Livre de amarras


Texto: Isadora Boaventura // Arte: Marília Pagotto

Quando nasceu, tinha pouco cabelo. Na verdade, “pouco cabelo” é eufemismo. Os fios eram ralinhos, escassos e concentravam-se todos no topo da cabeça. Os cachos embaraçavam fácil e era impossível distinguir cada um deles. Ficavam todos junto em um bolinho. “Parece o cebolinha”, diziam alguns. “Vai ser careca para sempre”, afirmavam tantos outros. Uma triste sina para um bebê.
Mas, um dia, o jogo virou. Por ironia do destino, os cachos cresceram.

Levaram a sério a decisão de tomar conta de todo o couro cabeludo e desceram pelas costas em forma de cascata. Era cabelo que não acabavam mais, um deus nos acuda para domar o volume, eram quatro mãos para pentear aquela cabeleira. A rotina ficou difícil porque saía para brincar, correr, pular e, na volta, um sofrimento para desfazer cada nó.

Doía que era uma desgraçada, um sofrimento. Espicha para lá, puxa para cá. Te digo, chega partia o coração ver a cena. Tomaram uma providência: na hora de dormir, faziam tranças para facilitar na hora do manuseio . Acorda, penteia, trança. Chegou em casa? Banha, trança, dorme. Sempre na tentativa de embaraçar o menos possível. Mas, o que é impraticável. Não é da natureza do cabelo cacheado ser estático. Ele pede movimento!

Agora, todos dizem que as crianças têm manias engraçadas, cada uma com a sua. Esse é o barato da infância! Todo dia é uma descoberta nova, um comentário diferente. Elas possuem a sua própria ótica inocente do mundo que, pouco a pouco, aprendem a lidar. A questão é que a sua mania era dormir amassando os cachos. Só adormecia sentindo as voltas que o seu cabelo dava.
Tranças causaram um reboliço porque não dormia.

Por conta disso, não tinha ânimo na escola, chorava. Foram anos assim, não tinha jeito. Todos em sua casa eram lisos, ninguém sabia exatamente o que fazer. “Cadê as pessoas como eu?”, perguntava-se todas as vezes que via um outdoor na rua ou quando assistia televisão. Nenhuma professora, nenhum coleguinha. Ao crescer mais um pouco, aprendeu a ler e começou a colecionar revistas como passatempo. Pena que não conseguiu encontrar ninguém com cabelo cacheado nas tantas páginas que folheou.

Parece familiar?

As chances de você ter tido uma infância parecida com a do relato acima são bem altas. Gritam aos quatro ventos que o Brasil é o país da diversidade, enquanto pouco fazem para valorizar, de fato, a nossa mistura de povos. São muitas perguntas sem respostas e ao não se enquadrar no estereótipo do belo, incontáveis crianças pelo país afora crescem sem criar identificação com nada. E não é porque elas são feias, pelo contrário. É a sociedade que é preconceituosa mesmo.

Por favor, uma infância mais livre de amarras. Elas só querem brincar

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  • Marianne Martins Coelho

    Cabelos cacheados não se rendem, ao contrário, são poderosos. São trabalhosos porque são cheios de si. E quem é cheio de si transborda, ultrapassa, e incomoda também!