“Las Insoladas”, de Gustavo Taretto


lasinsoladas

Quem nunca promoveu um Girls Night Out, ou qualquer “evento” deste porte, que atire a primeira pedra. Quiçá por isso mesmo seja difícil não se identificar de imediato com a premissa de Las Insoladas, longa mais recente do argentino Gustavo Taretto. Seis mulheres reunidas confraternizando e jogando conversa fora na laje. Pois sim, quem não vive em cidade com praia e nem tem piscina improvisa como pode.

O enredo é linear e acompanhamos um dia inteiro, do início ao fim, na laje. Aos poucos o grupo fica completo (cada uma chega em um horário), elas se deslocam pelo espaço conforme a conveniência – sempre focadas em aproveitar o sol ao máximo. Outro personagem essencial ao conjunto da obra. De tempos em tempos aparecem indicações que funcionam como capítulos, indicando o horário e a temperatura, que só aumenta. Tudo isso na década de 1990, em uma Buenos Aires ensolarada e pré-crise, no mês de dezembro, em pleno verão. Ao anoitecer, o grupo vai participar de uma competição de salsa. Ou seja, acompanhamos uma manhã de tarde de “preparo” antes da apresentação.

Vale deixar uma alerta – não vá ver o filme esperando grandes reviravoltas como no outro trabalho de Taretto, Medianeras (2011). Insoladas acontece inteiro nesse encontro de amigas, mudando de cenário apenas no fim, quando o número do grupo é apresentado durante a competição. O diretor preferiu se prender à questão do isolamento e da solidão, as dores e delícias de ser mulher e, como não poderia deixar de ser, o modo como tratamos nossos sonhos feito gente. Durante os diálogos, elas esboçam o plano de uma viagem a Cuba: festas abundantes e praias de verdade! Para sair um pouco da rotina do improviso em uma laje com vista para os prédios que se prolongam pelo infinito. Como todo ser humano, elas fazem planos, imaginam cada detalhe, ao mesmo tempo em que se frustram pela dificuldade em juntar economias para tornar a viagem possível.

O que sustenta o enredo são os diálogos – e aí é possível matar a saudade das frases geniais de Medianeras com um adendo – temos aqui uma sequência daquela sorte de maluquices que discutimos quando estamos com outras amigas. Assuntos relacionados a beleza, homens, viagens, trabalho, tudo isso que se disfarça de trivial mas diz muito sobre nós e o nosso lugar no mundo.

Temos todos os exemplos possíveis, sempre em contraponto. A amiga voltada ao misticismo e a cética, a que não consegue ficar sozinha e engata um namoro atrás do outro, a mais habilidosa para assuntos de beleza, a sonhadora, a que parece alheia aos acontecimentos ao seu redor… Taretto cede espaço a todo tipo de mulher. O melhor disso tudo? Usando mulheres reais em cena. Não há nenhuma atriz gostosona no elenco. Nada de impossível. Todas são simples, o que nos ajuda a criar uma identificação com as moças em cena. Nada daquele pavor hollywoodiano, quando encaramos a tela e somos tomadas pelo pensamento: “para ela, que é linda e padrão de capa de revista, tudo é mais fácil”. Conseguimos nos ver nas Insoladas. Gente como a gente, com as mesmas dificuldades e noias.

É legal ter um filme puramente feminino, porém há alguns pontos a serem contestados. Em diversos momentos fica a impressão de que não passamos de um bando de tagarelas e bem, nossa única habilidade é essa mesmo. Falar, falar e falar. O diretor perde a mão, talvez um deslize do olhar masculino que tenta nos entender e homenagear mas não sabe muito bem como. Ainda assim, podemos ver como um progresso. Em tempos atuais ainda temos diretores preocupados em nos colocar como protagonistas fortes e independentes, aptas a tomar as próprias decisões sem precisar se ancorar em um homem, mas tendo apoio de amigas com os mesmos embates diários.

Apesar dos percalços, Las Insoladas nos deixa uma mensagem bonita sobre a importância de valorizar nossas amizades e nossa feminilidade. Sororidade, inclusive, é um conceito que transparece ao longo do filme. Uma lembrança para abraçar a causa do feminismo e entender que nossa luta não pode parar.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.

  • É, Sabrina, foi o que me chateou também. Justamente essa mistura de boas ideias com estereótipos que não foi nada equilibrada. Ainda assim existe uma mensagem muito bonita sobre amizade feminina, que tem seus momentos difíceis, ditos “de recaída”, em que uma critica a outra, mas no fim das contas todas ficam unidas e se amparam. Picuinha é normal e sabemos disso da vida real, não é? Fico feliz que o Taretto ao menos tenha tentado dar voz às mulheres. Já é um começo 🙂

  • Exatamente!! Isso me irritou um pouco, porque quando parecia que viria uma sacada genial ele mandava um clichê ): Mas a fotografia dele não é incrível? Ele conseguiu declarar todo o amor que tem por Buenos Aires sem sair da laje, e isso foi um ponto alto.

    E é muito importante que tenham diretores do sexo masculino tentando dar voz a nós, mulheres. Pra mim já é um grande passo :))

  • haguilera

    Pra todo diálogo que me encantava, vinha um clichêzão que me irritava muito. Entretanto, admirei o poder de prender o espectador com tão pouco cenário, tão pouco acontecimento, acho que esse mérito é de nós mulheres 😉

  • Sabrina Coutinho

    Eu me decepcionei muito com esse filme justamente porque esperava menos estereótipos e mais valorização, acho que eles perderam a mão em alguns clichês. Mas o mais legal é isso de elas estarem planejando viajar juntas, mostrando que querem se ajudar com o dinheiro – mesmo que rolem umas picuinhas entre elas no meio disso.