Ler é acreditar na ilusão


Texto: Renan Bittencourt

Eu trabalho em uma livraria, e quando se trabalha em uma livraria, indicar histórias é um momento especial e maravilhoso. Seu coração bate mais forte, e a língua fala sozinha para dizer quão incrível é aquele livro que, claro, mudou sua vida – na esperança de que ele continue sua missão com aquela pessoa. Lindo, né? Muito. Mas nem sempre funciona. Na verdade, existem livros que parecem destinados a causar desespero nas pessoas assim que você conta a história.

Um desses livros é A Metamorfose, do Franz Kafka – uma das minhas paixões. Uma história maravilhosa que fala sobre o dia especial em que o querido Gregor Samsa acorda transformado em um inseto monstruoso e leva sua família à ruína quando todo mundo tenta lidar com essa maluquice. Geralmente basta chegar na parte do inseto para que os sorrisos morram e os olhos se arregalem. Já era. Mas A Metamorfose faz uso muito interessante de um truque dramático que faz parte do nosso dia-a-dia: a suspensão da descrença.

Ela está nos livros, nas séries, nas músicas, e naquela história que você conta sempre que sai com os amigos. A suspensão da descrença é um dispositivo que desativa nossas defesas racionais de “isso não é real” sempre que nos deparamos com uma boa história. É ela que nos faz aceitar a existência de escolas de magia e bruxaria, e passagens para Nárnia. Aliás, ela nos faz aceitar Nárnia inteira.

Mas como nós vivemos em um mundo muito útil, prático, e produtivo, precisamos de utilidades para as coisas que existem – e para que pode servir uma coisa que nos faz acreditar nos delírios de outra pessoa? Perguntar isso é a mesma coisa que perguntar para que servem as histórias de um modo geral. Bem, aparentemente uma viagem para o país das maravilhas serve, no máximo, para passar o tempo. Mas – ainda bem – nada no universo da dramaturgia é aparente. Tudo são camadas. Uma historinha esconde sempre uma verdade grande demais, real demais, e próxima demais de nós para que consigamos lidar com tantos tapas na cara. É um processo que pode ser muito traumático; então a suspensão da descrença nos acalma dizendo que “calma, olha só, isso aconteceu sim, mas em uma fazenda de animais falantes”.

De mãos dadas com a empatia, a suspensão da descrença é o que faz a gente amar as histórias. Juntas as duas tem o poder de fazer com que acreditemos em pessoas que não existem, vivendo coisas que não aconteceram. E ainda por cima nos importamos com o bem-estar delas. Ler é acreditar em uma ilusão que espelha nossas vidas. E vou te dizer que o dia em que Gregor Samsa acordou transformado em um monstruoso inseto me foi mais real do que muitos expedientes vividos na livraria.

 

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Sobre Renan Bittencourt

Aos 23 anos Renan já quis ser tenista profissional, monge cantor, e ditador prafrentex - mas decidiu escrever. Roteirista formado em Cinema, psicografa os futuros que não couberam na realidade. É aquariano, carioca, livreiro, vítima constante de crises imaginárias, e confeiteiro amador. Amante secreto de polêmicas, sua frase preferida é "Eu concordo com você, mas...".