Lane Kim merecia mais – Semana Gilmore


Texto: Bárbara Reis

Ela conhece um milhão de bandas, sabe tocar bateria como ninguém e consegue manter esse conhecimento em expansão (e até expressá-lo quando dá) mesmo sob a constante observação de uma mãe mega conservadora. Lane Kim é praticamente uma super heroína, e definitivamente uma que não foi tratada como deveria pelos roteiristas de Gilmore Girls.

Quem assiste GG sabe que o tema geral da série são as relações familiares. Tanto no clã Gilmore quanto no Kim (e do Danes, e no Geller…), são inúmeras as tentativas de explorar o que da nossa criação – em especial as partes que odiamos – nós internalizamos, carregamos e reproduzimos sem nem pensar duas vezes. Esta é uma ideia especialmente bem sucedida dentro do relacionamento entre Lorelai e Emily Gilmore, com a primeira percebendo em diversos momentos que pode ser tão controladora, mesmo que de uma diferente maneira, quanto sua mãe. A aplicação dessa fórmula na relação de Lane com a mãe, por sua vez, não foi tão graciosa – e é aí que reside o grande nó na narrativa dessa personagem.

Emily e a Sra. Kim tem estilos de maternidade muito parecidos: ambas têm uma visão definida do futuro que almejam para suas filhas, e não admitem que nada que elas façam desvie desse caminho fictício. Enquanto para Emily esse caminho é mais relacionado ao percurso tradicional de uma WASP (white anglo-saxon protestant, categoria que é basicamente a elite da elite estado-unidense), para Sra. Kim, a vida ideal para Lane segue as tradições da cultura coreana evangélica a qual ela pertence – cultura esta que não envolve tocar em uma banda de rock, comer pratos repletos de açúcar e gordura e ter relacionamentos com garotos não-coreanos.

Por que eu estou falando tudo isso? Pois bem, porque, ao meu ver, a decisão de tornar Lane uma mãe – e uma mais reguladora do que se esperava – foi uma tentativa de estender a reflexão da maternidade a outro núcleo familiar da série. Além de ser algo um tanto não convincente, esse é o desfecho de um conto que soa um tanto moralista: após passar anos “se guardando” para o casamento e tendo seu gosto musical como o maior desvio da conduta desejada por sua mãe, Lane engravida na sua primeira transa – que nem agradável foi. Intencionalmente ou não, sua gravidez, no contexto da série, acaba sendo lida como algum tipo de punição pelo pouco que ela conseguiu fazer em sua adolescência. Ou pior: uma piada cínica – “esperou tudo isso pra ter uma primeira vez terrível e ainda por cima acabar com gêmeos! Não é hilário que seja ela e não a Rory, que tem uma vida sexual ativa há muito mais tempo e assim, chances estatísticas maiores? Nós somos tão inteligentes.”

Só saberemos o destino certo de Lane Kim no dia 25 deste mês, mas isso não faz daquele que aceitamos nos últimos dez anos menos errado. Não consigo pensar em nada que justifique inteligentemente a decisão de torná-la uma mãe adolescente. Uma jovem com sonhos de estrelato que praticamente acabou de sair de casa e partir para uma vida independente… Acho que essa situação, por si só, já podia gerar uma multiplicidade de arcos diferentes e bem mais empolgantes — e que explorássem melhor a personagem — sem qualquer necessidade de tirar da manga um dos clichês mais entediantes do mundo.

E como se não bastasse fazê-la mãe, também criam uma marcada mudança de personalidade no momento em que isto acontece — uma segunda parte essencial da fantasia machista da maternidade, é claro — quando a atitude mais digna à caracterização de Lane seria ao menos retratá-la como alguém desesperada para ser A Mãe Mais Cool do Mundo. Acredito que essa — e não o contrário, como estabelecido pelos escritores — seria a tendência dela, mesmo que isso não viesse a se concretizar em todos os momentos. Se o seu arco da maternidade tivesse sido montado assim (e dispensasse a repulsa/trauma do sexo), aí, talvez, ele seria digno de respeito. Eu continuaria, entretanto, não entendendo como alguém pensa nisso como a melhor opção possível num oceano de enredos passíveis de serem construídos.

Por outro lado, acredito que nós temos total direito de nos negarmos a acreditar que esse arco aconteceu. A sétima temporada de Gilmore Girls, devido a milhões de tretas, não contou com a autoria de Amy Sherman-Palladino, criadora da série; e tendo a acreditar que muitas decisões – especialmente o assunto deste texto – teriam sido radicalmente diferentes. Em uma foto recente da revival, Lane aparece na bateria, ao lado de Zach, que está tocando sua guitarra. Só nos resta esperar que justiça finalmente seja dada a melhor coreana da televisão.

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