Livros ao redor do mundo


Uma das coisas mais fascinantes da literatura é que ela pode nos transportar para qualquer espaço-tempo. Pense nisso, pense em como podemos viajar para lugares distantes em épocas distantes com o folhear de páginas. É por isso que na edição de abril, o post colaborativo da Pólen é sobre os destinos dos livros. As histórias dessas obras estão fortemente ligadas ao local onde se passam e nos ensinaram mais sobre eles:

Alemanha: A menina que roubava livros, Markus Zusak  (por Lorena)

 Sabe aquele livro que você passa anos pretendendo ler, mas nunca de fato começa até que ele consegue entrar na sua vida meio que do nada? Então, foi isso que aconteceu comigo e A menina que roubava livros. É claro que o livro é super famoso e todo mundo já tinha em recomendado, mas eu nunca gostei muito de livros históricos, então deixei pra lá. Mas um dia, sem pretensão nenhuma, no ano passado, eu resolvi pegá-lo para ler. Já tinha um exemplar em casa e, pra variar, não tinha nada mais pra ler na estante. Foi aí que eu entendi porque todo mundo amava esse livro.

Há algo fascinante em ler um livro narrado pela Morte, ainda mais um livro que tem como personagem principal uma criança. É melancólico, porque afinal de contas, o que poderia sair de bom disso? Acho que o que mais me prendeu ao livro foi a relação entre a Liesel crescendo e a tensão na Alemanha aumentando. A urgência e a sensação de angústia e perigo aparecem sutilmente no início, mas aumentam durante a narrativa. Narrativa essa que é completamente ligada ao contexto social e político do lugar onde Liesel vivia.

Lugares físicos estão ligados a suas culturas e acho que um livro que fala de uma época tão delicada explica isso muito bem. Foi só depois, vendo o filme, que entendi, mas há no livro uma questão importante sobre o pai adotivo de Liesel. Ele começa a pintar letreiros de lojas. O que eu percebi na sala de cinema foi que ele estava pintando por cima dos nomes (judeus, é claro).

Mas talvez o mais interessante seja o escapismo de Liesel. Colocada em uma situação de risco e de medo na vida real, ela escapa pelos livros. Ao aprender a ler e ao roubá-los de uma casa mais afortunada, Liesel consegue sair de sua situação por alguns momentos, viajando pela literatura.

África (Angola, Namíbia, África do Sul e Moçambique): As Mulheres do meu Pai, José Eduardo Agualusa (por Laura)

O livro “As Mulheres do Meu Pai” narra a história de Laurentina e sua viagem por alguns países da África atrás de informações sobre seu pai Faustino Manso. Mas, não é só sobre isso. O romance do angolano Agualusa é uma história sobre a África, mais especificamente a África Austral. É uma história sobre mulheres fortes que, embora apareçam na narrativa por causa da sua relação com o pai do título, são mais do que isso. É uma história sobre a busca que, de alguma forma ou de outra, todos nós fazemos em relação ao nosso passado.

Laurentina descobre que o homem que a criou não é seu pai biológico. Seu pai é Faustino Manso, um músico, já morto, que foi muito famoso na África. Com a descoberta ela viaja para Angola e da lá segue para a Namíbia, África do Sul e Moçambique. Laurentina começa a reescrever o passado do seu pai visitando cidades em que ele permaneceu por algum tempo, lugares em que ele deixou viúvas. Ela conversa com essas mulheres descobrindo mais sobre ele e também mais sobre si mesma.

O livro, contudo, não conta apenas essa história. Ele mescla os momentos de ficção, com momentos em que um narrador, provavelmente o Agualusa, viaja à África para fazer um documentário e vai construindo junto com a cineasta Karen as personagens da parte ficcional da obra. O mais incrível é como as cenas são poéticas e como elas se relacionam intimamente com os locais em que ocorrem. As paisagens e realidades das cidades pelas quais a história passa, são descritas de forma mágica, porém crua, real. No livro fala-se também sobre o Brasil e sobre Portugal e o que mais chama atenção é a diferença na forma de viver que há entre esses dois países e a realidade africana relatada.

Esse é um livro sobre mulheres, sobre homens, sobre as relações que estabelecemos com os locais dos quais viemos, nos quais estamos e para onde vamos. É um livro sobre uma parte da África, apenas uma das milhares que podem existir. E é, sobretudo, um livro sobre contar histórias e sobre como criar histórias.

