Lembrar, nunca esquecer: Anne Frank – A biografia ilustrada


No filme alemão A Onda, um professor de história irreverente busca uma maneira alternativa de explicar o surgimento e aceitação generalizada do nazismo na Alemanha, o que resulta num experimento que logo foge do seu controle e tem consequências devastadoras. Se a ideia de implantar dentro de uma sala de aula um microcosmo fictício  no qual os alunos experienciam em primeira mão como surgem e por que se alastram regimes autoritários soa perigosa desde o início, não é tão difícil entender a motivação do professor: a perspectiva de ouvir sobre nazismo de novo frustra seus alunos, e subentende-se que esse é assunto amplamente discutido nas escolas. O professor só quer fazer seu trabalho e encontrar uma forma de interessar seus alunos adolescentes no conteúdo do currículo escolar obrigatório; os alunos, por sua vez, parecem não querer mais conversar sobre um tema tantas vezes abordado e que já parecia tão distante.

Ainda que a Segunda Guerra e o nazifascismo sejam constantemente abordados, discutidos e transformados em histórias que consumimos anos após ano, no entanto, em pleno ano de 2017 testemunhamos passeatas neonazistas acontecendo a luz do dia em países como os Estados Unidos. Naquela ocasião, não foram poucas as pessoas a defenderem uma suposta liberdade de expressão daqueles que marchavam, além de o presidente daquela nação ter demorado mais de um dia inteiro para condenar publicamente tal manifestação. Num cenário como esse, fica evidente que não estamos tão distantes do começo do século XX quanto gostaríamos de acreditar, e parece providencial que um livro como O Diário de Anne Frank, o célebre relato de uma menina que foi vítima do regime de violência e extermínio imposto por Hitler, esteja sendo revivido logo agora no Brasil.

Em Anne Frank – A biografia ilustrada, Sid Jacobson e Ernie Colón, autores prolíficos na área dos quadrinhos, revivem a história de Anne em um novo formato, expandindo-a para além do conteúdo presente no diário. A biografia começa contando brevemente quem eram os pais de Anne e termina apenas em 1991, com a morte de Otto Frank — único sobrevivente da família e responsável por levar a palavra da filha adiante e tornar o diário o documento histórico valioso e difundido que é até hoje. Porque eram judeus, Anne e seus familiares precisaram fugir da Alemanha e mudar de lar algumas vezes. Embora o processo fosse física e emocionalmente exaustivo para todos, eles puderam viver com relativa liberdade por algum tempo antes de 1942, quando os rumores a respeito dos campos de trabalho forçado levaram os Frank a optarem por se esconder na hoje muito famosa edícula (ou anexo) de menos de 65 metros quadrados que dividiram com outras quatro pessoas por mais de dois anos.

O fascínio e impacto causados pelo Diário não se resumem ao fato de este ser um documento histórico ou o retrato de um momento que marcou para sempre a história ocidental; é a profunda humanidade de Anne — presente em suas brigas com a mãe, seus sonhos para o futuro, seu primeiro amor — que torna o relato ainda mais valioso. Ler seu diário é uma forma de tornar mais reais os horrores que no texto impessoal de um livro didático podem parecer distantes demais. Mas o encanto de Anne vai além: assim como Malala Yousafzai, outra garota extraordinária de nossos tempos, ela é capaz de buscar enxergar o lado positivo da situação e olhar para o futuro do mundo com uma esperança que parece quase sobre-humana — como se fosse uma heroína da vida real. “Nesses momentos, não penso na infelicidade e, sim, na beleza que permanece”, dizia ela do alto de seu 14 anos — “a beleza continua a existir, mesmo na desgraça”. Seu conselho, diz ela, seria que pensássemos nela, na beleza, a de fora e a de dentro. O que é, é claro, nada menos que extraordinário.

Uma biografia de Anne levantava em mim a dúvida sobre como seu fascínio seria reproduzido sem as palavras que a tornaram tão célebre, mas Jacobson e Colón fazem isso através do uso de citações da própria garota e também pela representação de seu espírito incansável dentro dos quadrinhos. Vejo a Biografia Ilustrada não como um substituto ao diário, mas como complemento a ele — para aqueles que já o leram –, ou então um convite para conhecê-lo. O trabalho de pesquisa dos autores é muito bom, e um ponto particularmente positivo de seu livro é a contextualização histórica que eles fazem em muitos momentos, que conta com mapas, gráficos e outras ferramentas que se fizeram necessárias. Dessa forma, mesmo um leitor muito jovem ou que não tenha conhecimentos aprofundados sobre a história do período poderá compreender com facilidade o estado da Europa em que os Frank viviam e como se deu a evolução de popularidade de uma figura como a de Hitler, que pode parecer inexplicável sem a devida reflexão.

Como um livro de quadrinhos, a biografia não é perfeita. Por ser muito focada nos textos auxiliares, que funcionam como uma espécie de narração em off, os diálogos por vezes são muito superficiais podem parecer quase desnecessários. Embora o traço seja bonito e alguns painéis sejam ricos em detalhes e muito cativantes para o olhar (fica um elogio em especial àqueles desenhados a partir de fotografias históricas), muitos são excessivamente simples, tendo somente cores chapadas como plano de fundo, por exemplo. Não é uma obra como o Maus de Art Spiegelman, de temática similar, por exemplo. Ainda assim, a biografia traz uma boa cota de escolhas inspiradas: minha favorita é uma estrutura usada repetidas vezes que opõe, de um lado da página, um grande painel representando os horrores do regime, e, do outro lado, os Frank apenas tentando viver suas vidas como todos nós. A crueldade não poderia ficar mais evidente.

Acima de tudo, reviver uma personagem tão importante da história do mundo em que vivemos é dar continuidade ao seu legado. É continuar levando sua palavra e sua enorme carga de vida adiante, e torná-la acessível e atrativa mesmo para aqueles que não tem o hábito de leitura. “É preciso lembrar, nunca esquecer”, diz o texto de apresentação na contracapa do livro — e hoje talvez isso seja mais verdade do que nunca. Revisitar Anne Frank é um lembrete de que jamais podemos nos calar diante das injustiças e do ódio.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.