“Linha M”, Patti Smith


linha m_capa inteiraQuando li o primeiro livro de memórias de Patti Smith, escritora, poeta, cantora, pintora – enfim, artista -, Só Garotos (que ganhou uma bela resenha aqui na Pólen), foram principalmente duas coisas que me chamaram a atenção. A primeira foi  a prosa. Patti Smith não é direta, ela acha a maneira mais bonita, ou diferente, ou poética, de dizer alguma coisa. A segunda tem muito a ver com isso, mas também muito a ver com cada pequena (e grande) memória que ela compartilha no livro: Patti é uma artista e completamente apaixonada pela arte, seja por admirá-la, seja por criá-la. Ela é alguém que precisa criar.

Em seu novo memoir, publicado no ano passado lá fora e no último mês de março por aqui, Linha M, tudo isso também transparece, assim como sua profunda sensibilidade. Mas é um livro muito diferente do primeiro. Enquanto Só Garotos é sobre sua vida principalmente entra as décadas de sessenta de setenta e essencialmente sobre não só ela, mas ela-e-Robert-Mapplethorpe, juntos (como um casal, como melhores amigos, como parceiros de vida), o novo livro é sobre ela. Ela, sozinha. É um livro cheio de momentos muito solitários. Patti vai de um lugar a outro, topa com várias pessoas, convive e conversa com elas, mas, no final do dia, está sozinha. E isso não é necessariamente triste, embora às vezes também seja, mas um fato da vida. Porque a vida às vezes é triste.

O livro começa com as palavras “não é tão fácil escrever sobre nada”, ditas por um vaqueiro num sonho (!), ao que Patti retruca que é, sim. E, de certa forma, é isso que as próximas duzentas páginas do livro provam. Ele não tem exatamente um tema central ou um foco totalmente definido, não é sobre Grandes Acontecimentos, não é sobre uma época, não é sobre um relacionamento – é sobre… Bem, nada. Exceto que é sobre a vida, e a vida nunca é nada. Especialmente para quem é um artista, como Patti Smith é. Ela transforma o nada em algo e, além disso, algo belo. Ela pode retrucar que é fácil escrever sobre nada, apesar de ao longo do livro às vezes brigar com o processo de escrita, porque ela claramente consegue.

A narrativa, se é que podemos chamar assim, vai e volta no espaço, no tempo e nos sonhos. Patti se desloca pela cidade de Nova York, pega aviões para a Europa, pega trens. Enquanto isso, assiste a dezenas de séries de detetive em casa, no avião, no quarto do hotel – e pensa muito sobre elas. Conversa com os móveis. Brinca com os gatos. Faz shows, levanta dinheiro, dá palestras. E, a partir do presente, revisita o passado. Rememora viagens feitas com o marido, viagens feitas sozinha, diálogos com os pais, momentos em família. Ela relembra, especialmente, muitos momentos compartilhados com Fred Sonic Smith, o marido que perdeu na década de noventa. Sempre que Patti fala de Fred, é muito bonito. O amor transborda das páginas, e a saudade também. Aliás, o amor transborda das páginas, ponto final. Ao falar de seus livros preferidos, da casinha em péssimas condições pela qual se apaixona, de seu café do coração, de seus sonhos.

Patti Smith, ao longo das duzentas páginas de seu novo livro de memórias recheado não só de palavras, mas também de fotografias (quase todas tiradas por ela mesma), leva o leitor a transitar junto com ela por diversos espaços do mundo. As fotografias ajudam a ver o que ela viu, a entender a partir de onde reflete. Mas, acima de tudo, o livro te convida ao embarcar na tal “Linha M”, que te leva a um passeio pela própria mente de sua autora  – por seus pensamentos, sentimentos e sonhos (em vários sentidos da palavra). É a mente de uma artista, e não tem preço visitar esse espaço tão raro, tão criativo, tão incrível. Tão especial.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.