Barcelona:  Marina, Carlos Ruiz Zafón (por Analu)

Não tem como ler um livro de Carlos Ruiz Zafón e não se sentir transportado para as ruelas de Barcelona. Falando da cidade sempre de forma sombria (até pelo seu estilo ficcional), a imagem se tornou nítida na minha cabeça – e curiosamente, toda em preto e branco. Cada praça, cemitério (!), livraria e biblioteca foi desenhada sutilmente por ele através da narrativa e com isso eu sinto quase como se tivesse dado uns passeios por lá.

Bithynios (Turquia) & Detroit (EUA) :  Middlesex, Jeffrey Eugenides  (por Sofia Soter , sofiasoter.com e www.revistacapitolina.com.br)


Middlesex foi meu desempate de Jeffrey Eugenides. Li As virgens suicidas, amei. Uns anos depois, li A trama do casamento, e achei um saco. Quando Middlesex caiu na minha mão, na nova edição da Cia. das Letras (com uma ótima tradução, por sinal), foi com muita pressão e expectativa: ia determinar se eu gostava do autor e A trama do casamento era a exceção, ou se eu não gostava e a exceção era As virgens suicidas. Acabou que, bem, constatei que gosto ainda mais do autor do que pensava, e Middlesex virou um dos meus livros favoritos.

Cal(lie), protagonista de Middlesex, é uma pessoa intersexo, i.e., nascida com características sexuais biológicas que poderiam identificá-la, no nascimento, como mulher ou como homem. Cal(ie) também é filha(o) de filhos de imigrantes gregos em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. Sua história é uma de transição, trajetos e dualidade, e o mesmo se diz da história de sua família.

Sob o pretexto de justificar a anomalia genética que faz com que Cal(lie) nasça com as características que nasce, o autor narra a história da família Stephanides desde o casal Desdêmona e Esquerdinha, irmãos incestuosos que fogem de Bithynios, sua cidade, quando esta é tomada pela invasão turca durante a guerra, em 1922, em busca de novos começos nos Estados Unidos, mais precisamente em Detroit, onde sua prima, Lina, vive com o marido, Jimmy. Aproximadamente na mesma época, os dois casais têm filhos: Lina e Jimmy se tornam pais de Tessie, e Desdêmona e Esquerdinha de Milton. Os primos, como era de se esperar, se apaixonam, e se casam em 1946, tendo Cal(lie) em 1960.

Nada na história poderia ser do jeito que é sem a influência da imigração, do lugar de onde a família vem – o pequeno vilarejo de Bithynios, cuja população jovem é tão pequena Esquerdinha se vê sem possibilidades de pretendentes além de sua irmã Desdêmona – e do lugar onde a família se estabelece – Detroit, modelo do Sonho Americano e de sua inevitável decadência e destruição. Mesmo que a história não seja sobre as cidades, seus temas de transição, transformação e destino são intrinsecamente ligados à trajetória dos personagens, não só emocional e física como geográfica.

É, por tudo isso, um dos livros mais bonitos e instigantes que já li. As quase 600 páginas parecem intimidadoras (e atrapalharam para ler no ônibus), mas você rapidamente se sente membro da família Stephanides também, enquanto eles fogem, atravessam o oceano, se reconstroem, caem, se reconstroem de novo, são derrubados, e buscam por redenção.

Canadá: Anne de Green Gables, L.M. Montgomery (por Poliana Lima do blog @bookwormlike)

Quando surgiu a oportunidade de escrever sobre livros que se passavam em lugares diferentes, demorou, mas veio uma luz e a Vereda dos Namorados apareceu à minha mente, sem brincadeira. Sendo assim o cenário é um destaque desse livro, a descrição dos lugares, das lindas árvores e flores que rodeiam o mundo de Anne. Você se pega desejando conhecer a Ilha do Príncipe Maurício onde a escritora L.M. Montgomery teve um cuidado ao descrever.
A história em meio a esse lugar incrível se desenrola quando Anne chega, a garota órfã inicialmente não desejada, visto que era um menino que os irmãos Marilla e Mathew queriam adotar por causa do trabalho. Ela acaba conquistando a eles e seus vizinhos com seu falatório e imaginação, sem contar das poucas e boas que ela apronta. Alguns leitores vão concordar que Anne é bem irritante no início, mas confesso que logo me encantei. Apesar de ter uma infância solitária, a personagem consegue arranjar o seu espaço para imaginação e criatividade, principalmente agora vivendo em um lugar tão bonito quanto Green Gables. Anne parece ser muito lamentadora inicialmente, mas com Marilla pegando no seu pé e por conta de outros acontecimentos ela vai mudando, vai crescendo, mas a essência da personagem não se perde.

