‘Livre’, Cheryl Strayed


Eu sabia que se permitisse que o medo me dominasse, minha jornada estaria acabada. O medo em grande parte nasce de uma história que contamos a nós mesmos, então decidi contar para mim uma história diferente daquela que as mulheres ouvem. Decidi que estava segura. Que eu era forte. Que eu era corajosa. Que nada podia me derrotar. Insistir nessa história era uma espécie de controle mental, mas na maior parte das vezes funcionava. Toda vez que eu ouvia um som de origem desconhecida ou sentia alguma coisa horrível aderindo à minha mente, eu os afastava. Eu simplesmente não me permitia sentir medo. O medo gera medo. A força gera força. Eu me obriguei a gerar força.

Nós livre_capacertamente deixamos de fazer muita coisa porque temos medo. Estar em meio à natureza ainda inexplorada pela humanidade, com a promessa de encontrar força e, em alguma medida, iluminação, sempre me pareceu uma ideia muito atraente. Que belas imagens essas jornadas geram. Que belos relatos. Mas uma ideia atraente nem sempre quer dizer uma ideia que a gente resolve levar adiante. Afinal, no meio do caminho tem o medo.

Vencemos o medo quando existe algo maior para dominá-lo, eu acho, e esse foi o caso de Cheryl Strayed. Depois de perder a mãe subitamente aos vinte e dois anos, Cheryl entrou numa espiral descendente que a arrastava e a deixava cada vez mais distante da pessoa que ela costumava ser. Cheryl passou a trair o marido, que fica claro em sua narrativa que ela amava, sistematicamente. Ela viu a família se desintegrar apesar de qualquer esforço que fizesse. Passou a usar heroína. Afastou toda sua vida de si mesma e já não sabia mais o que estava fazendo quando encontrou um guia da Pacific Crest Trail, uma trilha que atravessa o oeste dos Estados Unidos, da fronteira com o México até a do Canadá. Espontaneamente – e provavelmente de maneira não muito inteligente – ela decidiu que precisava fazer isso. Precisava cobrir um trecho daquela trilha completamente sozinha. E foi isso que ela fez. Quase vinte anos depois (os fatos narrados se passam lá nos anos 1990), Cheryl Strayed transformou suas memórias em um livro – bem incrível, devo acrescentar.

Cheryl leu muito ao longo de sua jornada, estudou literatura, é uma escritora, e tudo isso fica óbvio na narrativa dela: ela sabe contar uma história e sabe lidar com as palavras. Livre não é um livro de ficção, mas é envolvente como se fosse um livro de aventura, ao mesmo tempo em que é uma narrativa muito sincera sobre tudo o que sua autora sentia. Chorei, e muito, com o primeiro capítulo, quando ela fala sobre a mãe. Fiquei apreensiva quando Cheryl narrava sua própria apreensão diante dos animais selvagens e, principalmente, diante dos homens desconhecidos com quem ela topava ao longo da trilha. A autora é sincera quando fala sobre sua solidão, sobre querer um companheiro, qualquer um, para passar a noite. Ou quando fala sobre os momentos em que sentiu ódio das pessoas mais queridas a ela, até mesmo da mãe. Sobre quando foi cruel e imatura. Quando fala sobre as traições. Fiquei com a impressão de que ela não se esforça para se apresentar como uma personagem simpática, ela se esforça para ser entendida – e acho que funcionou.

Apesar de o primeiro capítulo ser extremamente forte e comovente, depois disso demorou um pouco para que eu acreditasse que Cheryl Strayed tinha uma história suficientemente boa para contar – por que outro motivo alguém escreveria um livro de memórias? A vida dela antes da trilha nem sempre era exatamente interessante (e por vezes era simplesmente frustrante), mas essa parte da narrativa é necessária, porque é o que explica a importância que a PCT teve para Cheryl – ainda que ela tenha entrado nessa jornada completamente despreparada, da maneira impensada e impulsiva com que parecia tomar a maioria das decisões naquela época. O livro vai e volta, associando os momentos passados na trilha aos momentos anteriores que de alguma maneira levaram Cheryl até lá, e é isso que o deixa bem mais significativo do que teria sido se fosse composto apenas por aquela aventura envolvente que ela viveu em 1995.

Conforme a leitura progredia, fui cada vez mais cativada pela história de Cheryl e por seu jeito de narrar. Todas as provações pelas quais ela passou garantiram o direito de descrever cada um dos momentos de iluminação que o livro traz. Nenhum parece estar ali de graça,  e eles nunca soam superficiais ou falsos. Certas dores diminuem, mas jamais desaparecem, assim como os medos não vão embora espontaneamente, mas Livre mostra como encarar as duas coisas pode ser recompensador. Como diz o poema, the best way out is always through.

Eu estava perplexa ao perceber que tudo de que precisava para sobreviver podia ser carregado nas minhas costas. E, o mais surpreendente de tudo, que eu podia carregar. Que eu podia suportar o insuportável.

Nota: porque li Livre no original, as traduções das duas citações presentes aqui são minhas.

Compartilhe:

fernanda.menegotto@gmail.com'

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.