Lista nº mil


em maio comprar

remédios para alergia comprar

protetor solar

porque maio já é frio mas tem sol – como sempre –

e o sol como sempre mesmo em maio multiplica

as sardas as rugas

(porque não usei protetor solar no verão e quem sabe em maio

eu consiga recuperar

a pele dos vinte e três)

sprays para o nariz eu sempre me esqueço os nomes

são importantes porque maio já é frio a poeira já invade

toma todo o sistema respiratório com seus ácaros de outono

revivendo esta eterna sinusite rinite

que só se manifesta a partir de maio

em maio talvez

visitarei as escadas coloridas doídas da cidade onde várias vezes nasci

inclusive a primeira

sentirei saudades tristeza melancolia

lamentarei o sono o suor a sede

molharei a bochecha direita a bordo de um avião

e os pés, os dois,

na beira do mesmo oceano atlântico azul

e de novo voltarei

e de novo será tarde

em maio quem sabe te esquecerei completamente

te apagar com uma borracha faber castell capa verde

enquanto as meninas me fazem rir e me desprender de todas

as listas

nulas de obrigações que se perdem voam ventam sob meu corpo que habita

retilíneo a janela da sala em maio

será meu primeiro mês de maio vivendo neste apartamento quem sabe o último quem sabe em maio eu aprenda

a amar de novo

depois de uma noite de sono longa e leve

no amanhecer de uma tarde curta e fria

mas por hora,

ainda o retrato oco dos seus dentes e da mata atlântica por trás,

infinito plano de fundo.

sua boca gigante ecoando a mesma pergunta de quase anos atrás:

— onde será que estaremos em abril?

eu, aqui. bem aqui.

planejando sobre maio.

você?

e você?

longe.

não consigo lembrar em exatidão

a data precisa da quebra

talvez ela simplesmente permaneça

contínua ainda existindo

em rec memória monocromática em ritmo acelerado que já não consigo alcançar corre cada vez mais difusa

você seu filme todo seu cheiro todo sua convulsão noturna suas manias duras e a minha mágoa num rio onde sempre se alcança o outro lado se chega sempre na outra borda e foi ali onde você afundou o caiaque

eu fiquei com os pés sangrando a te esperar na outra margem

ali arquitetado chuvoso templo da espera em silêncio em vão

era quando o passear dos ponteiros mais se parecia com uma facada

rasgando o peito

mas agora

há tempos não me lembro da cicatriz

mas agora

já é quase maio

e o nosso tempo acabou

Sobre a autora: Roberta Santiago tem 24 anos, nasceu no Rio de Janeiro. Mora atualmente em Porto Alegre, RS. Escreve poesias desde os 13 anos de idade. Seu primeiro livro, “Anotações sobre o tempo e as cidades”, foi publicado em 2014. Tem poemas publicados pela Alpaca Editora e pela Revista Subversa, luso-brasileira. Você pode encontrá-la no tumblr.

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