Anne de Green Gables foi escrito no início do século XX então, obviamente, existem outros costumes que podem ser observados desde a forma de receber visitas a se comportar na igreja. Foi muito bom ver o incentivo para os estudos de Anne e seu esforço para continuar. A amizade dela com Diana têm seus momentos cômicos e adoráveis, a rivalidade com Gilbert também. O enredo trata de preconceito, perdas e amadurecimento de forma não tão dramática e com mais sete livros contando a vida da garota, hoje a obra é considerada um clássico infantil.

Dinamarca:  Nada, Janne Teller (por Rovena)

‘Nada’ é um livro escrito por Janne Taller. A história começa quando Pierre-Anthon, um menino de 13 anos sobe numa árvore e decide que não vai descer de lá porque nada mais importa; a vida não tem nenhum significado. Seus colegas de turma tentam convencê-lo a descer, mas quando eles percebem que não vão conseguir, decidem criar um “montinho de significados”, onde cada criança tem que colocar aquilo que é mais importante para ela. E então, temos desde um par de tamancos até coisas que você não consegue imaginar (e talvez nem queira).

‘Nada’ se passa numa pequena cidade da Dinamarca e já posso imaginar as casas feitas de madeira, com a neve no telhado e a fumaça saindo da chaminé. É meio difícil ler e não lembrar das paisagens que associamos ao país. A Dinamarca é incrível (ou isso é o que imagino) porque foi de lá que saíram os contos de Hans Christian Andersen, Copenhague tem uma estátua da Pequena Sereia e o país também me deu o meu jogador de hóquei favorito. Além disso, é um lugar e eu amo frio.

É meio difícil falar de ‘Nada’. O livro, na época de seu lançamento, foi banido da Escandinávia. Hoje em dia ele é considerado por alguns como um clássico moderno do YA. A verdade é que ‘Nada’ é uma leitura pesada, crua, confusa e chocante. Janne quis fazer o seu leitor pensar sobre o tema que ela discute e eu te garanto que é exatamente isso o que vai acontecer. Não vou falar se gostei ou não do livro, mas vou falar que não me arrependo de ter lido, por mais assustadora que tenha sido a experiência.

Dublin (Irlanda): Ulisses, James Joyce (por Anna Lívia)

Ulisses de James Joyce é, de certa forma, uma readaptação da Odisseia de Homero. O livro tem como personagens principais Leopold Bloom (representativo de Ulisses), Stephen Dedalus (Telêmaco), e Molly Bloom (representando Penélope). O livro segue sua “saga-épica” ao acompanhar o percurso de um dia na vida de Bloom e Dedalus. Enquanto eles vagam pela cidade, entrando e saíndo de lugares e encontrando personagens e situações que remetem a Odisséia, o livro também trata de extrapolar sua inspiração original para abraçar questões da modernidade – da qual o livro é um símbolo maior – a empatia e compaixão como únicos atos de heroísmo do homem ordinário, a culpa, o bem e o mal e as representações dele, a busca pelo paternal, o carnal, o físico e o meta-físico. Tudo isso ao mesmo tempo em que explora diversos formatos de escrita. Ulisses é uma cacofonia de estilos, de referências, de palavras. Criado com um vocabulário semi-labirintico sobre fluxos de pensamentos, de reminiscências morais.

O livro acabou sendo tão importante para Joyce, para Dublin e para a Irlanda como um todo, que o dia 16 de junho – data que que se passam os eventos contados – ficou conhecido como Bloomsday e virou um dia de celebração ao livro e ao escritor. Recriando os passos de Bloom e Dedalus na Bloomsday Walk, turistas conhecem pontos significativos de Dublin: Sandymount Strand, Davy Byrne’s Pub, o Museu Nacional, a Biblioteca Nacional, aproveitando pra dar um pulinho no centro James Joyce e no endereço onde moraria Bloom. Virou uma ótima maneira de se engajar com o livro e aproveitar a cidade. Quer melhor passeio pra um fã de literatura fazer?

