Ler o que a gente quiser


Às quintas-feiras de manhã, eu sentava em uma sala por duas horas e ouvia a professora falar sobre literatura Armênia e como ninguém conhecia o país (isso foi antes da Kim Kardashian ir pra lá). Essa aula talvez tenha sido o ápice do underground universitário, mas ei, afinal de contas tem coisas bem interessantes na literatura armênia. Eu não entendia muito – e, ao contrários das outras dez pessoas na sala, não falo armênio nem nasci em uma família que veio de lá – mas a proposta era ler um livro que falava sobre as razões do genocídio que aconteceu no país, ainda meio esquecido pelos livros de história.

O semestre estava acabando, todos tinham feito seus seminários sobre a obra e a professora resolveu, coitad,a começar uma discussão com a sala toda. Sabe como toda sala tem aquela pessoa que quer chamar mais atençãlo que as outras? Essa tinha umas 8. Eu, como sempre, tentei disfarçar minha presença. Em vão, devo dizer. O problema de aulas hipsters na faculdade é que tem pouca gente e a professora vai te chamar pra fazer comentários.

Eu falei qualquer coisa sobre como foi interessante que o autor trouxe as questões sociais e étnicas do povo armênio para o livro e que isso – aliás, como a professora tinha falado – era importante na literatura. Abordar os assuntos difíceis na ficção ajuda a fazer com que as pessoas comecem a falar sobre isso fora dela. Esse comentário inocente, no entanto, causou uma comoção na sala. Começarama  falar sobre como esse tipo de coisa era panfletagem e não era literatura nem arte. Até que, algo que eu nunca esperaria de alguém que estuda Letras:

É que nem o Jorge Amado. O pessoal vangloria ele, mas na verdade aquilo não é arte. Capitães da Areia é pura panfletagem. É literatura de massa.

Sim. Preferências pessoais à parte, acho que a gente pode concordar que há uma enorme diferença entre Capitães da Areia e o papel que recebemaos na saída da faculdade sobre alguma eleição do DCE. Dito isso, o discurso de “literatura de verdade” já apareceu na minha vida em formas menos acadêmicas.

Era uma vez a época em que eu lia o que queria. Como uma criança que começou a ler bem cedo – eu tinha uma obsessão por entender os outdoors no caminho pro jardim de infância – e que teve o privilégio de crescer em uma casa cheia de livros, eu lia basicamente qualquer coisa. Começou, lógico, comigo lendo sozinha as histórias antes de dormir e quadrinhos da Turma da Mônica, mas aí logo veio Sítio do Picapau Amerelo, que troquei por Harry Potter aos oito anos, vieram os livros da Meg Cabot, veio minha obsessão por livros sobre crimes. Eu era a criança que no ensino fundamental queria tudo da biblioteca da escola, que amava a Coleção Vagalume, que foi uma das primeiras da turma a ler a Droga da Obediência. Vocês entenderam: eu lia o que me dava vontade.

Na adolescência, ao contrário, eu queria parecer legal. Ok, eu cresci com Harry Potter, então o último lançamento foi aos meus catorzeanos, mas em geral eu tentei por muito tempo esconder os YAs e os chick lits que lia e fingia que só gostava de “alta literatura”. Além de hoje eu achar que “alta literatura” é um conceito bem problemático, me parece, em retrospecto, um desperdício de tempo. É tão bom ler livros quea gente gosta, sejam eles de autores russos ou da Meg Cabot, conversar sobre eles, curtir a experiência.

Não sei o que foi que me fez perceber tudo isso. Provavelmente só crescer mesmo. Mas acho importante conversar sobre preconceitos literários. Já começa sendo uma questão de elitismo, tipo o que aconteceu na minha aula de literatura armênia. E muitas outras aulas de literatura que já frequentei, devo acrescentar. O que tem de errado em um livro que agrada o público? O conceito de “literatura de massa”, ainda mais colocado em oposição com obras vangloriadas nas universidades, de pouca difusão, parece criar uma barreira ainda maior entre os acadêmicos e os reles mortais.

Fora que, vamos refletir um pouco sobre como é chato querer policiar o que os outros estão lendo? Se a pessoa curte, qual é o problema? Algo me diz que as mesmas pessoas que reclamam de quem escolhe a próxima leitura na prateleira de best-sellers reclamam que as novas gerações não leem o suficiente. Enquanto isso, a gente continua lendo. O que a gente quiser, independente do que os outros achem.

Compartilhe:

Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • eu acho esse argumento super importante na discussão, Lara. em muitos casos, realmente, a qualidade literária é inquestionável – a gente pode maté não gostar da proposta ou do desenvolvimento do livro em um âmbito pessoal, mas geralmente dá pra perceber a importância – mas o questionamento de porque aquilo virou ‘alta literatura’ é legal também. talvez isso melhore com o tempo, mas tipo, é só a gente ver listas de clássicos e notar o quanto são brancas e masculinas. mesmo a Jane Austen, de todo seu privilégio (ou as irmãs Brontë), ainda é subjugada perante esses homens. Imagina então o que for mais diverso?

    Mas né, quando a pessoa acha que Jorge Amado não pdoe ser literatura porque é mainstream demais, acho que não há esperança pra alma leitora dela haha

    – Lore

  • Lara

    Eu já causei ~polêmica~ em grupos cults porque ousei falar a verdade: a “alta literatura” hoje, queremos nós aceitar isso ou não, é apenas uma apropriação do discurso vigente em determinada época, embalado e tido como “apto” para passar para a posteridade.
    A maior parte da “alta literatura” é branca, burguesa e masculina. Outros escritores, por mais geniais que sejam, ganham alcunhas como “contemporâneos” ou marginais”, que me enojam bastante. E as poucas mulheres? Jane Austen tem uma qualidade literária imensurável,mas quantas delas fora da gentry inglesa existiram com até mais talento e foram simplesmente esquecidas? Nunca saberemos, até porque não existe lá muito interesse em resgatar esse tipo de obras.
    O fenômeno Stoner, livro do Willam Black (livro que fala sobre a importância da literatura na vida das pessoas comuns, como o Stoner do título), por exemplo: publicado em 1965, ninguém dei atenção a ele porque era uma época de hippies, revoluções etc. Agora, é um queridinho porque é o discurso individualista de nossa época que o fortalece.
    Nabokov, também. Espinhento falar dele porque muitos o entendem quase como uma sanidade, mas será que, fosse só sua qualidade literária (que é indiscutível), se tal qualidade não estivesse alinhada ao status de fugitivo do comunismo, a obra dele seria tão importante para os EUA? Suspeito que não.