Literalismo ou Jornatura? O mundo dos livros-reportagem


A maioria dos jornalistas que eu conheço diz que resolveu seguir a profissão porque gostava de escrever. Ou ainda: de contar histórias. Isso tem tudo a ver com memória. Escrever é querer registrar, seja o que for. Contar uma história, escrita ou não, é a forma que inventamos para que fatos não sejam esquecidos .

Aí o vestibulando vai lá, todo animado querendo escrever, querendo contar, e cai de paraquedas numa aula de jornal diário. Quem, quando, como, onde e fim. Sei bem qual é a sensação que passa pela cabeça: isso não é escrita, é fórmula. Aí no jornalismo de revista já  dá pra pirar um pouco mais (olha eu aqui contando história pra vocês ao invés de ir direto ao ponto, por exemplo), mas nada, nada supera o jornalismo literário e seus brilhantes livros-reportagem.

Livro-reportagem é o canto seguro onde o jornalista pode contar uma história que não cabe em nenhuma outra mídia. Não vai ter limite de caracteres, muito menos perguntas chave pré-estabelecidas. São o jornalismo e a literatura, essas duas maravilhas, juntos num produto só. Uma ótima forma de preservar a memória de algo que não tem como ser contado em 15 linhas.

O mais famoso exemplo do gênero é A Sangue Frio, de Trumann Capote. Confesso pra vocês que não gosto de cagação de regra de professor universitário, mas ó, não dá pra sair da faculdade sem ler esse livro. Em quase 500 páginas, Trumann conta em detalhes a história da família que foi assassinada por dois assaltantes no Kansas, EUA. Na época devem ter saído milhões de notinhas, chamadas, reportagens extensas, mas nada nunca vai se comparar ao livro, onde Trumann joga com pontos de vistas de todos os envolvidos e te deixa de queixo caído com tamanha riqueza narrativa. É jornalismo, é literatura, é memória.

Uma outra dica interessante com um formato bem diferente é o Conte sua História de São Paulo, que se assemelha até a um livro de crônicas. Nele, Milton Jung reúne depoimentos “apaixonados ou nem tanto” de pessoas que tem relações diferentes com a cidade. Dá pra emocionar qualquer paulista – e até atiçar uns cariocas.

Em O Livro Amarelo do Terminal, Vanessa Bárbara fez uma coletânea de histórias nascidas na Rodoviária do Tietê, em São Paulo. Ali passam os mais variados tipos de gente, com os mais variados relatos para narrar, e a jornalista condensou tudo isso da melhor forma possível – não à toa, seu livro foi feito como trabalho de conclusão de curso e publicado pela Cosac Naify.

Agora vou puxar a brasa para o meu lado rapidinho, mas tem boa intenção, tá? Inventei de fazer um livro reportagem no meu TCC também – afinal de contas, fui um desses estudantes esperançosos que entrou na faculdade porque gostava de escrever. Com mais 4 meninas igualmente malucas e animadas escrevi Contando os Dias – Relatos de Mulheres que vivem atrás das grades, distantes de seus filhos. Um tema no qual eu nunca tinha pensado na vida, mas que depois da sugestão da orientadora pareceu simplesmente impossível de ser trocado: aquelas mulheres precisavam falar e olha que curiosidade, nós queríamos ouvir.

Jornalismo é memória. Literatura é doce em boca de criança. Jornalismo reportagem é o suprassumo da memória estendida. Sou fã confessa do gênero e espero que todo mundo resolva se aventurar. Falando nisso, alguém tem uma dica? Conte aí nos comentários!

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

  • Alessandra Rocha

    Uma pena eu não estar mais na saraiva quando seu livro chegou por lá Aninha, senão super teria pegado pra ler! Ainda quero, porém quando eu tava lá era mais fácil né? hahahahaha No meu desafio literário desse ano tem que ter um livro de não ficção e você acabou me dando dicas ótimas! Agradeço desde já hehe

    beijos!