Veja os lugares por onde os personagens passam a cada capítulo e os pontos turísticos atuais e onde estão localizados os exatos acontecimentos do livro nesse site aqui: http://ulysses.bc.edu/

Escócia: Outlander, Diana Gabaldon ( por Maria Salles do blog jardim-de-borboletas.blogspot.com.br)

Escrito por Diana Gabaldon, Outlander é uma série de livros cheia de misticismo, romance e ação. A história começa quando Claire Randall e seu marido, Frank, passam uma temporada em Inverness, na Escócia, após o término da Segunda Guerra Mundial. Em uma de suas expedições, um misterioso círculo de pedras a envia 200 anos no passado, em 1743. Claire é acolhida pelo Clã Mackenzie e protegida especialmente por Jamie Fraser. Entre tentativas de fuga, perigos vindos do exército inglês e em uma terra e época desconhecidas, Claire desesperadamente tenta voltar para o seu tempo enquanto seu coração começa a bater em outro ritmo.

Além de maravilhosamente escrito, Outlander é uma história espetacular tendo como cenário o interior da Escócia, que só o nome já nos remete um clima mágico. Uma cultura extremamente rica e envolvida numa áurea mística, a paisagem é estonteante: muito verde. Verde nos campos, nas montanhas, e também muita lama, já que o clima lá é bem chuvoso e úmido. Não é a toa que Claire e Frank escolhem Inverness como o local para recomeçarem após a guerra, parece um local parado no tempo e alheio ao que se passa no mundo. Há história para onde você olhe, desde as casas mais recentes marcadas com sangue (de galinha) como sacrifício, até as ruínas dos castelos e fortes que resistem ao tempo.

Quanto mais tempo Claire passa no século 18, mais ela aprende sobre as pessoas e a cultura, e mais respeito e admiração crescem. É um choque de cultura para ela, com certeza, mas é extremamente interessante vê-la entendendo a forma de vida daquelas pessoas bastante diferente da que tinha no século 20; mais interessante ainda é vê-la conciliando as duas culturas em sua vida, de certa forma, em como agir e em seus relacionamentos – embora sua atitude também a tenha colocado em problemas.

O carinho que desenvolvi por esse livro é enorme, a história é escrita com tanto cuidado e é tão primorosa que é difícil não se apaixonar por Outlander. Mais difícil ainda não ter sua curiosidade pela Escócia crescer a cada capítulo, especialmente se você, como eu, nunca pisou os pés naquela terra antiga. Os lugares descritos por Diana, lugares reais e que podemos visitar, pedem para serem vistos, respirados, tocados.

Se você nunca leu Outlander, o adicione à sua lista de leituras, não vai se arrepender. Enquanto isso, você pode acompanhar a série de TV baseada nos livros produzida pela Starz, é tão incrível quanto.

Hiroshima: Hiroshima, John Hersey (por Debora Theobald do blog: http://vanille-vie.blogspot.com.br/)

Hiroshima é um livro-reportagem escrito John Hersey. Nele acompanhamos, pelo ponto de vista de seis moradores da cidade japonesa, o fatídico dia em que Hiroshima foi bombardeada pela primeira bomba atômica da história. Com relatos realísticos e chocantes vemos a rotina dessas pessoas ser totalmente destruída, substituída por caos, terror e desorientação.

Os primeiros dias desses seis sobreviventes são recontados por Hersey, como reagiram após destruição quase total da cidade, como a falta de informação sobre o que havia acontecido e a busca por mais sobreviventes foi excruciante. A leitura gera um misto de sentimentos no leitor que vai de horror pela capacidade da humanidade de causar tanta dor, até admiração pela força e capacidade de união das pessoas.

Hiroshima é o livro perfeito para se falar sobre lugares. A obra nos apresenta uma cidade destruída, a busca pelos sobreviventes nos escombros, o inferno que se instalou nos hospitais que não tinham condições de atender tantos feridos. É o retrato da vertiginosa queda de uma cidade que pensava ter acordado para mais um dia de trabalho.

Além disso, o ponto principal do livro são as pessoas, afinal do que mais é feito um lugar senão de pessoas? Com uma cultura e atitudes tão diferentes das que encontramos em nosso dia a dia, os personagens me surpreendiam a cada linha e a cada pensamento. Hiroshima é um relato nu e cru sobre o dia que não apenas mudou o rumo da 2ª Guerra, mas também a vida de milhares de pessoas. Com sensibilidade e com o foco voltado especialmente nas consequências que a bomba atômica teve na vida desses japoneses, Hiroshima é uma ótima leitura para os amantes de história e para aqueles que desejam conhecer um pouco o outro lado do mundo, mesmo que o cenário seja tão horrível e trágico.

