Latitudes: o amor em várias cidades e várias mídias


Texto: Miguel Doldan

Qual é a fórmula básica pra contar uma história de amor?

José (Daniel de Oliveira) é um fotógrafo famoso, que está um dia em cada país, fazendo ensaios e editoriais. Sabe de cor quais voos fazem quais escalas e conhece todas as manhas para se passar menos tempo nos aeroportos entre uma conexão e outra.

Olívia (Alice Braga) é uma renomada editora de moda, que viaja o mundo em busca de inspirações e tendências e que está acostumada a ditar o que é ou não in em sua coluna. Ela sequer tem uma casa própria, já que se sente muito mais à vontade em hotéis, e é capaz de acondicionar todos os seus pertences em duas malas pequenas e uma nécessaire.

Em comum, eles têm uma dificuldade enorme em criar vínculos, seja com lugares ou pessoas, e a crença de que qualquer tipo de limitação de espaço pode impedi-los de atingir todo seu potencial. Um dia seus caminhos se cruzam, sem querer, e obviamente daí nasce uma grande história de amor.

Essa é parte da premissa de Latitudes (2014), uma série-filme encomendada pela TNT e distribuída pela O2 Play. A coisa é que nessa história garoto-conhece-garota, os encontros acontecem cada vez em um lugar distinto. E o espaço (e o relacionamento das pessoas com esses espaços) faz toda a diferença.

Ao longo de 8 episódios, de em média 15 minutos cada, acompanhamos quando José e Olívia se encontram em Paris e passam uma noite descompromissada juntos. O affair, que deveria durar apenas aquela noite, acaba se estendendo quando eles se reencontram em Londres, depois em Veneza e outras cidades espalhadas pela Europa e pelo Brasil. Cada episódio acontece em uma cidade diferente e trata não só do relacionamento entre os dois personagens, mas deles com suas profissões e, principalmente, sobre o quanto eles continuam pulando de país em país para fugir de suas cidades de origem, onde existem conflitos com os quais eles preferem não lidar.

Se antes, porém, eles podiam facilmente ser uma pessoa diferente a cada cidade, agora – com os encontros cada vez mais frequentes e a incapacidade de pararem de se ver – eles precisam enfrentar esses conflitos domésticos e fazer as pazes com o que significa realmente encontrar um lugar no mundo, fincar raízes e chamar de seu.

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Latitudes é provavelmente um dos meus filmes brasileiros preferidos. Em partes, porque três dos quatro atores da produção são meus queridinhos. Também em parte, porque trata de desencontros amorosos do tipo que eu mais gosto, lembrando muito a atmosfera de Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995).

Porém, acho que – no fundo – o que mais me conquista nessa história é que não é só José e Olívia que a contam. As cidades são personagens a parte, com suas estéticas, sons e culturas individuais, sendo tão importantes para a narrativa quando o próprio casal principal. É nelas – e através delas – afinal, que essa história de amor é possível, e também por causa delas que a mesma história é tão complicada.

A ideia de transcender um único espaço, nesse caso, vai além dos limites da ficção. Latitudes cai de cabeça na teoria de projeto transmídia, termo criado por Henry Jenkins, professor de jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia. Ele afirma que um produto que “não se espalha, morre”.

Veiculado originalmente como uma série no canal de televisão TNT, Latitudes também teve episódios exibidos no YouTube (com a intercalação de cenas dos bastidores, que complementam as informações que temos sobre os personagens), e um formato de longa-metragem, exibido em cinemas selecionados. No último ano, ela também entrou no catálogo da Netflix.

Em entrevista à revista Época, o diretor Felipe Braga, disse que “quis colocar no colo do espectador a decisão de como, quando e onde consumir. No online e na TV, também podemos dar ao espectador algo gratuito para ser visto como ele preferir”.

Com plataformas cada vez mais interconectadas, e pessoas consumindo conteúdo cada vez mais personalizado, é bobagem acreditar que um pacote fechado – seja de série, filme ou mesmo livro – vá funcionar do mesmo jeito em todos os lugares. E isso é uma coisa que Latitudes, feita em 2014, já sabia muito bem.

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Sobre Miguel Doldan

Sonserino, sagitário e Criminal Minds trash. Quando era criança, decidiu que ia viver da escrita e ninguém teve o bom senso de impedir. Hoje é jornalista e tenta sustentar seus dois gatos e o vício por Pepsi com isso, enquanto desbrava e conquista São Sebastião do Rio de Janeiro. Adora comédias românticas problemáticas e, de vez em sempre, escreve ficção.