Lilo & Stitch e a eterna expansão do Amor


Texto: Diego Matioli

Amor não tem forma ou gênero, não tem título ou laço. Amor só existe. Eu cresci tendo um conceito extremamente flexível de família. Não são poucos os tios que na verdade eram amigos da família. Os melhores amigos dos meus pais eram meus pais também, e seus filhos são até hoje apresentados como meus irmãos de consideração. Minha mãe, como educadora, já colocou vários pupilos sob suas asas, a quem ela chama de filhos. Minha prima chama meu irmão de pai, então sou seu primo-tio, e sua mãe, a quem eu chamo de tia, na verdade é minha prima de primeiro grau, mãe da irmã do meu pai, que é vinte anos mais velha que ele – e que as vezes eu chamo de vó. Dá para ver por esses breves e confusos exemplos que nunca conseguimos nos apegar a ideia tradicional do que seria uma família. É tudo muito expansivo e mutável para além da família nuclear (aqueles seus parentes diretos, pai, mãe e irmãos).

Já ouviu aquela história de que a comunidade LGBT pode escolher sua própria família? Isso se estabeleceu a partir da ideia de que nós substituímos pais que não nos dão apoio por outras formas de suporte, mas essa realidade não é uma exclusividade da comunidade LGBT. Qualquer pessoa com um lar toxico pode optar por realocar seu ponto de equilíbrio. Eu vou ainda mais: acredito que, independente da nossa estrutura familiar, nosso ponto de equilíbrio está se transformando constantemente, e que nós estamos escolhendo nossa família todo o dia. Pensa no seguinte: em um sitcom familiar clássico, os atores principais normalmente são o protagonista, seus pais, irmãos e seus melhores amigos. As vezes até o professor! Essa é a sua família, e assim como tios se afastam e primos se mudam, seus amigos também podem te deixar e dar lugar a novos. Um tio distante ainda é seu tio e você ainda vai guardar um sentimento por ele, do mesmo jeito que seus amigos da adolescência ainda tem um lugarzinho no seu coração. O amor não se perde, ele se transforma, se aloca em outro lugar, se reinventa.

É por isso que eu tenho um carinho enorme por Lilo & Stitch, que é um filme que descreve isso com perfeição. Existem tantas formas de afeto sendo apresentadas nesse filme, tantos caminhos para o amor, e todos eles são enlaçados com a palavra Ohana. Família. Não abandonar ou esquecer. Tem o amor fraterno de Nani e Lilo uma pela outra; a memória delas pelos pais que se foram; o interesse romântico de David por Nani; a dedicação de Lilo ao Stitch; Jumba e Pleakley, que são obrigados a trabalhar juntos e tem de aprender a se respeitarem; o protecionismo de Cobra Bubbles pelo bem-estar das crianças, e então da terra inteira, e então da família que se cria no decorrer do longa-metragem. Isso é família! Família se forma por sangue, por puro acaso, por criação, por convivência, por persistência ou até por sorte, mas sempre através de amor. Afeto não precisa ser legitimado por nada ou ninguém. Ele simplesmente é. Ele existe, ele pulsa. A gente sente e expressa.

E, principalmente, família de verdade é aquela que te aceita como você é e te quer ver sempre melhor.

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Sobre Diego Matioli

Diego é uma pessoa extremamente passional que fala sobre o que sente e sente muitas coisas ao mesmo tempo. Ele também é escritor, professor e o que estiver dando vontade de ser no momento.... Disponível no twitter @Egotista e na Augusta aos sábados a noite.