gabriel entrou em coma após um acidente estúpido, e então Ike precisa aprender a viver isso tudo sem o melhor amigo. Por isso começa a escrever as cartas, na esperança de atualizar Gabriel de tudo que acontece enquanto ele está inconsciente.

Os capítulos são alternados  entre as várias cartas de Ike e narrativas curtas em terceira pessoa que apresentam ao leitor rápidos vislumbres daquilo que, por um motivo ou outro, Ike não sabe, não percebe ou faz questão de ignorar. Isso porque, como todo bom narrador em primeira pessoa, ele nos oferece uma versão muito sutil e parcial dos acontecimentos. Ike é quieto, como um dos curtos capítulos em terceira pessoa nos informa. Segundo um dos personagens, o coma de Gabriel acabou por deixá-lo ainda mais ensimesmado. Até mesmo em suas cartas, Ike parece não conseguir falar abertamente dos sentimentos. E é justamente nesse contexto que ele vai descobrindo fatos sobre si mesmo que estavam ali o tempo todo só você não viu, ele só não tinha percebido ainda.

“Mas”, ele disse, “luzes de emergência se acendendo automaticamente podem ser úteis”.
“Dá pra usar no cinema, em prédios, na rua, coisa e tal.”
“Imagina essas luzes na nossa vida. Hein, tá dando alguma merda que te tira a noção, que deixa as coisas mais nebulosas. As luzes acendem.”
“Deve ter pessoas assim, que são luzes.”
“E quando tu é cego pras luzes, hein?”
“Daí é uma emergência mesmo.”

Enquanto Ike vai tentando nomear o que sente nas cartas, acompanhamos também toda sua dificuldade em sequer cogitar a perda do melhor amigo, em aceitar as mudanças que ocorrem em seu relacionamento com a namorada Manuela. Ele tem medo da perda, talvez por isso tenha tantos problemas em descobrir o que deseja e quem quer ser. Ele diz odiar Canoas, mas nunca faz planos de sair de lá. Ele se incomoda profundamente com o emprego em uma loja de conveniência de um posto de gasolina, mas passa boa parte do livro se contentando com ele.

Talvez essa seja sim mais uma história sobre um jovem no início da vida adulta tentando se descobrir, mas ao mesmo tempo é muito mais. As cartas de Ike aproximam o leitor do protagonista de tal maneira que é impossível não ser tocado pela confusão dele. As questões que encontra pelo caminho são muito pessoais e individualistas, mas às vezes se agigantam e acabam por refletir todo o conflito de uma geração que não entende muito bem as escolhas que tem.

Tenho a sensação de que eu vou ficar o resto da minha vida procurando o que é que eu quero fazer e tal e nunca vou saber exatamente. Esse sentimento adolescente meio que permanece. Eu aos dezoito vou achar que aos vinte e dois vou saber, e daí aos vinte e dois vou achar que vou saber aos vinte e cinco, aos vinte e sete, aos trinta e cinco. Quando tu vê, tu não tem mais chances de fazer o que tu quer porque tu passou todo esse tempo procurando o que era isso.

Luisa Geisler sabe narrar, criticar e defender a própria geração como ninguém. Ao mesmo tempo que descreve com a compreensão e a honestidade necessárias as dúvidas, anseios e frustrações desses personagens (e que acabam tendo um pouco de cada um de nós), ela não hesita em apontar também suas contradições e futilidades, sem para isso apelar para o discurso conhecido e condescendente de esses-jovens-de-hoje-em-dia-a-internet-está-destruindo-cérebros-na-minha-época-não-era-assim.

“Luzes…” é, ao mesmo tempo, doce, engraçado, ácido e um tanto quanto trágico. Com personagens absolutamente reais e um enredo tão fantástico quanto a vida de qualquer um de nós, Luisa Geisler cria um romance sobre perdas, buscas e tentativas de quebrar silêncios. De um começo ligeiramente culpado, sem saber bem qual era a desse Henrique, passei a um fim emocionado em que torcia por todos os personagens que passei a conhecer e entender. Foi, afinal, uma ótima decisão deixar a pilha de livros em casa esperando um pouco mais.

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.