Ilhas Guersney (Inglaterra) : A Sociedade Literária a a Torta de Casca de Batata, Mary Ann Shaffer e Annie Barrows (por Lais Baptista)

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata se passa logo após a segunda guerra mundial. A escritora Juliet Ashton está viajando pelo interior para lançar seu novo livro, uma coletânea com os artigos escritos para um jornal durante a guerra. Quando ela volta pra casa, tem uma carta de um morador de uma das Ilhas do Canal, uma pequena ilha chamada Guernsey. Dawsey Adams comprou um livro do autor Charles Lamb e, na contracapa, o nome e endereço de Juliet, que ele usa pra perguntar sobre outros livros do autor. Através das cartas que eles trocam, ela toma conhecimento da sociedade literária, e também da vida em Guernsey.

Eu comprei esse livro por conta do título. Acho que nunca na minha vida vou ver outro título que me atraia tanto de primeira. É um título fantástico e isso merece ser reconhecido. Porque afinal de contas, o que é uma torta de casca de batata e como isso pode ter algo a ver com uma sociedade literária? E tem tudo. Crescendo numa cidade grande, eu sempre me gostei de ler histórias de vilarejos com “personalidade”, porque uma cidade grande não tem como ter uma personalidade, tem de tudo um pouco. Mas Guernsey é pequena e encantadora e tem personalidade de sobra. E através das cartas que vemos no livro vamos conhecendo um pouco da cidade e sua personalidade. Claro que a personalidade é intrinsecamente relacionada com as figuras fantásticas que moram lá.

E as pessoas que moram lá são realmente incríveis. Parte do livro são as histórias de como o vilarejo viveu durante a guerra, quando foram ocupados pelos alemães. Os nazistas não tinham muito amor pelos ingleses naturais da Ilha e isso era recíproco, mas como sobreviver com racionamentos e regras e vizinhos nada bem-vistos? A invencionice acabou criando a torta de casca de batata. E a sociedade literária. E no final acabou levando Juliet à ilha e me fazendo ter muita, muita vontade de ir lá também.

Índia: O tigre branco, Aravind Adiga (por Marília Barros, do blog http://plzsiriwantsomemore.blogspot.com.br/)

Dizem que só nasce um tigre branco por geração. Da mesma forma, é rara a ascensão social que vive o protagonista do livro de Aravind Adiga. O personagem, Balram Halwai, nasce em uma zona rural pobre nas margens do rio Ganges, mas consegue subir de classe social a partir de formas pouco ortodoxas e virar um empresário de sucesso. A história é contada a partir de uma carta endereçada ao primeiro-ministro da China, que iria à Índia para entender o desenvolvimento empresarial desse país.

São duas as Índias retratadas no livro: a da Escuridão, de extrema miséria e onde Balram nasce, e a da Luz, moderna e cheia de tecnologias, onde o protagonista passa a viver. As duas, no entanto, são parte da mesma realidade: um país emergente, com grande desigualdade social e que sofre com corrupção e violência. Lembra outro país que a gente conhece bem, né?

A história de O tigre branco é contada com sarcasmo e humor negro, e o tom é pessimista e cheio de crítica social. O retrato da Índia está longe de ser romantizado, e talvez não seja essa a visão que a gente queira ter do país, mas acho importante conhecê-la e dar uma chance para os autores mostrarem como veem suas próprias realidades. A Índia tem uma multiplicidade de culturas e de religiões para ser explorada, e o livro pode ser uma porta de entrada para isso.

O tigre branco ganhou o Man Booker Prize de 2008 e Aravind Adiga tem outros dois livros publicados: Entre assassinatos, livro de contos que recomendo também, e O último homem na torre.

Itália: Rostinho Bonito, Mary Hogan (por Mariana Marins do blog http://nasquartasusamosrosa.blogspot.com.br/)

Em Rostinho Bonito conhecemos Hayley, uma garota que mora em Los Angeles, onde todo mundo é magro, bonito e bronzeado. Acontece que Hayley detesta tomar sol e está acima do peso, o que a incomoda profundamente. Pra ajudar, a própria mãe é obcecada por perda de peso e faz de tudo pra filha emagrecer. Além de tudo isso, ela está apaixonada por um garoto que só a vê como amiga. Vendo o quanto a filha fica mais e mais infeliz a cada dia que passa, os pais decidem mandá-la para a Itália, para passar o verão na casa de uma antiga amiga da mãe, numa cidade chamada Assisi (Assis em português). E é então que a aventura começa.

