Literatura Brasileira do Século 21


Quando as meninas da Pólen anunciaram que nosso tema do mês seria literatura nacional, fiquei animadíssima. Como escritora, sempre que surge a oportunidade de puxar a sardinha pro lado da nossa literatura, eu o faço. Pensei em talvez usar esse momento até como um pouquinho de promoção pessoal, que nunca é demais. Depois, pensei melhor e percebi que eu poderia fazer mais e falar da categoria como um todo. Aí, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa.

Durante alguns dias, pedi ajuda a todos os meus amigos escritores para que participassem de uma pesquisa que montei pra tentar identificar o “perfil” do escritor brasileiro do século 21. Afinal, mesmo em tempos de Paula Pimenta e Eduardo Spohr, a literatura nacional ainda é mais reconhecida pelo que ela foi do que pelas pessoas que lutam pelo que ela está se tornando. Há muito tempo deixamos de ser Machados, Clarices e Alencares e nos tornamos Márcias, Bárbaras, Raphaéis, Larissas. E ainda que eu, como escritora, conheça um monte de gente, ainda não posso determinar exatamente qual é a cara desse autor que está por aí, daí a ideia da pesquisa. Mais de 100 pessoas participaram com suas respostas, e agora vou analisar (creio eu que com parcialidade demais, afinal, estou mesmo atrelada às minhas opiniões) os dados que recebi.

O novo autor brasileiro é jovem: mais de 80% dos pesquisados tem menos de 35 anos. Isso nos dá margem pra conjecturar um pouquinho; significa que não apenas os jovens estão começando a escrever mais cedo, como tem as ferramentas para tornar a publicação mais acessível apesar da idade e da inexperiência. Além disso, é um sintoma também do crescente público alvo; apesar de não ser necessariamente uma regra, jovens escrevem para jovens. Isso vai, aos poucos, ajudando a gerar novos leitores, novos autores, e assim por diante.

O pólo Rio-SP ainda concentra boa parte da literatura: dos pesquisados, mais de 70% diz residir na região Sudeste. O que eu já vinha observando de uns tempos pra cá, vendo um fluxo grande de autores se mudando pras regiões de São Paulo e Rio, é também um indicativo um tanto triste; significa que muito provavelmente a literatura seja mais acessível e mais estimulada dentro deste único eixo, e que por falta de estímulo, bons autores e boas histórias de outros lugares do Brasil acabam se perdendo. Também significa muito em termos de representatividade, pois, se estamos em nossa maioria concentrados nas grandes centrais metropolitanas Brasileiras, quem está contando as histórias daquelas áreas menos conhecidas, porém ainda super interessantes do nosso país?

Acredito que o mercado editorial nacional cresceu muito de uns anos para cá, principalmente porque aos poucos estamos vencendo o preconceito dos leitores com livros nacionais e ganhando mais espaço em divulgação por causa das redes sociais, porém ainda temos um longo caminho pela frente, principalmente se tratando de valores para publicação e investimento das editoras.
– Vanessa Sueroz

Nós não estamos morrendo de fome – mas também não vivemos de escrita; dos cem pesquisados, só DUAS pessoas afirmaram que poderiam se sustentar tendo em base os lucros que recebem de seus direitos autorais. Menos de 40% dos autores que colaboraram com esse post afirmam que o lucro é rotativo – ou seja, é o suficiente para poder ajudar no sustento da profissão e investir em eventos, brindes, novas publicações. Mais da metade diz que ou não tem lucro nenhum, ou pior, está no prejuízo. É um indicativo tanto de que a vida como escritor é possível (afinal, se duas pessoas chegaram lá, a gente também consegue!) quanto de que aquela máxima que todos nós já ouvimos sobre morrermos de fome no futuro está infelizmente muito próxima da verdade. Pra não acabarem na sarjeta, a maior parte de nós dá duro em jornadas duplas ou triplas; mais de 85% dos pesquisados diz estudar e/ou ter um emprego. Ou seja, continua não estando fácil pra ninguém, mas com jeitinho a gente se arranja.

O autor tradicional não existe mais: Foi-se o tempo em que precisava ter um livro publicado e sair por uma bela editora pra se denominar autor. Segundo a pesquisa, 20% dos autores se consideram autores mesmo sem ter nada publicado. Além disso, a publicação tradicional – de ter uma editora custeando todos os gastos da edição – já não é mais a única opção. Mais da metade dos pesquisados é autor independente (ou seja, pagou pela publicação de seus escritos), e destes, quase 90% investiu em publicação digital, tanto em conjunto com a física quanto dando exclusividade para o formato. É sinal de que a publicação se tornou mais acessível e democrática, especialmente em tempos de Amazon; hoje, basta ter um computador e acesso a internet pra publicar seu e-book de graça pela gigante livreira, e ainda receber 70% dos royalties das vendas. Um dos pesquisados (infelizmente anônimo) escreveu: “Tenho dois livros publicado.
Um através de editora e outro de forma independente, e é com esse segundo que tenho maior retorno. Mas 99% das minhas vendas baseiam-se em ebooks, através da Amazon.” Depois do advento da publicação digital, só não publica quem não quer.

