Indicações: Vai ter autora sim!


2014 foi o ano do projeto #readwomen2014 ou, em sua versão brasileira, #LeiaMulheres2014. Muito mais do que apenas propor que se lesse mais escritoras mulheres, o projeto buscou discutir as disparidades de gênero dentro do mundo literário. Com o fim do ano, no entanto, não chega ao fim o machismo existente dentro da literatura e do mercado editorial, muito menos a necessidade de expô-lo e debatê-lo. Por isso, a Revista Pólen traz pequenos comentários sobre livros de autoras mulheres que fizeram o ano valer e podem te ajudar se você quiser continuar lendo mais mulheres em 2015.

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O Assassino Cego – Margaret Atwood

Um grande e complexo romance sobre memória, arrependimentos, tirania e o próprio ato de narrar. Iris, então com oitenta anos, reconta toda sua vida. Seu casamento que foi praticamente um negócio, a morte da irmã Laura e a recepção do livro de Laura, publicado postumamente e que mudou para sempre a vida da família. O leitor lê o relato de Iris ao mesmo tempo em que tem acesso ao livro de Laura, também chamado O Assassino Cego. Em determinado momento dentro do próprio livro, outra história começa a ser contada, o que exige uma atenção redobrada. Ao fim, é impressionante como as histórias paralelas se entrelaçam. Margaret Atwood, ícone da literatura canadense, constrói uma trama intrincada que lida brilhantemente com temas humanos complexos e com os diferentes momentos históricos pelos quais a história passa.

VIDA_QUERIDA__1384015498BVida Querida – Alice Munro

Ainda nas grandes escritoras canadenses, Vida Querida é possivelmente o último livro lançado pela vencedora do Prêmio Nobel de 2013. Lançado em 2012, é exatamente o que o leitor pode esperar da escritora de contos: uma compilação de histórias sobre vidas nada extraordinárias. Suas protagonistas são sempre mulheres com algum grande conflito interno. São perdas, infidelidades, questões morais, desejos indizíveis ou inaudíveis. As protagonistas de Alice Munro são sempre complexas, a ponto do leitor jamais saber se torce por elas ou contra elas. A diferença entre Vida Querida e os livros anteriores da autora talvez esteja na última parte dele, chamada “Finale”. Uma pequena nota anuncia que as narrativas a seguir não serão totalmente fictícias, tampouco inteiramente autobiográficas. Alice Munro prova, então, ser capaz de transformar a própria história em matéria viva da ficção.

PARA_QUANDO_FORMOS_MELHORES_1387111206BPara quando formos melhores – Celeste Antunes

Uma das melhores surpresas nacionais desse ano foi o romance de estreia de Celeste Antunes. Curto, despretensioso e de uma leveza que esconde toda a profundidade de seus personagens, Para quando formos melhores é um daqueles livros que te fazem querer ter uma conversa com os indivíduos ficcionais se movimentando na página. A história acompanha um grupo de adolescentes que ainda não sabem muito bem quem são. Entre tardes preguiçosas e noites cheias de histórias insatisfatórias, eles tentam comunicar uns aos outros (e a nós) o que sentem e o que querem sentir. O livro poderia ser uma pequena e muito bonita ode à juventude. Essa época de muita insegurança e muitas dúvidas, que na verdade esconde certezas que ainda não conseguimos alcançar.

LANDLINE_1381692910BLandline – Rainbow Rowell

Infelizmente, Landline ainda não foi traduzido para o português. A tradução, no entanto, deve sair em 2015, já que a Editora Novo Século comprou os direitos de todos os livros da autora de Eleanor & Park e Fangirl. Ao contrário dos livros mais famosos de Rainbow, este não é direcionado ao público jovem-adulto. O que de maneira alguma diminui seu apelo. Landline acontece entre os dias 17 e 25 de dezembro de 2013. Durante a estressante época de Natal, Georgie McCool tem uma espécie de crise emocional ao ver seu casamento ir por um caminho aparentemente sem volta. Enquanto seu marido viaja para a casa da mãe com as duas filhas pequenas, Georgie fica para trabalhar e acaba encontrando um objeto misterioso que faz com que ela encare e reviva toda a história dela e de Neal, seu marido. O leitor acompanha os dois se apaixonarem ao mesmo tempo em que vê os dois juntos e infelizes quase vinte anos depois. Apesar de não ser o melhor de Rainbow Rowell, continua sendo uma dessas leituras para fazer o leitor continuar acreditando em coisas boas, ao mesmo tempo que reflete sobre as mudanças pelas quais os relacionamentos amorosos passam.

PAULA_1366310649BPaula – Isabel Allende

Paula é uma espécie de retrato da espera e da despedida, mas ao mesmo tempo é um relato vibrante sobre a vida da autora Isabel Allende. Em 1991, sua filha Paula adoece seriamente e acaba entrando em coma. Nos meses seguintes, Isabel resolve escrever cartas a ela, na tentativa de manter os laços com a filha e, quem sabe, com ela mesma antes da tragédia que marcou sua vida. Escute, Paula, vou contar uma história para que você não se sinta tão perdida quando acordar, é o que a autora diz logo no começo. Allende narra para a filha, então, toda a história de sua família. Da chegada dos antepassados ao Chile até a separação graças ao golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende.  A autora narra desde os sentimentos mais obscuros de sua infância até o contato inicial com o feminismo, do primeiro interesse amoroso ainda adolescente até o momento em que vê a cordilheira dos Andes de dentro do avião, sem saber se um dia poderá voltar. É um livro belo e doloroso, como somente uma história que mistura memória e espera pode ser.

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.