Incomodar algo imóvel: o trabalho de Lora Mathis


Texto: Milena Martins

Arte sempre começa com letra maiúscula e fica a alguns metros de distância de você, numa parede de museu ou nas estante empoeiradas de uma grande biblioteca. Nunca é feito por alguém parecido com você e nunca – em nenhuma hipótese – está a seu alcance. Não ocupa os mesmos espaços que você.

É contrariando essa ideia engessada de arte que artistas visuais, fotógrafos e escritores jovens usam plataformas como o Tumblr pra colocarem seus trabalhos no mundo. É o caso de Lora Mathis, que começou escrevendo apenas poesia e se tornou uma das artistas mais compartilhadas da rede social. Hoje Lora também escreve prosa, fotografa, faz colagens, edita e – como se não bastasse –  usa sua produção como uma bandeira a favor da sensibilidade.

“I am a disgusting thing.
Smelling of sweat.
Allowing food to drip down my chin as I eat.
Wearing torn lingerie.
So what.
This is my softness.
This is my femininity.
Dirt-stained and
sprawled out in front of me.
So loud the neighbors can hear it next door.
Take it in.
I am a delicate dirty thing
whose mouth is too full
for apologies.”

Still Soft, Lora Mathis

 

Eu sou uma coisa nojenta.
Cheirando a suor.
Deixando comida escorrer pelo meu queixo enquanto como.
Usando lingerie rasgada.
E daí.
Essa é minha fragilidade.
Essa é minha feminilidade.
Manchada de sujeira e
espalhada na minha frente.
Tão alta que os vizinhos podem ouvir ao lado.
Assimile.
Eu sou uma pequena coisa suja
cuja boca está cheia demais
para desculpas.”

(Tradução livre)

Lora é neuroatípica, o que deixa bem claro em seu trabalho. A presença da depressão, a tentativa de viver como uma sobrevivente de abuso sexual e as questões com o próprio corpo são temas centrais da obra dela. Ela não tenta esconder isso e, pelo contrário, utiliza toda essa explosão de emoções como matéria de seu trabalho. Em uma de suas obras recentes, Lora lançou uma série de trabalhos em diferentes meios, o que acabou funcionando como uma campanha chamada Radical softness as a weapon. Foram criadas instalações, camisetas, fotografias e textos explorando a ideia de que a vulnerabilidade pode e deve ser usada como uma forma de posicionamento político.

 

2471599

“Emoções não são um sinal de fraqueza”

 

Em um mundo patriarcal, que busca sufocar emoções e encoraja pessoas (principalmente mulheres, principalmente meninas) a negarem suas emoções, Lora acredita que aceitar e assumir uma posição vulnerável é sinônimo de força. Isso é ainda mais gritante se pensamos em termos de sobreviventes de transtornos psicológicos e abusos – pessoas que frequentemente sentem dificuldade em compartilhar suas histórias e vivências, que são muito julgadas e têm ainda mais problemas em vestir a própria subjetividade por ela estar tão conectada ao próprio trauma.

 

autorretrato aos 23

autorretrato aos 23

 

“Softness” não é sinônimo de passividade, é o que Lora nos diz. Seu trabalho busca assumir a própria condição humana, o fato de que sentimos muito, sentimos demais e é isso que nos torna fortes. Ainda mais fortes no caso de sobreviventes. Sentir muito, quando você está se recuperando, é mais uma demonstração de resistência. Você sente, você deixa que o mundo saiba que está sentindo, você continua.

Nesse ponto, toda a obra de Lora Mathis é uma maneira de incomodar, de dar vazão àquilo que tentamos calar por força de uma sociedade com valores brutos, patriarcais, enviesados. Estar vulnerável e transformar isso em arte é uma maneira de se posicionar contra esses valores. Também por isso é importante que o trabalho dela seja compartilhável, direto e relativamente acessível (infelizmente toda a obra só está disponível em inglês, todas as traduções são livres). A proximidade entre artista, obra e público é o que torna todo esse projeto mais significativo.

 

beije seus amigos no rosto mais vezes/ destrua a crença que intimidade é reservada para relações monogâmicas / seja carinhoso / abrace a intimidade platônica / abrace a vulnerabilidade / use a emoção como tática radical contra uma sociedade que te ensina que emoções são um sinal de fraqueza / diga a mais pessoas que você se importa com elas / segure suas mãos / diga aos outros que sente orgulho deles / ofereça apoio de boa vontade / cuide das pessoas ao seu redor

beije seus amigos no rosto mais vezes/ destrua a crença que intimidade é reservada para relações monogâmicas / seja carinhoso / abrace a intimidade platônica / abrace a vulnerabilidade / use a emoção como tática radical contra uma sociedade que te ensina que emoções são um sinal de fraqueza / diga a mais pessoas que você se importa com elas / segure suas mãos / diga aos outros que sente orgulho deles / ofereça apoio de boa vontade / cuide das pessoas ao seu redor

 

Em entrevista à revista on-line The Fem, Lora disse:

Por que poesia? Porque é algo fora de si mesmo. Aquele estranho com os ombros virados para mim num bar. Aquele convite anônimo que chega pelo correio. Aquela caminhada silenciosa em que ninguém respira porque têm medo de incomodar algo mais imóvel que eles. Poesia me faz sentir perigosa. 

A cada texto que escreve e coloca no mundo, a cada ensaio fotográfico, a cada série de colagens e instalações, Lora Mathis afirma “ eu estou aqui e sinto. você também”. Ela sobreviveu. E hoje transforma suas emoções mais intensas em um tipo de arte que nos afeta imediatamente e incomoda tudo que tentamos deixar em silêncio dentro de nós.

 

Conheça mais do trabalho de Lora aqui e aqui.

Compartilhe:

Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.