Laranjeira


Quando a carta de Fernanda chegou, Pedro estava no fundo da casa. Havia acabado de dar o milho às galinhas, que ciscavam vorazmente sob seu olhar distraído.

Ajeitou o chapéu para melhor se proteger do sol escaldante. Meteu um talo fino de mato nos lábios antes de correr os dedos pelo envelope. Sua irmã não se comunicava com ele desde que fora embora da antiga fazenda da família. Partiu de súbito, na calada da noite e sem se despedir. Sem dizer a Pedro aonde iria. Isso há seis meses.

Levantou os olhos a tempo de ver os pássaros voando entre as árvores. Rasgou o envelope com certa pressa, mas com cuidado para não rasgar o papel dobrado dentro dele. Desdobrou a folha e reconheceu, num misto de ressentimento e alegria, a letra da irmã:

“Querido Pedro,

Você se lembra de quando éramos pequenos e o vovô nos levava para o roçado? Lembra como você subia nas árvores até o topo enquanto eu corria atrás dos passarinhos até que, em alguma hora, infalivelmente, ele nos chamava à sombra da velha laranjeira, agachava e nos dizia sempre a mesma coisa?

Você deve lembrar, eu sei, mas, caso não o faça: Ele dizia que nenhuma árvore ficava grande e bonita, como a velha laranjeira, sem raízes fortes que a sustentassem.

Naquela época, acho que éramos novos demais para entender o que ele queria dizer com aquilo. Percebíamos que era sério, e talvez fosse essa a única razão que nos mantivesse quietos pelos poucos segundos em que ele falava, mas assim que ele sorria e passava a mão nos nossos cabelos, já voltávamos às nossas brincadeiras. De qualquer forma, isso nunca saiu da minha cabeça. Não sei se porque me foi repetido diversas vezes ou se porque, alguns anos mais tarde, eu entendi a mensagem e sua importância, mas isso sempre ecoou na minha mente ao longo da minha vida. Sabe por quê?

Porque, no fundo, eu nunca concordei com o vovô.

Não sei se é algo que já nasceu comigo, no meu espírito, na minha alma. Ou se eu adquiri conforme construí a minha visão de mundo. A única coisa que sei é que, pra mim, a mesma raiz que sustenta e nutre é aquela que mantém a árvore estática. Presa.

Você sim, meu irmão, concordou plenamente com ele, mesmo que inconscientemente. Levou ao pé da letra. Criou raízes fortes e profundas, como as da velha laranjeira. Eu te admiro muito por isso, por ter se tornado a rocha que serviu de apoio incondicional e inabalável à nossa família por todos esses anos, principalmente nos momentos em que mais precisamos, como quando papai se foi. E foi justamente por isso que eu parti sem te dizer nada. Tive medo da sua reação, de que as suas raízes acabassem me envolvendo de forma compressora (e opressora) e, confesso, também tive medo dos seus sentimentos. Eu não saberia lidar com a sua tristeza ou raiva.

Por isso, escrevo hoje na esperança de que qualquer sentimento ruim já tenha sido engolido pela sensação agridoce da saudade. E para te contar que não me arrependo. Nem sempre foi fácil, admito, mas eu percebi que se eu criasse raízes, nunca poderia ter asas. E você sabe que eu sempre gostei mais dos passarinhos.

Com carinho,
Fernanda”

Pedro levantou a cabeça por um segundo, meio atordoado. O talo pendeu preguiçosamente entre seus lábios enquanto fitava o céu azul. Passou o polegar pelo papel antes de dobrá-lo e guardá-lo no envelope.

Ajeitou o chapéu novamente e limpou o suor da testa com o punho. Antes de virar para tornar à casa, reparou como os pássaros que antes voavam entre as árvores agora jaziam pousados, em tenro descanso.

Deu as costas e, já caminhando devagar, não conseguiu conter um sorriso ao imaginá-los voando para longe.

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Sobre Vinícius Buono

Paulistano de carteirinha, daqueles que prefere cinza do que verde e gente do que bicho. Fanático por esportes e videogames, mas não me venha com League of Legends. Escritor por pura teimosia.