“Lua de Vinil”, Oscar Pilagallo


Texto: Lorena Pimentel

Sabe quando você lê um livro e fica pensando em como ele teria afetado sua vida se tivesse lido antes? Esse foi o caos de Lua de Vinil para mim. Não que eu pudesse ter lido antes: ele foi publicado pela Seguinte agora em junho, mas é o tipo de livro que eu gostaria de ter lido na adolescência.

O livro é a narrativa de alguns momentos na vida de Giba, um adolescente paulistano qualquer dos anos 70. Ele mora em um apartamento com seus pais, tem uma turma de amigos do prédio, tem a crush na vizinha, passa por dificuldades na escola e ouve Pink Floyd.

Tudo não poderia ser mais típico, mas estamos falando dos anos 70. O disco do Pink Floyd tem que ser encomendado de um amigo do pai no Reino Unido, não existe internet, a ditadura militar estava em alta e a doutrinação escolar também. E ah, o pai de Giba está internado próximo da morte.

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Não seria talvez o primeiro livro que eu pegaria na estante (tenho tentado me afastar um pouco de narradores masculinos, em especial quando são YAs), mas percebi há um tempo que leio muito pouca literatura nacional, por comparação e o que seria melhor que um livro que, além da ficção, incluiria também passagens relacionadas à História do país? Foi isso que me levou a Lua de Vinil.

A primeira coisa que me chamou a atenção, no entanto, não foi nem isso. Foi a construção dos pensamentos do protagonista pelo autor. Giba tem algumas manias parecidas com as minhas e foi interessante estar na cabeça dele. Os outros personagens também chamam a atenção: em especial, seu relacionamento com o pai doente. Internado no Oswaldo Cruz, esse cenário também é constante na vida de Giba.

Falando em cenários, me chame de bairrista, mas eu tenho um fraco por narrativas que passam por lugares que eu passo. Essa se dá pela extensão da Paulista. Giba mora na Vila Mariana e estuda, por um tempo, no São Luís. Ele visita o pai lá no Oswaldo Cruz e se coloca em problemas na Avenida Angélica. Esse trajeto Paraíso – Consolação é constante no livro e quase metafórico para os acontecimentos da história. Eu acho fascinante que uma história de um garoto qualquer em uma época difícil se passe por tantos lugares comuns do nosso dia-a-dia atual.

O aspecto histórico é menos presente do que achei que seria. O livro toca, por poucas páginas, no assunto DOI-CODI, mas não contextualiza na história. O assassinato de Alexandre Vanucchi (militante antiditadura) e de outros alunos de esquerda da USP, também é colocado no meio da história, mas de leve. O único momento em que a questão da ditadura é presente com força é em uma discussão que o protagonista tem com seu professor. Fiquei me perguntando se não seria mais interessante abordar estes temas com mais profundidade. Mas, por outro lado, a despretensão ao inserir temas pesados de forma tangencial é bem realista. A vida – em especial para um adolescente de classe média sem envolvimento político – continua, de qualquer forma.

Apesar do receio inicial, achei uma leitura envolvente, principalmente pela facilidade que encontrei ao entrar na cabeça de Giba. Lua de Vinil tangencia várias coisas, mas é, acima de tudo, um extrato da vida desse adolescente comum. Um livro sobre amizades, amores, perdas e como momentos ordinários fazem parte de uma narrativa bem maior.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.