Acredito que os pontos mais importantes para um autor que escreve para o público jovem é o conjunto de boa divulgação e uma boa presença em redes sociais, além da paciência. A sua base de leitores é construída com o tempo, com trabalhinho de formiguinha, e por isso esse contato é muito importante para construí-la. Nesse sentido, plataformas como o Wattpad são interessantíssimas por formar uma base de leitores que pode te seguir caso você acabe sendo publicado de forma tradicional ou resolve publicar de maneira independente.
Também é muito importante ter um timing e um entendimento do mercado, mesmo que você lance de forma independente. Se há uma saturação de histórias de um tipo e os leitores estão partindo para a outra, as chances de você conseguir vender seus livros são bem pequenas, porque as pessoas vão embora só de ver que é mais-um-livro-de-vampiros. Sempre há um público interessado nesses assuntos, é óbvio, mas é necessário entender esses mecanismos.

– Bárbara Morais

Criar público é mais importante que fazer dinheiro: mais de 70% dos pesquisados afirmou já ter disponibilizado trabalhos gratuitamente através de algum site. O Wattpad continua sendo a plataforma preferida da galera, correspondendo a mais de 80% das publicações gratuitas. Isso mostra que os autores dessa geração sabem usar (e muito bem) a tecnologia a seu favor, encontrando o jeito perfeito de criar público e chamar atenção pro seu próprio trabalho. Inúmeros autores começam crescendo primeiro através destas plataformas para só depois, com público já engajado e formado, investir numa publicação ou correr atrás de uma editora. Mais e mais, estamos descobrindo que quantidade (e qualidade) de leitores é mais importante que a quantidade de dinheiro que vamos ganhar com isso.

Os novos autores estão antenados: Se chegamos à era da publicação digital, então já passou da hora do autor deixar de ser aquela figura reclusa que não fala com ninguém, né? A interação com os leitores nesse século vai muito além de eventos presenciais e tardes de autógrafo, e se tornou uma questão básica de sobrevivência se fazer presente na internet. Mais de 65% dos autores pesquisados estão em três ou mais redes sociais, relacionadas direta ou indiretamente à literatura. Twitter, Facebook, Instagram, canais no Youtube – vale tudo pra chegar ao leitor e manter-se em contato com ele. Sabendo usar, todas essas ferramentas só ajudam a crescer. Essa proximidade cria um diferencial pra literatura brasileira, já que os leitores tem muito mais chance de chegar perto (na vida real ou virtualmente) de uma Carolina Munhóz do que teriam de uma J.K.Rowling. Quando os autores dizem que estão se ligando nessas ferramentas, eles dizem também que os leitores são bem-vindos a participarem de seu dia a dia; tornamo-nos inclusivos, ao invés da clássica figura do autor recluso num quarto escuro.

Apesar de conhecer alguns, ainda há uma carência de cursos voltados para literatura comercial, que ajudariam os autores a profissionalizarem-se. E isso possibilitaria a atuarem no mercado com uma visão mais empreendedora e autossustentável. Uma dificuldade minha e, acredito que de muitos, é a de conciliar melhor tanto o lado de criador como o de vendedor. Gostamos de produzir, porém também temos que vender. Pois, mesmo tendo escrito o melhor livro do mundo, vender bem o peixe é o que, no final, garantirá o sucesso de cada autor.

Anderson Vitorello

Não basta escrever bem: a maioria dos pesquisados acredita que “um livro bem escrito” é apenas um dos fatores que influenciam no sucesso de um autor. Pra quase todos, o conjunto gráfico, a editora e o bom trabalho de divulgação também colaboram (e muito) com o resultado final. Mais que isso, quase 30% dos pesquisados acredita que também é fundamental que o autor seja presente – na internet, em eventos, ou simplesmente conhecendo outros profissionais. Isso significa que o que antigamente era considerado o trabalho exclusivo da editora, se tornou para muitos uma obrigação do autor. Marketing pessoal é imprescindível, e pode ser a diferença entre ter um bom livro lido ou esquecido pelo público. Isso nos mostra que o autor de hoje é multifacetado, e acaba se especializando em não somente uma, mas em várias áreas dentro da cadeia que compõe o livro. Não adianta saber escrever e não saber vender.

Não sei se consigo tirar uma conclusão concreta pra traçar o perfil mediano do autor nacional, mesmo depois da pesquisa. Parece que tanta gente participou, mas todos os dias surgem novos autores, e há ainda outras centenas de que nunca ouvimos falar – como posso ser justa com todos? Mas acredito que, depois de tudo isso, uma coisa ficou certa: não se faz mais literatura no Brasil (e, sejamos honestos, nem em nenhum lugar no mundo) como se fazia antigamente. É preciso fazer mais, saber mais, ir mais longe, inovar, e não apenas na escrita. E os autores que descobrem esse quê que nos separa do sucesso são os que “chegam lá”. Mas mais do que isso, dá pra ver que a escrita é, pra todos, não apenas uma questão de profissão, mas de sonho – e embora o mercado seja difícil e exija muito de todos nós, mais de 30% já está nessa luta há mais de 3 anos. Se isso não é amor, não sei mais o que é.

Deixo aqui meu agradecimento imenso e sincero em nome de toda a Pólen a todos os autores, anônimos ou não, que nos ajudaram a fazer este post. E a você, leitor, razão pela qual isso tudo é possível  fica o convite: você já conhece a nova literatura brasileira? Dê uma chance. Você pode se surpreender.

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  • Vanessa Sueroz

    Parabéns pela matérias Larissa.
    Ficou muito boa. Infelizmente o autor hoje não tem um perfil definido, mas somos pobres de natureza rsrsrsrs

    Adorei!
    Ficou muito legal!