Assisi é uma cidade completamente vertical. Morros, escadas, montanhas e tudo mais que aponte para cima. É também a cidade onde nasceu São Francisco de Assis e, portanto, é cheia de prédios históricos, igrejas, piazzas e afins. Diria até que Assisi é tão personagem da história quanto Hayley, Lorenzo, Gianna e qualquer outro. Esse não é o lugar ideal para alguém tão sedentária quanto Hayley, mas ela aproveita essa oportunidade para vencer a si própria. A cada dia, Hayley sobe a cidade um pouco mais. A cada dia ela se supera. E a cada dia é recompensada pela beleza italiana: tanto natural quanto cultural.

Ao mesmo tempo, ainda que a princípio sem perceber, a cultura Italiana vai se impregnando na vida de Hayley e vai operando uma transformação que começa de dentro, mas logo se faz notar no exterior também. O ponto de vista dos italianos é tão diferente do dela, que a faz questionar seus hábitos, atitudes e tudo mais. A Itália que Hayley vê é tão acolhedora que pela primeira vez em muito tempo ela consegue ver a si própria por outros olhos. Olhos italianos. Hayley aprende a saborear a vida, e não devorar tudo em um piscar de olhos sem nem sentir o gosto (como costumava fazer).

Faz três anos que eu li esse livro pela primeira vez. Sempre tenho medo de reler livros queridos por receio de que eles acabem não sendo tão bons quanto eu me lembrava. Mas esse não foi o caso. Nos idos de 2012, ele significou o mundo pra mim. Hoje, ao relê-lo, percebo que significa mais ainda. Rostinho Bonito é o tipo de livro que eu gostaria que todo mundo lesse. Ele vai te levar por uma viagem incrível pela Itália, por suas ruínas e seus sabores. Mas principalmente, ele vai te levar numa viagem por si mesmo e eu posso garantir: vai ser uma das mais bonitas que você já ter.

Londres: Neverwhere, Neil Gaiman (por Ana Levisky)

Em “Neverwhere” acompanhamos a vida ordinária de Richard Mayhew, um jovem escocês recém-chegado a Londres. Com o futuro planejado, Richard tem um emprego promissor em um escritório, mora em um apartamento aconchegante e está noivo de uma mulher atraente e bem-sucedida. Mas tudo vira de cabeça para baixo quando o rapaz se depara com uma garota ferida na rua e resolve ajudá-la. Esse ato de bondade o aprisiona em uma realidade paralela dentro da cidade de Londres. Chamado de “London Below”, esse mundo perigoso e cheio de mistérios existe no subterrâneo da cidade e está diretamente conectado com as estações de metrô. É como se ele estivesse lá o tempo todo, mas só algumas pessoas pudessem percebê-lo. Apenas aqueles que caem pelas rachaduras da realidade de Londres vão parar ali, e o problema é que uma vez lá, fica impossível viver novamente na tão desejada “London Above”. Quem faz parte do mundo underground pode transitar pelas ruas da cidade, mas existe como se fosse invisível. Richard volta ao escritório para encontrar sua mesa sendo removida, seu apartamento é alugado para desconhecidos e sua noiva nem ao menos o reconhece. Em meio a ameaças constantes e desafios antes inimagináveis em sua vida comum e estável, Richard faz amizades e passa por experiências aterrorizantes e transformadoras.

Esse romance, o primeiro publicado por Neil Gaiman em autoria plena (sem colaborações), é baseado na série de televisão de mesmo nome também escrita por ele, mas menos bem recebida. Como de costume, o autor explora o gênero fantástico sem deixar a realidade de lado. Essa fantasia urbana constrói a noção de que a magia, a aventura e o encantamento nos envolvem o tempo todo, mas em camadas imperceptíveis para a maioria. Nunca fui para Londres, mas sempre tive muita vontade. Esse livro me apresentou uma nova perspectiva da cidade de uma maneira que nenhuma referência anterior havia feito. Minhas expectativas não se resumem mais a ver um Guarda Real com aqueles chapéus excêntricos, atravessar a faixa da Abbey Road ou visitar a King’s Cross Station. A plataforma 9 3/4 não vai estar lá, mas uma estação de metrô sempre poderá te levar a lugares inesperados.

Rússia: Deathless, Catherynne M. Valente (por Bárbara Regina)

“In a city by the sea which was once called St. Petersburg, then Petrograd, then Leningrad, then, much later, St. Petersburg again, there stood a long, thin house on a long, thin street. By a long, thin window, a child in a pale blue dress and pale green slippers waited for a bird to marry her.”

Catherynne M. Valente mistura o real e o fictício em Deathless. Contando a história de Marya Morevna, uma personagem importante do folclore eslavo, por uma ótica totalmente nova, conhecemos a vida de uma garota que, desde muito cedo, teve que lidar com um segredo que apenas ela guardaria: ela conhecia a magia.

Lá fora, a Russia de 1950 cai. Junto com o crescimento de Marya, observamos lentamente uma cidade se destruir com a gravidade da guerra e da fome, enquanto sua pequena casa se lota de famílias desabrigadas. Marya guarda seu segredo até descobrir, com a presença de inúmeras criaturas dos contos de fadas eslavos, que está predestinada a Koschei, the Deathless, o sem-morte, de quem leu a respeito em inúmeros contos e poemas quando criança.

“Just you wait. Papa Koschei is coming, coming, coming, over the hills on his red horse and he’s got bells on his boots and a ring in his poket and he knows your name, Marya Morevna.”

Junto com Marya, conhecemos o mundo de Koschei e a verdade sobre a guerra, vemos amizades serem construídas e destruídas, observamos a história se repetir, como sempre se repete uma vez que é contada, enquanto Marya se divide entre o que se tornou e o que poderia ter sido: uma garota que não conheceu a magia, que não viu pássaros se transformando em homens, que não perdeu amigos para uma guerra. Em sua tentativa de ser a garota comum que acredita ter sido negada de ser, encontra uma cidade em ruínas, sua casa abandonada e a mais devastadora fome, como um paralelo para seu eu: quem seria ela se nunca tivesse visto o mundo como ele realmente é?

A narrativa de Catherynne sufoca e prende como um conto de fadas sem fim e sem começo — uma história que nunca para de acontecer. Com uma pesquisa aqui e ali, a leitura fica mais fácil de compreender, já que as referências aos contos eslavos e a guerra russa transbordam das páginas. Existem momentos na história onde é fácil encontrar-se encarando o nada, tamanha beleza da escrita. Você se sente como Marya, sendo levada para um mundo que um dia já acreditamos que existia, conhecendo o amor e a perda pela primeira vez e, mesmo assim, sempre continuando.

“You will live as you live in any world…With difficulty, and grief.”

São Paulo: Quadras Paulistanas, Fabrício Corsaletti (por Dora Leroy)

Eu amo ler livros que tem como cenário um lugar que eu já tenha conhecido pessoalmente. Quando surgiu a oportunidade de falar de algum livro que se passasse em algum lugar do mundo, tinha certeza que ia falar de uma cidade bem pertinho de mim, minha querida São Paulo.

Escolhi, então, falar de “Quadras Paulistanas”, um livro de poesia do escritor brasileiro Fabrício Corsaletti. O livro lançado ano passado pela Companhia das Letras é uma compilação de poemas escritos pelo autor que saiam quinzenalmente na revista de domingo do jornal paulista Folha de São Paulo. Fabrício diz que seus poemas são, na verdade, crônicas em formato lírico. E são mesmo! Em cada conjunto de quadras, nós acompanhamos o autor pelas ruas de São Paulo; ele registra o cotidiano, o movimento da cidade, olha para os pequenos detalhes que muitas vezes não reconhecemos na pressa do dia-a-dia.

Cada poeminha é compostos por diversas estrofes de quatro versos cada; é aí que nasce o trocadilho divertido entre a “quadra”, referente aos quarteirões de rua, e a “quadra”, um formato clássico de estrofe. O livro não conta uma daquelas histórias complexas, mas em cada estrofe vemos um pouquinho de nós mesmos. Os personagens das historinhas de cada poema somos nós e a cidade.

Se é um livro só para paulistas? Eu não sei. Minha opinião é duvidosa. Mas como paulista, posso dizer que é uma fotografia bem coerente de alguns bairros de São Paulo. Então, para acabar, deixo aqui uma quadra do livro!

“As águas do Rio Pinheiros
as águas do Tietê
se encontram mas não se tocam
são como eu e você”

 

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